Trabalho Completo Ciência Coisa Boa Rubem Alves

Ciência Coisa Boa Rubem Alves

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Categoria: Língua Portuguesa

Enviado por: Paulo 06 janeiro 2012

Palavras: 1790 | Páginas: 8

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, milhões de situações que nunca passaram pela nossa cabeça: nunca tomamos consciência delas, nunca as conhecemos, É que elas nunca nos incomodaram, não perturbaram o corpo, não lhe produziram dor. Só conhecemos aquilo que incomoda. Não, não estou dizendo toda a verdade. Não é só da dor. Do prazer também. Você vai almoçar numa casa e lá lhe oferecem um prato divino, que dá ao corpo sensações novas de gosto e olfato. Vem logo a idéia: “Que bom seria se, de vez em quando, eu pudesse renovar este prazer. E, infelizmente, não posso pedir para continuar a ser convidado”. Usamos então a fórmula clássica: “-que delícia: quero a receita...” Traduzindo, para os nossos propósitos: “Quero possuir um conhecimento que me possibilite repetir um prazer já tido.” O conhecimento tem sempre o caráter de receita culinária. Uma receita tem a função de permitir a repetição de uma experiência de prazer. Mas quem pede a repetição não é o intelecto. É o corpo. Na verdade, o intelecto puro odeia a repetição. Está sempre atrás de novidades. Uma vez de posse de um determinado conhecimento ele não o fica repassando e repassando. “Já sei”, ele diz, e prossegue para coisas diferentes. Com o corpo acontece o contrário. Ele não recusa um copo de vinho, dizendo que daquele já bebeu, e nem se recusa a ouvir uma música, dizendo que já a ouviu antes, e nem rejeita fazer amor, sob a alegação de já ter feito umas vez. Uma vez só não chega. O corpo trabalha em cima da lógica do prazer. E, do ponto de vista do prazer, o que é bom tem de ser repetido, indefinidamente.

O desejo de conhecer é um servo do desejo de prazer. Conhecer por conhecer é um contra-senso. Talvez que o caso mais gritante e mais patológico disto que estamos dizendo (todas as coisas normais têm sua patologia) se encontre nesta coisa que se chama exames vestibulares: a moçada, pela alegria esperada de entrar na universidade, se submete às maiores violências, armazena conhecimento inútil e não di8gerivel, tortura o corpo, lhe nega os prazeres mais elementares. Por quê? Tudo tem a ver com a lógica da dor e do prazer. Há a dor incrível de não passar, de ser deixado para trás, de ver-se ao espelho como incapaz (no espelho dos olhos dos outros); e há a fantasiada alegria da condição de universitário, gente adulta, num mundo de adultos. Claro, coisa de imaginação... E o corpo se disciplina para fugir da dor e para ganhar o prazer. Logo depois de passado o evento o corpo, triunfante, trata de se desvencilhar de todo o conhecimento inútil que armazena, esquece quase tudo, sobram uns fragmentos: porque a gora a dor já foi ultrapassada e o prazer já foi alcançado.

A gente pensa para que o corpo tenha prazer.

Alguns dirão: “Absurdo. É verdade que, em certas situações, o conhecimento tem está função prática. Mas, em outras, não existe nada disto. Na ciência a gente conhece por conhecer, sem que a experiência de conhecimento ofereça qualquer tipo de prazer.” Duvido. O cientista que fica horas, dias, meses, anos em seu laboratório não fica lá por dever. Pode até ser que haja pessoas assim: trabalhar por dever. Só que elas nunca produzirão nada novo. O senso de dever pode ensinar as pessoas a repetir coisas: excelentes técnicos de laboratório, bons funcionários, discípulos de Kant (um homem que desprezava o prazer e achava que, certo mesmo, só as coisas feitas por de3ver). Com o que concordaria o venerável Santo Agostinho que propôs a curiosa teoria, ainda defendida por certas lideranças religiosas, de que o jeito certo de fazer o sexo é “sem prazer, por dever”, burocratas fiéis aos relógios de ponto. Cozinheiro por dever só faz comida sem gosto. Cientista também. Não consegue ver nada de novo, é bicho sem asas, tartaruga fiel, rastejante. Idéias criativas requerem os vôos da imaginação, aquilo que, em linguagem psicanalítica tem o nome de “investimento libidinal”, coisa que em linguagem irreverente diz de maneira mais direta e metafórica: “tesão”, quando o corpo fica intenso de desejo, tenso por dentro, querendo muito. E é só por isto que o cientista fica lá, anos a fio – como verdadeiro apaixonado. Tudo por um único momento de êxtase: aquele em que, após um enorme sacrifício, ele diz: “Consegui! Heureca!” E ele sai muito doido, possuído pelos deuses, pela alegria de uma descoberta. E então me dirão: - “Mas este não é um prazer do corpo. Não é como comer caqui ou fazer amor”... Como não? Será que não percebem que o pensamento é um dos órgão de prazer do corpo, justamente como tudo o mais? Jogar xadrez: coisa do pensamento, que dá prazer. Lutar com um problema de Matemática: coisa do pensa,mento que dá prazer. E a decifração dos enigmas da natureza, dos seres humanos. Cada enigma é um mar desconhecido que convida: atravessar o oceano Atlântico num barco a vela, sozinho. E quando a gente é capaz de fazer a coisa, vem a euforia, o sentimento de poder: fui capaz; isto tem a ver com um desejo fundo que mora em cada um: ser objeto do olhar admirado do outro, ser o primeiro. E é isto que explica o curioso (e eticamente condenável) costume que têm os cientistas de esconder os resultados de suas pesquisas. Trancá-los a sete chaves. Ora, se o objetivo dos cientistas fosse o progresso da ciência eles tratariam de tornar públicas as conclusões preliminares de suas investigações, para que os resultados fossem alcançados mais depressa. Ao contrário. Mais importante para eles é a possibilidade de serem os primeiros, seus nomes aparecendo nas bibliografias e nas citações: evidência de admiração e potência intelectual. E assim é: mesmo quando estamos envolvidos nas tarefas mais absurdamente intelectuais, o que está em jogo é este corpo que deseja ser admirado, respeitado, mencionado, invejado. Narcisismo, sem ele não sairíamos do lugar. Claro que a ciência pode trazer muitas coisas boas para o mundo (e também más), mas o que está em jogo, no dia a dia da ciência, não é este cálculo de benefícios sociais, mas o simples prazer que as pessoas derivam deste jogo/brincadeira intelectual.

Um dos mais lindos documentos da história da ciência foi produzido por Kepler, depois de conseguir formular as suas três leis sobre o movimento dos planetas:

“Aquilo que vinte e dois anos atrás profetizei,

Tão logo descobri os cinco sólidos entre as órbitas celestes;

Aquilo em que firmemente cri,

Muito antes de haver visto a harmonia de Ptolomeu.

Aquilo que, no título deste meu livro,

Prometi aos meus amigos, mesmo antes de estar certo de minhas descobertas;

Aquilo que há dezesseis anos atrás, pedi que fosse procurado;

Aquilo, por cuja causa devotei às contemplações astronômicas

a melhor parte de minha vida, juntando-me a Isho Brahe;

Finalmente eu trouxe à luz,

E conheci a sua verdade além de todas as minhas expectativas...

Assim, desde há dezoito meses, a madrugada,

Desde há três meses, a luz do dia e,

Na verdade,

Há bem poucos dias o próprio sol da mais maravilhosa contemplação brilhou,

Nada me detém.

Entrego-me a uma verdadeira orgia sagrada.

Os dados foram lançados, O livro foi escrito.

Não me importa que seja lido agora ou apenas pela posteridade.

Ele pode esperar cem anos pelo seu leitor, se o próprio DEUS

Esperou seis mil anos para que um homem

Contemplasse a sua obra”.

Seria preciso parar e analisar cada frase.

Tudo está saturado de emoção: esperança, crença, amor, promessas, disciplina, sacrifícios, uma vida inteira em jogo. Para quê?

Kepler não podia imaginar nada de prático, como decorrência de sua investigações. O que estava em jogo era apenas o prazer da visão, ver a quilo que ninguém jamais havia visto. E toda espera se realizava numa experiência indescritível de prazer.

Ciosa estranha esta fascinação pelo desconhecido.

Curiosidade. É tão forte que estamos dispostos até a perder o paraíso, pelo gozo efêmero de ver aquilo que ainda não foi visto. É assim que a nossa história começa, num dos mais antigos mitos religiosos. Preferimos morder o fruto do conhecimento, com o risco de perder o paraíso, pela alegria de um outro gozo: saber...

Ali está, diante de nós, a coisa fascinante. M