Trabalho Completo Alef - Associação De Líderes Evangélicos De Filipe Camarão: Sua Relação Com A Missão Integral E O Reino De Deus

Alef - Associação De Líderes Evangélicos De Filipe Camarão: Sua Relação Com A Missão Integral E O Reino De Deus

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Categoria: Religião

Enviado por: pralsantos 13 abril 2013

Palavras: 10807 | Páginas: 44

ALEF – ASSOCIAÇÃO DE LÍDERES EVANGÉLICOS DE FELIPE CAMARÃO: Sua relação com a Missão Integral e o Reino de Deus

INTRODUÇÃO

Este trabalho trata-se de estudo de caso, onde se analisará a ALEF – Associação de Líderes Evangélicos de Filipe Camarão e a sua relação com os temas da Missão Integral e do Reino de Deus.

A ALEF – Associação de Líderes de Filipe Camarão, doravante tratada apenas por ALEF, trata-se de entidade paraeclesiástica que atua num dos bairros mais pobres e violentos da cidade de Natal, capital do Rio Grande do Norte (Brasil).

Num primeiro momento, analisaremos resumidamente a temática da Missão Integral no contexto latino-americano. Para isto, partiremos do movimento evangelical latino-americano, e utilizaremos teólogos de nossa região.

Num segundo momento, analisaremos também resumidamente, o tema do Reino de Deus, fugindo das generalidades, e focando principalmente na perspectiva da teologia evangelical latino-americana.

Finalmente, na última parte do trabalho, intencionamos retratar a ALEF, partindo de seu nascimento, analisando sua relação com os principais temas deste trabalho: Missão Integral e Reino de Deus, e registrando suas principais ações e projetos.

I - MISSÃO INTEGRAL NO CONTEXTO LATINO-AMERICANO: Uma pequena abordagem

1 - O Movimento Evangelical como pressuposto para a Missão Integral

O movimento evangélico é bastante complexo e fluído, e categorizá-lo por identidade não é uma tarefa simples, mas bastante complexa, senão, praticamente impossível. O movimento não possui uma única fronteira institucional, possui diversos marcos teóricos e muitas experiências, e, durante o século XX passou por diversas refigurações (RODRIGUES, 2009, p. 18).

Entre as refigurações ocorridas no século anterior, uma merece destaque por sua relevância no contexto da América Latina: o movimento conhecido como Missão Integral. Nele, teólogos propunham uma teologia holística que unisse no conceito de evangelização tanto a proclamação como a responsabilidade social. Praticava-se o diálogo com as ditas ciências humanas e sociais, citavam a teologia da libertação como referencial teórico de vários textos e não hesitavam em falar de contextualização. A teologia tinha que ser feita “de baixo” a partir das realidades do povo (RODRIGUES, 2009, p. 18).

Contudo, antes de nos adentrarmos no tema da Missão Integral, convém abordarmos, mesmo que sucintamente, o tema do evangelicalismo, haja vista que há uma estreita relação entre os dois movimentos. Como bem diz Moreira (2011, p. 01): “Compreender o significado teológico do termo ‘evangelical’, bem como as manifestações históricas deste, é imprescindível para entender o conceito de ‘Missão Integral’, que nasce do caldo evangelical no início do século XX” .

Para Bonino (2003, p.31), o termo ‘evangélico’ (donde se deriva o termo ‘evangelical’) não é muito preciso em seu significado histórico. Contudo, seu fundo histórico encontra-se no movimento pietista e nos avivamentos da Grã-Bretanha e da América do Norte. Entre os principais pontos do momento evangélico, Bonino destaca: a confiança irrestrita na Bíblia Sagrada, a pregação da salvação, o perdão dos pecados por Jesus Cristo através da sua obra salvadora e a necessidade da conversão ao evangelho . O referido autor diz:

[...] podemos reconhecer nesse resumo a teologia do pietismo e do Grande Despertar (ou avivamento) do Século XVIII que associamos aos nomes de Wesley e Whitefield na Grã-Bretanha e de Jonathan Edwards nos Estados Unidos e que permeia a maior parte do protestantismo anglo-saxão e seguramente a totalidade do seu etos missionário. (BONINO, 2003, p. 31).

O teólogo e sociólogo brasileiro Gouvêa de Mendonça parece corroborar o pensamento de Bonino ao afirmar as origens do evangelicalismo no movimento metodista, ao afirmar: “Desse trabalho de meio século resultou o grande movimento ‘evangelical’, que surgiu na Igreja da Inglaterra, em fins do Século XVIII, e cujos efeitos se prolongam até os dias de hoje” (MENDONÇA, 2000, p. 60).

Para o missiólogo Carlos Caldas, o evangelicalismo apareceu em segmentos existentes dentro do anglicanismo, que articularam a renovação da fé inspirados nos evangelhos, acrescentando ainda que, a utilização do termo ‘evangélico’ antecede à própria Reforma Protestante, mas em Martinho Lutero foi associado à causa reformada. O referido pesquisador, a partir de leituras do bispo Anglicano Robinson Cavalcanti, faz a seguinte referência ao evangelicalismo:

1) O evangelicalismo tem origem na Grã-Bretanha e não nos Estados Unidos da América; 2) o evangelicalismo tem origem no anglicanismo e não nas igrejas livres; 3) o evangelicalismo original tinha forte consciência social e política; 4) por sua base em universidades como Cambridge e Oxford, o evangelicalismo sempre foi compatível com a excelência acadêmica [...] 8) o fundamentalismo (fraco na Grã-Bretanha e forte nos Estados Unidos) surgiu 100 anos depois, como expressão localizada e extremada do evangelicalismo, e não o evangelicalismo como expressão moderada do fundamentalismo (CALDAS, 2007, p. 76).

É interessante frisar que o evangelicalismo histórico-anglicano, traz consigo os elementos fundamentas da Reforma Protestante em sua vertente calvinista, contudo, sob nova vitalidade no conjunto de avivamentos religiosos. Mas, o evangelicalismo que chegou ao Terceiro Mundo, inclusive à América Latina, não foi exatamente aquele puramente anglicano, mas uma nova forma de evangelicalismo influenciada pelos avivamentos religiosos, tanto na Inglaterra como na América do Norte, e pelo denominacionalismo (MOREIRA, 2012, p. 02).

Para o teólogo e missiólogo peruano Samuel Escobar, a forma de protestantismo que se desenvolveu na América Latina é caracteristicamente evangélico, tanto em seu sentido histórico como em seu conteúdo teológico. O referido autor declara:

A maior parte dos missionários que vieram à América Latina pertencia a um setor do protestantismo europeu ou norte-americano que em inglês se descreve com o termo ‘Evangelical’, e que na Europa se costuma descrever como ‘pietista’ (ESCOBAR, 1987, p. 47).

Pode-se assegurar que na América Latina, estes e outros elementos citados do evangelicalismo se fundiram à experiência sócio-histórica e cultural do continente latino-americano, e, desta fusão surgiu um novo e diferenciado tipo contextualizado de movimento evangélico, apropriado e peculiar à América Latina e seus problemas internos e peculiares. Esse movimento evangelical revela em sua teologia uma compreensão do pecado humano menos ontológica, e mais preocupada com os problemas concretos da América Latina. Por conseguinte, a salvação em Cristo também será abordada de modo integral e a evangelização será caminho para a libertação (MOREIRA, 2012, p. 03).

É interessante também frisar que o movimento evangelical, assim como outros movimentos da matiz protestante, não está reduzido/restrito a uma ou outra denominação protestante; mas, envolve vários segmentos dentro delas. E, neste sentido, os que se confessam “evangelicais”, afirmam normalmente os princípios de fé da denominação onde estão integrados e aqueles outros que são próprios do movimento histórico citados; obviamente, na medida em que é possível a conciliação. Neste aspecto, Bonino destaca:

É notável perceber que, não obstante sua diversidade confessional – metodistas, presbiterianos e batistas em sua maioria – e de origem – americana e britânica -, todos compartilham um mesmo horizonte teológico, que se pode caracterizar com o termo evangélico (BONINO, 2003, p. 31).

Essa linha transversal dentro do protestantismo, relacionando os mais diferentes grupos através de elementos teológicos comuns, os fez convergir para a missão da Igreja. No caso específico da teologia latino-americana, para a missão integral da Igreja. Assim, é possível identificar evangelicais no interior das diferentes denominações evangélicas, tanto reformados como pentecostais.

Para finalizar este ponto, listamos resumidamente a seguir, as principais articulações e tentativas dos evangelicais de desenvolverem suas propostas e ideais, conforme listagem do historiador brasileiro Harley Abrantes Moreira . Essas articulações se manifestam em algumas instituições e alguns encontros e congressos que, desde 1923, com a criação da AEM – Aliança Evangélica Mundial passaram a organizar-se e a dar corpo ao movimento evangelical. Vejamos:

• Em âmbito mundial, temos o Congresso sobre Missão Mundial (1966, Wheaton); Congresso Mundial de Evangelização (1966, Berlim); Lausanne (1974). Entre as instituições mundiais temos: CEM – Comunhão Evangelical Mundial; AEM – Aliança Evangélica Mundial; Visão Mundial; CIEE – Comunidade Internacional de Estudantes Evangélicos, entre outras.

• Na América Latina, temos: o CLASE – Consulta Latino-america sobre Evangelização (1962); os CLADEs – Congressos Latino-Americanos de Evangelização, em todas as suas edições (Bogotá, 1969; Lima, 1979; Quito, 1992; Quito, 2000; San José, 2012). A constituição da FTL – Fraternidade Teológica Latino-america (Cochabamba, 1970). Entre as instituições latino-americanas, destacamos: ANE – Associação Nacional de Evangelização; CEAL – Comitê Evangelical para a América Latina e a já mencionada FTL;

• No Brasil, aconteceram pelo menos três importantes congressos evangelicais: o Congresso Brasileiro de Evangelização (CBE, 1983); o Congresso Nordestino de Evangelização (1988); a Segunda edição do Congresso Brasileiro de Evangelização (CBE 2, em 2003), e o Segundo Congresso Nordestino de Evangelização (2005). Entre as instituições brasileiras, podemos citar: ABU – Aliança Bíblica Universitária; Visão Mundial; FTL; AEVB – Aliança Evangélica Brasileira (MOREIRA, 2012, p. 03).

É importante ressaltar que toda essa movimentação evangelical tem seu clímax na realização do Congresso de Lausane em 1974, onde os principais teólogos evangelicais puderam e conseguiram se expressar em diversas temáticas. Sem dúvida, de todas as articulações de cunho evangelical realizadas e apresentadas até então, o Pacto de Lausanne foi a maior delas. Vejamos as palavras do conhecido teólogo equatoriano René Padilha sobre este evento:

A revista Time descreveu o congresso de Lausane como “um foro formidável, possivelmente a reunião mais global já realizada pelos cristãos”. O que o jornalista que escreveu essas linhas provavelmente tinha em mente, foi o fato de que o congresso reuniu 2473 “participantes” e cerca de 1000 observadores de 150 países e 135 denominações protestantes. Mais importante que isso, no entanto, foi o impacto do congresso em todo o mundo. Nas palavras do evangelista Leighton Ford, “se houve um momento da história em que os evangélicos se colocaram em dia com a sua época, seguramente este momento deve ter sido em julho de 1974. Lausanne explodiu como uma bomba. Foi um despertar para todos os que participaram e para milhares de cristãos e muitos países que leram a respeito” (PADILLA, 1992, p. 08).

É interessante também registrar o quanto comentado por Ricardo Wesley, que foi secretário geral da ABUB – Aliança Bíblica Universitária do Brasil:

É verdade que teve um alcance e influência mundiais a respeito da agenda de missão. Talvez tenha tido seus méritos por permitir que expressões dessa reflexão teológica da Missão Integral encontrassem ali espaço, oportunidade para amadurecimento, para divulgação e para a formação de lideranças evangélicas do mundo todo, a partir desses paradigmas teológicos que foram formulados (BORGES, 2003, p. 13) .

Finalizando, podemos assegurar que o Lausanne foi o maior representante do evangelicalismo, e, ainda hoje, continua sendo o principal instrumento do conceito de missão integral, com garantida influência em diversos locais do planeta e nos mais diferentes setores.

2 - Uma Pequena Abordagem do Movimento de Missão Integral na América Latina e no Brasil

Tendo buscado uma compreensão, ainda que sucinta, do movimento evangelical, caminharemos no sentido de entendermos o significado da Missão Integral (a partir daqui tratada apenas como MI) e a sua influência no contexto teológico da América Latina.

2.1 - Lausanne e sua influência sobre a Missão Integral latino-americana

Como vimos acima, o Lausanne marcará toda uma geração pela sua reflexão e grandiosidade em trazer novas perspectivas para a teologia e eclesiologia a nível mundial, mas, caracteristicamente sobre a América Latina, influenciando decisivamente na concepção teológica da Missão Integral .

Para Rocha (2012, p. 02), o espírito de Lausane é a força matriz de uma nova teologia latino-americana. Para o referido autor, o mundo a que se refere o Congresso de Lausanne: “...é o mundo marcado pelo individualismo acentuado pelo capitalista, onde reina uma espécie de darwinismo social, uma seleção de espécies baseadas na força violenta do capital.

Neste sentido, exemplificando bem o contexto do congresso de Lausane, é importante ouvirmos a voz de Samuel Escobar, principalmente se levarmos em consideração o contexto latino-americano:

Imagine toda a população do mundo condensada numa aldeia de 100 habitantes. Deste número, 67 seriam pobres. Os 33 restantes, em grau variado, seriam ricos. De toda a população, somente 7 seriam norte-americanos. Os outros 93 ficariam vendo os 7 norte-americanos gastarem a metade de todo dinheiro do mundo, comerem um sétimo de todo o dinheiro e usarem metade de todas as banheiras existentes. Esses 7 teriam dez vezes mais médicos do que os outros 93. Nesse ínterim, continuariam enriquecendo cada vez mais, enquanto os 93 continuariam empobrecendo (ESCOBAR, 1982, p. 173 apud ROCHA, 2012, p. 02).

As questões neste contexto eram contundentes e extremamente fortes: como falar de justiça a um povo totalmente injustiçado? Como anunciar o Reino de Deus num mundo que não reconhece na igreja sua representante? Ora, se a igreja proclama que o Reino de Deus já está presente entre nós, então ela deve transparecer esta realidade? Mas, ela transparece? O que fazer e como fazer para que as desigualdades entre ricos e pobres sejam diminuídas ou totalmente dirimidas? Como e o que fazer para que a Igreja seja de fato uma agência de transformação histórica e social? A Igreja, na perspectiva de Lausane, sobretudo a partir do olhar latino-americano exposto por Samuel Escobar, deveria redefinir sua Missão a partir de Jesus Cristo, que viveu sua vida e ministério entre os homens e mulheres como apontado pelo Evangelho de João 20.21: “Assim como o Pai me enviou, eu também vos envio a vós” (ROCHA, 2012, p. 03).

Para Rocha (2012, p. 02), a participação de alguns teólogos latino-americanos foi fundamental para uma guinada na matriz teológica orientadora do Congresso de Lausanne. A presença destes teólogos colocou em pauta a necessária reflexão sobre as estruturas sociais e os contextos culturais dos povos onde a missão se realiza. Essa influência se mostra em diversos momentos do Congresso: na sua composição, eram inúmeros os participantes vindos da América Latina e Caribe; nas palestras apresentadas, destacando-se duas: A evangelização e a busca da liberdade, de justiça e de realização pelo homem, de Samuel Escobar, e A evangelização e o mundo, de René Padilla; na composição de vários documentos de desdobramento das discussões e, na redação do pacto final, chamado de Pacto de Lausane.

De fato, foram os teólogos latino-americanos, como Escobar, Padilla e Costas que proferiram as declarações mais fortes no sentido de que a preocupação com as necessidades sociais da humanidade e o envolvimento com as mesmas é uma parte necessária do testemunho e da responsabilidade dos cristãos em favor do mundo (LOPES, 2007, p; 14). Ouçamos a voz do Padilla no próprio Congresso:

Nossa maior necessidade é um evangelho mais bíblico e uma igreja mais fiel. Poderemos nos despedir deste congresso com um belo conjunto de papéis e declarações que serão arquivadas e esquecidas, e com lembrança de um grande e impressionante encontro de âmbito mundial. Ou poderemos sair daqui com a convicção de que temos fórmulas mágicas para a conversão das pessoas. Eu pessoalmente espero em Deus que possamos sair daqui com uma atitude de arrependimento no que diz respeito à nossa escravidão ao mundo e ao nosso arrogante triunfalismo, com senso de nossa incapacidade de sermos libertos dos grilhões a que estamos atados e, apesar disso, com grande confiança em Deus, o Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que “é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos ou pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a Ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém” (PADILLA, 1982, p. 171 apud LOPES, 2007, p. 14).

É importante também ouvir a voz de Samuel Escobar, outro importante teólogo latino-americano presente no Congresso de Lausanne:

Uma espiritualidade sem discipulado nos aspectos diários da vida – sociais, econômicos e políticos -, é religiosidade e não cristianismo [...] De uma vez por todas, devemos rejeitar a falsa noção de que a preocupação com as implicações sociais do evangelho e as dimensões sociais do testemunho cristão resultam de uma falsa doutrina ou de uma ausência de convicção evangélica. Ao contrário, é o interesse pela integridade do Evangelho que nos motiva a acentuarmos a sua dimensão social (ESCOBAR, 1997, p. 98 apud LOPES, 2007, p. 14 e 15).

Faz-se mister registrar que o pacto de Lausane definiu a posição dos evangélicos contra um evangelho mutilado e distorcido, e afirmou o interesse profundo e permanente dos evangélicos pela ação social em favor dos pobres e necessitados, até mesmo a ponto de se esforçarem pela mudança das estruturas sociais. O pacto de Lausanne também permaneceu firmemente evangélico, acentuando a autoridade da Bíblia, a singularidade de Cristo e a necessidade da evangelização. Ele também produziu algumas mudanças bem definidas na teologia evangélica de missões e foi muito além das declarações evangélicas tradicionais, demonstrando que o evangelismo bíblico é inseparável da responsabilidade social, do discipulado cristão e da renovação da igreja (LOPES, 2007, p. 15).

O autor acima referido também acrescenta:

Lausanne abordou o tema abrangente da evangelização mundial, referindo-se com isso ao ministério e à missão total da igreja. Destacou temas como: o propósito de Deus, a autoridade e o poder da Bíblia, a unicidade e universalidade de Cristo, a natureza da evangelização, a cooperação na evangelização, o esforço conjugado de igrejas na evangelização, a urgência da tarefa evangelística, evangelização e cultura, educação e liderança, conflito espiritual, liberdade e perseguição, o poder do Espírito Santo e o retorno de Cristo (LOPES, 2007, p. 15).

Sabe-se da grande diversidade teológica que estava presente no Congresso de Lausanne (alguns grupos conservadores que insistiam em manter a visão do conversionismo e do anti-ecumenismo), bem como das tensões presentes nas discussões. Mas, uma nova tônica principal do Congresso foi marcada por uma nova visão que passou a identificar sua abordagem teológica, a saber: o principal lema desta teologia que estava nascendo era “o evangelho todo, para todo o homem e o homem todo”. Esse espírito de Lausane é a matriz da teologia de missão integral, que doravante influenciaria o pensamento teológico latino-americano.

Finalizando esta seção, convém registrar a redação do Pacto de Lausanne, que procura quebrar com a visão polarizadora entre pregação e ação social, ao mesmo tempo em que reconhece os erros praticados no passado:

Nos arrependemos de nossa negligência em face de nossa responsabilidade social cristã, bem como de nossa polarização ingênua em termos, algumas vezes, considerando a evangelização e a atividade social como mutuamente excludentes [...] Devemos repudiar como demoníaca a tentativa de colocar uma cunha entre evangelização e ação social (STOTT, 2003, p. 46, 47 apud MOREIRA, 2012, p. 05).

Definitivamente, Lausanne trouxe novos pressupostos para solucionar a tensão existente no binômio evangelização x ação social, propondo uma perspectiva onde o homem fosse encarado e visto na sua totalidade e integralidade. Isto mudaria decisivamente o rumo da teologia latino-americana, e traria influência na teologia e eclesiologia do mundo todo.

2.2 - Missão Integral: uma breve perspectiva teológico-conceitual

Para alguns, a MI é um novo modo de refletir e fazer teologia, com uma forte ênfase na práxis, onde o homem é contemplado integralmente. Este é o caso de Rodrigues, pois vejamos:

A Missão Integral (MI) surgiu entre os protestantes com a proposta de proporcionar exatamente o que o título indica: o cumprimento da missão da Igreja de uma maneira holística [...] uma ação que produza transformação espiritual e social na comunidade (RODRIGUES, 2009, p. 56).

Para outros estudiosos, contudo, a MI é uma alternativa à Teologia da Libertação, reflexo da teologia contextual, e que teve grande influência nas décadas de 70 e 80 no contexto de toda América Latina. Vejamos as colocações dos estudiosos Lopes e Sanches a esse respeito:

Em meio a um período conturbado da história recente da América Latina, quando nosso continente foi sacudido por profundas convulsões políticas, ideológicas e sociais, muitos cristãos aderiram à agenda revolucionária da Teologia da Libertação. A Fraternidade Teológica Latino-Americana tem feito um esforço sério no sentido de apresentar uma alternativa a essa teologia que fosse bíblica, evangélica e igualmente radical em suas implicações. Eles demonstraram que as igrejas podem permanecer fiéis às suas convicções históricas e, ao mesmo tempo, adotar uma postura ousada e coerente em relação aos problemas sociais (LOPES, 2007, p. 20).

Na América Latina, a face mais visível da teologia contextual foi a teologia da libertação. Contudo, a teologia evangélica chamada missão integral, ofereceu um exemplo semelhante, de articulação entre a atividade teológica e seu contexto latino-americano, ainda que não tão bem divulgada quanto sua parceira (SANCHES, 2010, p. 82).

Não é nossa intenção neste trabalho opinar sobre qual das visões acima descritas está correta em sua interpretação no que diz respeito à motivação para o surgimento da MI. Quem sabe as duas visões não estão corretas? Quem sabe não houve uma interdependência entre as duas? Mister se faz ressaltar neste trabalho é que a partir da década de 80, uma nova visão e um novo conceito teológico surgem no que diz respeito à prática evangelística e missionária da Igreja, com grande impacto sobre a vida da Igreja latino-americana e mundial.

Em se tratando do nascedouro da MI, vimos anteriormente que o movimento evangelical e o Congresso de Lausane serviram de bases para o lançamento dos alicerces da MI. Para Moreira (2012, p. 03 e 04), não existem registros sobre instituições e eventos evangelicais antes do Pacto de Lausane indicando que o conceito de “Missão Integral” tenha sido algo dado, fruto de um pensar teológico. Para o referido autor, o primeiro texto evangélico onde encontramos uma elaboração mais intensa sobre a temática foi escrito em 1978 por René Padilla, com o título de “Missão Integral”. Este era um ensaio que circulou na IV Conferência Internacional de Estudos Missionários, realizada em Nova Iorque, em agosto daquele ano. Segundo Moreira, tal conceito surge como resposta à necessidade de esclarecer que não existe divisão entre pregação do evangelho e ação social e que, ambos, pertencem à mesma agenda da igreja.

Já para Rodrigues, a MI é fruto das diversas articulações, congressos e consultas realizadas, algumas já comentadas neste trabalho. Mas, o termo ganha força e destaque nos círculos da FTL – Fraternidade Teológica Latino-Americana, com o intuito de:

Estabelecer um novo paradigma missiológico, não mais enxergando a missão da igreja apenas no sentido de evangelização transcultural, entretanto, ampliando este conceito para uma visão em que “cada necessidade humana é uma oportunidade de ação missionária” (RODRIGUES, 2009, p. 20).

Esta também é a visão de René Padilla, pois vejamos:

A expressão “Missão Integral” foi gerada principalmente no seio da Fraternidade Teológica Latino-Americana há mais ou menos duas décadas. Ela foi, na realidade, uma tentativa de destacar a importância de conceber a missão da igreja dentro de um marco de referência teológico mais bíblico que o “tradicional”, ou seja, o que se havia instalado nos círculos evangélicos, especialmente por influência do movimento missionário moderno (PADILLA, 2009, p. 14).

Por sua vez, e adentrando mais na temática, surgem as seguintes questões: qual é o conceito de Missão Integral? Qual é sua finalidade? A que se destina? Cremos que estas são questões relevantes no contexto deste trabalho.

Quiroz (2003, p. 153 apud RODRIGUES, 2009, p. 55), afirma que a MI é o movimento protestante que resgata: 1) a função da koinonia (comunhão, em grego) – a comunidade cristã primitiva foi “antes uma fraternidade que uma assembleia”; 2) função ecumênica – “a palavra ecumênico provém de ‘oikumene’, que significa ‘terra habitada’. Sendo, portanto, função ecumênica sentir a responsabilidade de promover o bem estar integral de todo o mundo habitado”; 3) função profética – “a igreja deve cumprir sua função profética, convertendo-se na consciência moral e espiritual das nações e dos seus governos”.

Para Padilla (2009, p. 14, 17), a MI é um novo paradigma para a missão da Igreja, que rompe com o modelo missiológico tradicional que dominou o avanço da fé cristã evangélica no Século XIX e em grande parte do Século XX, onde o propósito principal da missão era “salvar almas” e “plantar igrejas”, principalmente no exterior, mediante a proclamação do evangelho . Assim diz o teólogo equatoriano a respeito do novo paradigma da MI:

Quando a igreja se compromete com a missão integral e se propõe a comunicar o evangelho mediante tudo o que é, faz e diz, ela entende que seu propósito não é chegar a ser grande numericamente, ou rica materialmente, ou poderosa politicamente. Seu propósito é encarnar os valores do reino de Deus e testificar do amor e da justiça revelados e Jesus Cristo, no poder do Espírito, em função da transformação da vida humana em todas as suas dimensões, tanto em âmbito pessoal como em âmbito comunitário (PADILLA, 2009, p. 18).

Padilla (2009, p. 18 e 19), acrescenta que o cumprimento deste propósito pressupõe o envolvimento de todos os membros da igreja, pois todos estão integrados no Corpo de Cristo, e assim receberam os devidos dons e ministérios para o exercício do sacerdócio. Desta forma, a missão não é responsabilidade/privilégio de um grupo seleto de pessoas que são chamados para o campo missionário, mas de todos os membros, que conforme I Pedro 2.9, são membros do sacerdócio real, chamados por Deus “ a fim de proclamarem as virtudes daquele que os chamou das trevas para a sua maravilhosa luz”.

Ainda para Padilla (2009, p. 19 e 20), este “novo paradigma para missão” não é de fato tão novo. Na verdade, ele é o resgate do conceito bíblico da missão, já que é desta forma que tal pressuposto é colocado nas Escrituras Sagradas. E, a partir desta perspectiva, são lançadas algumas bases interessantes da MI, a saber:

1) todas igrejas enviam e todas igrejas recebem, ou seja, todas igrejas tem algo a ensinar e algo a aprender com outras igrejas;

2) o mundo todo é um “campo missionário” e cada necessidade humana é uma oportunidade de ação missionária, ou seja , a igreja local é chamada a manifestar o reino de Deus em meio aos reinos do mundo não só pelo que diz, mas também pelo que é e por tudo o que faz em respostas às necessidades humanas;

3) todo cristão é chamado a seguir a Jesus Cristo e a comprometer-se com a missão de Deus no mundo; neste sentido, os benefícios da salvação são inseparáveis de um estilo de vida missionário e isto implica no exercício do sacerdócio dos crentes em todas as áreas e esferas da vida humana;

4) a vida cristã em todas as suas dimensões, em nível pessoal e comunitário, é o testemunho primordial da soberania universal de Jesus Cristo e do poder transformador do Espírito Santo.

E, Padilla conclui seu pensamento dizendo: “...a missão integral é o meio designado por Deus para cumprir na história, por meio da igreja e no poder do Espírito, seu propósito de amor e justiça revelado em Jesus Cristo” (PADILLA, 2009, p. 22).

Conforme podemos observar, na perspectiva dos teólogos latino-americanos referidos e citados neste trabalho, não podemos dissociar a tarefa evangelística-missionária da ação social. Neste sentido, convém registrar o que diz Lopes:

A missão integral enfatiza de modo claro que a evangelização e a ação social não se separam, tornando necessário pregar Jesus Cristo como Senhor e Salvador de forma verbal e prática, verbal no que diz respeito à palavra de Deus e ao plano salvífico de Jesus, para a restauração, transformação, libertação e cura do homem e da mulher, ou seja, de toda humanidade através do poder do Espírito Santo na vida espiritual e no relacionamento com Deus; e prática no que diz respeito ao testemunho de amor e vida de Jesus, na ação física solidária para com as necessidades dos pobres e marginalizados trazendo restauração, transformação, libertação e cura no viver do próximo dentro da sociedade, através do Espírito Santo no contato pessoal e social (LOPES, 2007, p. 20).

A partir disso, podemos então dizer que a MI reflete o cuidado de Deus pela pessoa como um todo (integral). Este continua sendo o grande desafio para a Igreja hodierna, qual seja: fugir do modelo missiológico trazido pelo protestantismo norte-americano e europeu, que não contemplava (e ainda não contempla) o homem no seu sentido holístico, apresentado-lhe um evangelho que lhe alcance em sua totalidade, um evangelho comprometido não apenas com o resgate espiritual, mas também com o resgate histórico e social.

É importante ouvir o que diz Escobar:

Sustentamos que uma evangelização que não toma conhecimento dos problemas sociais e que não anuncia a salvação e a soberania de Cristo dentro do contexto no qual vivem os que ouvem, é uma evangelização defeituosa, que trai o ensino bíblico e não segue o modelo proposto por Cristo, que envia o evangelista (ESCOBAR, 1992, p. 20 apud LOPES, 2007, p. 21).

E ainda acrescenta:

O evangelho não é um programa social e político. Não se trata, entenda-se bem, de que as igrejas evangélicas tenham que propor um programa político na América Latina. Essa não é sua missão. A mensagem de salvação deve chegar a cada um em sua circunstância, mostrando como o pecado afeta todas as esferas da vida e as relações entre os homens. A mensagem também deve demonstrar como a entrega pessoal a Jesus Cristo transforma a vida de cada um, de modo que os efeitos da conversão sejam visíveis na sociedade em que o crente vive (ESCOBAR, 1992, p. 34 apud LOPES, 2007, p.21).

A partir do quanto colocado por Escobar, podemos deduzir que a MI engloba os esforços para libertar as pessoas das prisões: espiritual, social, política e econômica. Contudo, para este fim, a igreja não deve propor programas políticos, pois a igreja não existe para isto. As mudanças virão com a atuação da igreja na proclamação e encarnação do evangelho de Jesus Cristo. Cristo é o modelo perfeito de serviço ao próximo, e convoca e envia sua igreja para ser igreja serva, sendo que, a missão de Cristo, é a missão da igreja (João 17.18).

Para finalizar esta discussão, gostaríamos de destacar mais uma vez as palavras de Lopes:

A missão integral nos chama a identificar-nos com o mundo, sem perder nossa identidade cristã, ou seja, significa conhecer a situação que nos rodeia e conhecer as pessoas que iremos servir, fazendo o melhor por eles como pessoas no mundo, amando a Deus e ao próximo; significa conviver com as pessoas a quem Deus se preocupa e nos enviou; significa compartilhar o evangelho em sua compreensão integral, lutando pela justiça e paz se preocupando com as necessidades humanas; significa comprometer-se com a vontade de Deus e com as pessoas (LOPES, 2007, p. 22).

A MI objetiva se relacionar com todo o ser humano e com o ser humano como um todo, transmitindo ao evangelho a dimensão de espiritualidade e ação social com integridade ética, trazendo o crescimento integral da missão e da igreja, avaliando os crescimentos numérico, orgânico, conceitual e diaconal, com um modelo de crescimento integral qualitativo a partir da espiritualidade, encarnação e fidelidade (LOPES, 2007, p. 22).

II - REINO DE DEUS NO CONTEXTO LATINO-AMERICANO: uma pequena abordagem

Se há um tema que tem profunda relação com o evangelicalismo e com a Missão Integral é o Reino de Deus. Por isso, discorreremos a partir deste momento sobre o mesmo. Contudo, convém frisar que devido à extensão e o objetivo deste trabalho, não iremos nos aprofundar em demasia sobre a temática, trazendo discussões como: diferenças entre Reino de Deus e Reino dos Céus, ou ainda, O Reino de Deus em Agostinho, ou mesmo, a visão reformada de Reino de Deus. O que pretendemos, é mostrar de modo sucinto a perspectiva da visão evangelical latino-americana sobre o tema. Para levar a cabo tal intento, abordaremos um limitado número de teólogos latino-americanos.

Não podemos negar que o tema “Reino de Deus” foi a mensagem central de Jesus Cristo. Os estudiosos da vida e obra de Jesus Cristo atestam que este tema dominou completamente sua vida. Todo pesquisador da vida de Jesus Cristo verá que este tema é fundamental para compreender o propósito e a obra de Jesus. O “Reino de Deus” é um dos temas mais importantes e empolgantes das Escrituras Sagradas.

Iniciamos a apresentação da temática com a impressão do missiólogo presbiteriano norte-americano radicado no Brasil, Timoteo Carriker:

Na missiologia contemporânea o tema do “reino de Deus” esta sendo amplamente procurado e desenvolvido a fim de melhor expressar as multifacetas da tarefa e testemunho da igreja. Tem sido tema ou lema de varias conferencias internacionais, tanto do Conselho Mundial de Igrejas, quanto do movimento Lausanne. Missiologos amplamente respeitados, como o holandês Johannes Verkuyl, o sul-africano David Bosch, o estadunidense Arthur Glasser, o porto-riquenho e hispanico Orlando Costas, o argentino (sic) Rene Padilla, e os brasileiros Caio Fabio e Valdir Steuernagel, muito tem promovido este tema para a elaboração duma teologia de missão (CARRIKER, 1992, p. 184).

Esta elaboração, embora sucinta, é bastante objetiva e apresenta a relevância contemporânea da temática do Reino de Deus no contexto mundial. Mas, como já antecipamos, o presente trabalho não se destina a abordar o tema em termos teológicos mundial. Mas, a preleção é por trabalhar a temática no contexto latino-americano do evangelicalismo.

Para o teólogo brasileiro Carlos Caldas Filho (2007, p. 152), o evangelicalismo latino-americano tem encontrado no Reino de Deus um dos principais temas de discussão e reflexão. O mesmo teólogo afirma que o tema do Reino de Deus em perspectiva evangelical latino-americana foi abordado em uma coletânea publicada em 1975, tendo René Padila como editor. Nesse volume, vários teólogos evangelicais trabalharam diferentes aspectos da teologia do Reino de Deus (CALDAS FILHO, p. 153).

Um dos teólogos a colaborar com esta coletânea foi o guatemalteco Emílio Nunez, onde apresenta seu entendimento quanto ao Reino de Deus marcado por uma perspectiva dispensacionalista, reflexo de sua formação teológica, onde o Reino de Deus era visto como uma realidade única e exclusivamente futura. Contudo, cerca de dez anos depois num relato autobiográfico publicado pela FTL, ele afirmou:

O despertar da minha consciência latino-americana no trabalho teológico tem me levado ao desejo de recuperar alguns elementos bíblicos que são indispensáveis para dar equilíbrio e solido fundamento a uma teologia evangélica latino-americana. Por exemplo, o aspecto presente do Reino de Deus vem contrapor um “futurismo” exagerado que facilmente passa sobre a problemática social do povo latino-americano, sem responder ademais adequadamente aos que pretendem levantar aqui e agora o reino do homem, que por fim resulta ser o “reino de Deus” (PADILLA, 1984, p. 109 apud CALDAS FILHO , 2007, p. 153).

É interessante perceber a mudança de perspectiva escatológica neste teólogo da Guatemala, que sai de uma visão apenas futurista do Reino de Deus, para a conhecida posição teológica do “já e do ainda não”, que irá nortear a visão de Reino de Deus do evangelicalismo latino-americano.

Outro teólogo latino-americano que merece destaque na reflexão do Reino de Deus na teologia evangelical é René Padilla. Este, revelando uma profunda influência recebida do teólogo alemão Oscar Cullmann, assevera: “o Reino de Deus é a um só tempo uma realidade presente e uma promessa que há de se cumprir no futuro” (PADILLA, 1984, p. 44 apud CALDAS FILHO, 2007, p. 154). Ele ainda afirma: “a igreja é a afirmação simultânea do Reino de Deus como uma realidade presente e como uma realidade futura” (PADILLA, 1984, p. 46 apud CALDAS FILHO, 2007, p. 154).

A argumentação de René Padilla a respeito da Igreja e do Reino é extraída do aspecto missionário da ação da igreja no mundo, porque o Reino se manifesta na missão de fazer discípulo de todas as nações. Para Padilla:

O Novo Testamento apresenta a igreja como a comunidade do Reino, a comunidade que reconhece a Jesus como o Senhor do universo e por meio do qual, em antecipação do fim, o Reino se manifesta concretamente na história (PADILLA, 1986, p. 183, tradução nossa).

Nesta relação Reino de Deus e Igreja do Senhor Jesus Cristo, faz-se necessário acrescentar a perspectiva de René Padilla:

Como comunidade do Reino habitada pelo Espírito Santo, a Igreja é claramente chamada a ser uma nova sociedade, uma terceira força junto com judeus e gentios (I Co 10.32). Não deve ser equiparada ao Reino, mas tão pouco separada do mesmo. Tem o propósito de refletir os valores do Reino aqui e agora, pelo poder do Espírito Santo. Não é, todavia, a “igreja gloriosa”, mas sim “o Israel de Deus” (Gl 6.16), o povo de Deus chamado a confessar Jesus Cristo como Senhor e viver à luz dessa confissão (PADILLA, 1986, p. 185, tradução nossa)

Finalizando a análise de René Padilla sobre o Reino de Deus, resumimos a seguir suas principais percepções a respeito do tema:

1) Tanto a evangelização como a responsabilidade social podem entender-se unicamente à luz do fato de que em Cristo Jesus o Reino de Deus tem invadido a história e agora é uma realidade presente e também uma esperança futura, um “já” e um “todavia não”;

2) A evangelização e a responsabilidade social são inseparáveis. O evangelho é a boa nova acerca do Reino de Deus. As boas obras, por sua vez, são os sinais do Reino para os quais fomos criados em Cristo Jesus. A Palavra e a ação estão indissoluvelmente unidas na missão de Jesus Cristo e seus apóstolos, e devemos mantermo-nos unidos na missão da igreja, na qual se prolonga a missão de Jesus até o fim do tempo;

3) De acordo com a vontade de Deus, a igreja é chamada a manifestar o Reino de Deus aqui e agora, tanto no que faz como no que proclama. Porque o Reino de Deus já tem vindo e está por vir, a igreja “entre os tempos” é uma realidade escatológica e histórica;

4) Por sua morte e ressurreição, Jesus Cristo tem sido exaltado como Senhor do universo. Consequentemente, todo o mundo tem sido colocado sob seu senhorio. A igreja antecipa o destino de toda humanidade. Entre os tempos, a igreja – a comunidade que confessa a Jesus Cristo como Senhor e por reconhecer a Deus como criador e juiz de todos os homens – está chamada a “compartilhar sua preocupação pela justiça e a reconciliação em toda a sociedade humana e pela libertação dos homens de toda classe de opressão” (Pacto de Lausane, seção 5). (PADILLA, 1986, p. 190, 191 e 192).

Conforme Caldas Filho (2007, p. 155), o teólogo evangelical latino-americano que mais falou do Reino de Deus foi Orlando Costas. Em uma palestra ministrada como aula inaugural no Fuller Theological Seminary, em 1973, ele afirmou:

O reino que o evangelho anuncia envolve não apenas o domínio soberano de Cristo sobre todos os poderes e principados, mas uma comunidade de submissos, que reconhecem sua autoridade, obedecem aos seus preceitos e engajam-se em seu serviço (COSTAS, 1973, p. 418 apud CALDAS FILHO, 2007, p. 155).

Podemos observar os aspectos cristológicos e escatológicos na citação de Orlando Costas. O aspecto cristológico irá aparecer novamente numa publicação de 1977, que convém destacar:

Então Jesus veio proclamando o reino de Deus, uma nova ordem de vida caracterizada pela libertação da criação de sua escravidão e cativeiro; a restauração da humanidade e do cosmos a sua vocação original; uma nova criação. E por isso que Jesus associa sua missão com aqueles que carregam as maiores evidencias da tragédia do pecado: os pobres, ou aqueles que não têm ninguém para preocupar-se com eles. Os cativos, ou aqueles cuja liberdade tem sido diminuída; os cegos, ou aqueles que são fisicamente impedidos de contemplar e desfrutar as coisas boas da criação de Deus; os oprimidos, ou aqueles cuja humanidade tem sido esmagada por outros seres humanos através do abuso de poder. A todos eles Jesus anuncia o ano do jubileu: a nova era de Deus, a libertação da historia! (COSTA, 1977, p. 9 apud CALDAS FILHO, 2007, P. 155)

Esta reflexão de Orlando Costas é bastante elaborada, e a mais profunda se comparada às citadas até o momento. Costas, ao conteúdo cristológico encontrado, acrescenta agora uma nova dimensão: dimensão libertária, bastante comum em alguns teólogos do evangelicalismo latino-americano, onde ele também a vincula ao tema do jubileu. Vê-se também o acréscimo do elemento escatológico, que na perspectiva de Orlando Costas serve como incentivo e estímulo a esperança no exercício da missão (CALDAS FILHO, 2007, p. 156).

Finalizando esta seção, resumimos as percepções do evangelicalismo latino-americano afirmando que o Reino de Deus é uma realidade presente (“já”), mas ainda não vinda em sua plenitude (“ainda não”); que a Igreja do Senhor é uma agência de transformação que foi incumbida por Deus de sinalizar o Reino através de sua atuação (mensagem proclamada e sinalização visíveis através da atuação sócio-histórica), sendo a mesma (igreja) chamada por Deus para ser um instrumento na promoção da justiça e igualdade social, e a lutar pelos fracos e oprimidos.

III - ANÁLISE DA ALEF – ASSOCIAÇÃO DE LÍDERES EVANGÉLICOS DE FILIPE CAMARÃO E SUA RELAÇÃO COM A MISSÃO INTEGRAL E O REINO DE DEUS

1 - Uma visão panorâmica do bairro de Filipe Camarão e as bases para o surgimento da ALEF

Nesta última seção, é nosso desejo apresentar resumidamente A ALEF – Associação de Líderes Evangélicos de Filipe Camarão , o trabalho por ela desenvolvido, e a sua relação com tema da Missão Integral e Reino de Deus, onde procuraremos analisar os vínculos desta relação. Para levar a cabo esta análise, utilizaremos o Estatuto Social da referida Associação, boletim informativo, relatório ministerial e outros trabalhos acadêmicos (artigos, monografias, dissertações, etc) que tiveram como alvo de pesquisa o trabalho desenvolvido pela ALEF.

O bairro de Filipe Camarão faz parte do conjunto de bairros que compõe a cidade de Natal, capital do Estado do Rio Grande do Norte, nordeste do Brasil. O bairro está localizado na zona oeste da referida cidade, tendo sido reconhecido como bairro em 1968, e incorporado à região metropolitana da cidade de Natal na década de 80 (CORREIA, 2011, p. 37). Segundos dados da Prefeitura Municipal de Natal (2009) a população estimada do bairro é de 75 mil pessoas.

O autor supracitado, que desenvolveu uma excelente pesquisa acadêmica no bairro para sua dissertação de Mestrado em Sociologia na UFRN – Universidade Federal do Rio Grande do Norte enumera os principais problemas estruturais do bairro de Filipe Camarão, a saber:

• Grande conjunto de habitações segregacionistas, devido o grande ritmo de crescimento da cidade, bem como da falta de uma gestão digna das autoridades municipais;

• Ausência de políticas públicas no povoamento do bairro;

• Grande número de pessoas desempregadas, haja vista que a oferta de trabalho não acompanhou o ritmo de crescimento populacional do bairro;

• Baixo nível de escolaridade (o que inclusive, dificulta a colocação no mercado de trabalho), situação agravada pela falta de professores e problemas estruturas das escolas existentes;

• Sérios problemas com a segurança, principalmente devido ao consumo de drogas e a ausência de um policiamento ostensivo que garanta a segurança da população (CORREIA, 2011, p. 40-54).

O interessante é que Filipe Camarão é um dos bairros de Natal com maior número de igrejas evangélicas. Segundo Correia, Rezende e Lopes Jr (2010, p. 06), em 2005 existia em Filipe Camarão cerca de 58 igrejas evangélicas. Hoje, é possível que este número tenha evoluído para cerca de 70 igrejas evangélicas (contando os pontos de pregação). Isto nos leva a uma profunda reflexão: como explicar o fato de um bairro com tanto número de igreja viver sob um jugo espiritual, social e econômico tão grande? Que tipo de evangelho é este vivenciado por estas comunidades cristãs que não geram impacto no contexto social onde estão inseridas.

Acerca dos questionamentos acima, faz-se necessário ouvir a voz de René Padilla, que diz respeito da missão da igreja:

A missão da igreja é uma extensão da missão de Jesus. É a manifestação, ainda que não completa, do Reino de Deus, tanto por meio da proclamação, como por meio da ação e serviço social. O testemunho apostólico continua sendo o testemunho do Espírito acerca de Jesus Cristo, por meio da Igreja [...] Como comunidade do Reino, a igreja confessa e proclama ao Senhor Jesus Cristo. Também realiza boas obras que Deus tem preparado de antemão para que as faça (Ef. 2.10) (PADILLA, 1986, p. 186, tradução nossa).

A respeito dos desafios da igreja urbana contemporânea, o retromencionado autor comenta:

O acelerado crescimento da população urbana levanta por si um tremendo desafio à igreja [...] O primeiro problema que a igreja tem que encarar na cidade é a tentação de reduzir sua missão a uma evangelização superficial com um evangelho feito à medida para o homem-massa, um evangelho de ofertas, mas sem demandas (PADILLA, 1997, p. 103, tradução nossa).

De fato, este tem sido o grande problema da maioria das igrejas evangélicas na América Latina: viver plenamente a missão entregue pelo Senhor Jesus Cristo, não somente apresentando a proposta salvífica inerente ao evangelho, mas, sinalizando o Reino de Deus com o serviço cristão e a ação social integral.

A primeira iniciativa evangélica mais contundente e visando conhecer a população do bairro de Filipe Camarão e suas deficiências espirituais e sociais, foi realizada pela Igreja Batista Viva , após o Seminário Estratégico: Modos de enfrentamento à pobreza em Natal. Este Seminário foi realizado em agosto de 2003 numa parceria entre a Igreja Batista Viva e a Visão Mundial, e nele ficou mais que claro que a região Oeste da cidade de Natal era a que possuía os maiores problemas estruturais, e o bairro de Filipe Camarão era o que tinha os piores índices sociais e as maiores taxas de ameaça à vida por questões de violência e problemas de saúde (CORREIA; REZENDE; LOPES JR, 2010, p. 07).

A partir de 2004, os membros da Igreja Batista Viva começam a realizar pequenas ações no bairro de Filipe Camarão, e a participarem de uma pesquisa sócio-religiosa com pesquisadores do Grupo de Estudos da Complexidade, ligado ao Departamento de Sociologia da UFRN – Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

O clímax deste trabalho de inserção no contexto social do bairro e da pesquisa científica realizada acontece no final de 2004, quando pesquisadores evangélicos, proferem palestras para líderes evangélicos de Filipe Camarão, expondo as mazelas do bairro. Ali nascia a ALEF – Associação de Líderes Evangélicos de Filipe Camarão (CORREIA; REZENDE; LOPES JR, 2010, 07 e 08).

2 - Missão e Função da ALEF no contexto de Filipe Camarão: Promoção do Evangelho Integral e do Reino de Deus

A ALEF – Associação de Líderes Evangélicos de Filipe Camarão foi organizada juridicamente, conforme seu Estatuto Social, em 18 de junho de 2005, estando a sua sede estabelecida na Rua São Vicente, 13, no bairro de Filipe Camarão. Em seu Artigo 2º, o Estatuto descreve que a finalidade da ALEF é promover:

I – A interação entre as igrejas para que por meio dela se processe de modo mais integrado o cumprimento da missão deixada por Jesus Cristo;

II – A maior expressão da face pública das igrejas associadas;

III – Ações de enfrentamento dos desafios sociais e de desenvolvimento sustentável;

IV – A formação de liderança nas mais diversas áreas;

V – As manifestações que contribuam para o enriquecimento cultural do bairro.

E com relação à constituição da ALEF, o Estatuto reza em seu artigo 3º, que os membros da ALEF são homens e mulheres que fazem parte de uma igreja ou de uma entidade social evangélica em Filipe Camarão ou adjacências.

O vínculo da ALEF com o tema da Missão Integral e Reino de Deus ficam bastante evidentes nos pontos I e III do 2º Artigo de seu Estatuto Social. No 1º ponto fica claro o esforço na busca da interação das igrejas para o cumprimento da missão deixada por Jesus Cristo. Neste aspecto há algo muito relevante que não podemos deixar passar: a interação das igrejas; ou seja, para o cumprimento da missão de Jesus, as diferenças denominacionais são deixadas de lado em prol de algo muito maior e singular: o Reino de Deus.

Neste sentido, faz-se salutar ouvir a voz de René Padilla:

O individualismo e o caudilhismo destroem a unidade da igreja. São formas de expressão de egoísmo que com muita frequência conspiram contra as relações humanas dentro e fora da comunidade cristã [...] A humildade é irmã da unidade. Graças a ela, a unidade é fortalecida pelo melhor de seus colaboradores: o poder do amor [...] A falta de unidade afeta negativamente o crescimento orgânico do corpo. Mas isso não é tudo. Desde o ponto de vista bíblico, a unidade é inseparável do testemunho cristão. Portanto, ninguém que se preocupe seriamente pela missão da igreja não pode permanecer impassível frente ao denominacionalismo e a fragmentação que marcam nossa vida eclesiástica (PADILLA, 1997, p.106 e 107, tradução nossa).

Não restam dúvidas que a vivência da Missão Integral e o Reino de Deus, a partir do contexto das igrejas locais, têm sofrido revezes e descontinuidades devido ao forte sentimento denominacionalista de algumas comunidades cristãs, bem como pelo sentimento egoístico de poder de alguns líderes, que insistem em manter seus “reinos particulares”. Vejamos o que diz Correia ao explicar a letargia e apatia do grande número de igrejas em Felipe Camarão frente aos graves problemas da comunidade:

Cada igreja tem se voltado para suas próprias atividades, não reservando em sua agenda espaço para trabalho conjunto com outras igrejas, configurando, desse modo, uma atitude blasé, frente aos problemas sociais que existem na comunidade da qual fazem parte. Assim sendo, é necessário construir um esforço conjunto, baseado em projetos, ações e programas direcionados a provocar transformações sociais. Por maior que seja nenhuma igreja pode mudar sozinha toda uma região. Este trabalho é coletivo (CORREIA, 2011, p. 93 e 94).

Contudo, a ALEF desde o seu Estatuto e em suas ações práticas, tem buscado a interação e integração das diversas igrejas locais que compõem a associação.

Ainda no 1º ponto do 2º Artigo do Estatuto da ALEF, e correlacionado com o 3º ponto, identificamos um alvo singular: “...o cumprimento da missão deixada por Jesus”. Mas, que missão é esta deixada por Jesus à sua Igreja? A resposta já nos foi dada a partir da reflexão de René Padilla, registrada na página 12 deste trabalho: a missão da igreja é a própria extensão da missão de Jesus Cristo; é a manifestação do Reino de Deus neste momento, embora que ainda não seja plena; e isto se dando pela proclamação das boas-novas de salvação a todos os homens, bem como por meio de uma ação prática e serviço social. Se realiza também pelo testemunho vivo àqueles que estão sob jugo (nas suas mais diferentes áreas), bem como através da realização das boas obras.

Vejamos o depoimento do atual presidente da ALEF, Leandro Silva Virgínio, sobre a Missão Integral vivenciada, experimentada e praticada pela AEF:

Na ALEF, utilizamos a declaração da Rede Miqueias para expressar o conceito de Missão Integral: “Não é somente uma questão de que o evangelismo e o envolvimento social devam ser feitos ao mesmo tempo”. Em vez disso, na missão integral a nossa proclamação tem consequências sociais ao motivarmos as pessoas a amarem e se arrependerem em todas as áreas da vida. O nosso envolvimento social tem consequências evangelísticas ao testemunharmos a graça transformadora de Jesus Cristo. Se ignorarmos o mundo, traímos a Palavra de Deus que nos envia para servir o mundo. Se ignorarmos a Palavra de Deus, não teremos nada para levar ao mundo. A justiça e a justificação pela fé, o louvor e as ações políticas, a transformação no âmbito espiritual, material e pessoal, e as mudanças estruturais devem caminhar juntas. Assim como vimos na vida de Jesus, o ser e o fazer estão no âmago da nossa tarefa integral (VIRGÍNIO, 2012).

E para colocar em prática a Missão Integral no contexto da ALEF, o referido presidente assevera:

[...] Se desejarmos influenciar as comunidades em que atuamos com o evangelho integral, devemos inserir em nossas agendas esta palavra bem específica: unidade. Mas que tipo de unidade devemos buscar? Certamente que a concepção ufanista das marchas e movimentos pontuais não é suficiente. É necessário construir um amplo esforço conjunto, baseado em projetos, ações e programas direcionados a provocar transformações sociais que possam fazer da comunidade um lugar mais parecido com o Reino de Deus e construir uma face pública relevante, que expresse de forma contundente os valores do evangelho para regiões que clamam por uma intervenção efetiva do corpo de Cristo. Por maior que seja, nenhuma igreja pode mudar sozinha toda uma região. Este trabalho é coletivo. É necessário repensar a eficácia de nossos modelos missiológicos. As comunidades estão cheias de igrejas irrelevantes, centradas apenas no esforço evangelístico, entendido como salvar almas para o céu, mas que não se lembram do quão radical foi a encarnação de Jesus, que em seu ministério ia por toda a parte “pregando, ensinando e fazendo o bem” (Mt 10.38). Urge que empreendamos esforços a fim de ampliar nossa compreensão da missão, que esta se baseia não apenas em “ganhar almas”, mas em discipular e servir as comunidades nas quais atuamos, sinalizando com a maior densidade possível, em palavras e ações, o Reino de Deus, que é justiça, paz e alegria no Espírito Santo! Felipe Camarão está aí para mostrar que isto é possível! (VIRGÍNIO, 2012).

Ainda relacionado a este assunto, convém ressaltar o quanto colocado no Planejamento Estratégico da ALEF no que se refere à VISÃO da associação: “uma rede de igrejas localmente relevantes, trabalhando juntas para sinalizar o Reino de Deus e transformar suas comunidades de forma integral” (p. 03). Mais uma vez destaca-se o desejo de se trabalhar em unidade e integração; projeta-se o papel de cada comunidade cristã local, convocada a sair do marasmo e da mesmice para uma atuação relevante na comunidade onde está inserida, a fim de que o Reino de Deus seja sinalizado através das ações e práticas singulares e marcantes.

Neste mesmo documento – Planejamento Estratégico da ALEF - estão delineadas as ações a serem promovidas junto aos ministérios locais com vistas a levar a cabo o quanto colocado no parágrafo anterior:

• Mobilizar e aproximar líderes, agentes sociais cristãos, igrejas e organizações para a transformação integral da comunidade onde atuam;

• Prover-lhes de informação, capacitação, ferramentas e apoio, a fim de que compreendam a missão integral, bem como a problemática da pobreza e o seu papel de transformação na comunidade local;

• Apoiar as igrejas locais no seu trabalho em rede, frente aos desafios sociais da comunidade, para que, por meio de projetos e ações localmente relevantes realizados conjuntamente, facilitem o desenvolvimento integral de indivíduos e famílias em contextos de vulnerabilidade social;

• Disponibilizar materiais e promover encontros e eventos que encorajem e apoiem as igrejas em seu compromisso com a sinalização do Reino de Deus na comunidade.

Pode-se facilmente perceber nas estratégias acima, que o tema Missão Integral domina praticamente todas as ações, pois projeta-se: “...transformação integral da comunidade...”, “...compreendam a missão integral...”, e “...facilitem o desenvolvimento integral dos indivíduos e famílias...”. E, os trabalhos de Missão Integral desenvolvidos pela ALEF são focados principalmente em oito eixos principais, a saber: educação, formação de líderes, saúde, meio ambiente, construção da paz, economia solidária, cultura e juventude (CORREIA, 2001, p. 91).

Outro assunto tratado no Planejamento Estratégico da ALEF é a “sinalização do Reino de Deus”. Bem sabemos que este é um tema bastante desenvolvido e comentado pelos teólogos evangelicais latino-americanos. Ouçamos o que René Padilla diz a respeito das sinalizações do Reino de Deus, em seu livro “O que é Missão Integral?”, no capítulo que tem por título “Sinais do Reino”:

Onde há cristãos exercitados na compaixão de Jesus Cristo [...] e liberados para o serviço de amor, é possível empreender projetos de desenvolvimento comunitário que transformem a situação de pessoas e grupos pobres e sejam sinais autênticos do Reino de Deus. Em todo o nosso continente são numerosos os exemplos concretos do que igrejas e organizações evangélicas podem fazer e estão fazendo em respostas às necessidades humanas quando elas se abrem para a ação do Espírito Santo de Deus, quando estão dispostas a sacrificarem-se pelos demais e dão espaço para a criatividade (PADILLA, 2009, p. 83, tradução nossa).

A respeito do tema “Reino de Deus” e suas sinalizações, faz-se necessário também ouvir as considerações do presidente da ALEF, Leandro Virgínio:

Gosto de uma definição simples: “o Reino de Deus é todo ambiente em que Deus governa”. Gosto também da definição do estadista missionário Stanley Jones: “O Reino de Deus é a resposta total de Deus para a necessidade total do homem” [...] Percebemos que é possível haver muitas igrejas no mesmo bairro, cidade ou nação, mas pouco Reino de Deus. Felipe Camarão ilustra isso. Nosso alvo na ALEF tem sido transformar essa equação de muitas igrejas em muito mais Reino de Deus em nossa região e em outros lugares do Nordeste, a fim de que os sinais do Reino sejam multiplicados por meio do ministério das igrejas locais e dos líderes, mobilizados e engajados na transformação integral da comunidade por meio da sinalização do Reino de Deus (VIRGÍNIO, 2012).

Este é o grande desafio para a Igreja hodierna, muitas vezes presa em sentimentos egoísticos e mesquinhos: encarnar a compaixão e o amor do Senhor Jesus, gerando uma revolução que leve as mais profundas transformações às pessoas e às comunidades, notadamente aqueles que estão na mais profunda pobreza e debaixo de opressão.

3 - Ações e Projetos desenvolvidos pela ALEF no bairro de Felipe Camarão: Missão Integral e Sinalizações do Reino na prática

Mas, surge a seguinte pergunta: a ALEF tem cumprido o papel proposto em seu Estatuto Social e em seu Planejamento Estratégico? Como tem sido, e quais tem sido as ações da ALEF junto ao bairro de Felipe Camarão? Para responder tais questionamentos utilizaremos o Relatório Ministerial da ALEF – 2011.

Listamos a seguir, as principais ações da ALEF:

1) Promoção de um seminário sob o tema “A Missão Integral da Igreja – modelos ministeriais na história da igreja e na atualidade”, sendo preletor o Bispo Robinson Cavalcanti;

2) Projeto Alfabetização e transformação: educação e microcrédito: como vimos, um dos maiores problemas de Felipe Camarão reside na área educacional. Assim, a ALEF tem promovido treinamentos para as igrejas atuarem na área de alfabetização de jovens e adultos. Este programa tem sido desenvolvido com a ONG pernambucana IBRAEMA, e neste último ano de 2011, trenou 45 igrejas para implantação do projeto;

3) Seminário Intensivo de Desenvolvimento Comunitário: trata-se de um treinamento realizado nos meses de janeiro com pastores, líderes e agentes sociais das mais diversas denominações, e de diversos estados no nordeste brasileiro. Esse seminário tem por alvo treinar e equipar pastores e líderes para atuarem no desenvolvimento integral de comunidades carentes. O seminário é realizado em parceria com a Visão Mundial e o CADI – Centro de Assistência e Desenvolvimento Integral, ONG que atua na grande Curitiba/PR;

4) Treinamento de Líderes com enfoque em Missão Integral: durante todo o ano, a ALEF promove, em parceria com diversas organizações: cursos, seminários, capacitações, conferências e oficinas, com o objetivo de treinar e equipar os líderes e pastores em diversas áreas do desenvolvimento comunitário integral;

5) Programa de Educação Ambiental: a preocupação com as questões ambientais está presente no próprio Estatuto da ALEF. E, para levar a cabo este intento, a ALEF, em parceria com A ROCHA BRASIL, promove treinamento na área de desenvolvimento de projetos socioambientais;

Existem outros projetos e ações que a ALEF vem desenvolvendo no contexto do bairro, mas também tem levado sua experiência a outros bairros da cidade de Natal, do estado do Rio Grande do Norte, do Brasil e de outros países da América Latina. Além disso, a ALEF tem procurado se envolver em projetos desenvolvidos por outras associações evangélicas que atuam na área da Missão Integral, como: Visão Mundial, CADI, ABUB, A ROCHA, entre outras.

Com o quanto exposto acima, podemos assegurar que a ALEF tem, com a ajuda de Deus, e esforço de seus líderes, experimentado e vivenciado a Missão Integral em sua práxis, e tem sinalizado o Reino de Deus entre aqueles que tanto precisam. Ainda mais, tem levado esta abençoada visão a pastores e líderes de várias igrejas e denominações, cuja tendência é repetir as ações e experiências da ALEF.

Finalizamos esta seção com as impressões do atual presidente da ALEF sobre as experiências vividas pela associação:

O resultado é revolucionário: não apenas uma organização, mas uma rede de igrejas e líderes (não apenas pastores, mas líderes comunitários, de jovens, de mulheres, de missões…), que gerenciam e executam um amplo programa de desenvolvimento local e atuam para a transformação comunitária, nos oito eixos de atuação da entidade: educação, formação de líderes, saúde, meio ambiente, construção da paz, economia solidária, cultura e juventude. Nestes a