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Categoria: História

Enviado por: priscila 25 março 2012

Palavras: 44203 | Páginas: 177

Os Índios na História do Brasil (home)

Bibliografia Comentada

Esta listagem elenca uma seleção de obras publicadas desde 1990 que abordam a temática dos índios na história do Brasil ou, numa chave um pouco diferente, da história dos índios no Brasil. A distinção é mais do que um arranjo das palavras: demarca abordagens distintas, a primeira privilegiada pelos historiadores, a segunda pelos antropólogos. Os comentários são menos críticos que informativos, buscando chamar a atenção para os conteúdos que trazem novos aportes para a discussão da história indígena e história do indigenismo no Brasil. A bibliografia está dividida em oito partes. A primeira, História dos Índios, Índios na História, arrola etnografias e monografias de história que tratam especificamente de povos indígenas, porém também estão incluídas algumas obras mais gerais que oferecem informações e abordagens relevantes. A segunda parte elenca Coletâneas e Números Especiais de Revistas que contêm um conjunto de artigos escritos por autores diversos, referentes à história indígena. A terceira inclui uma Seleção de Obras Reeditadas neste período, incluindo autores dos séculos XVI a XX. A quarta apresenta Instrumentos de Pesquisa e Fontes de Informação, abrangendo guias de fontes, repertórios de arquivos e de legislação, bibliografias, dicionários e enciclopédias. A quinta enfoca a Edição de Fontes, incluindo coleções de documentos, transcrições de textos manuscritos e transcrições de relatos orais sobre a história dos índios. A sexta inclui documentos e estudos ligados à Pesquisa Etnográfica, o que abrange diários de campo, documentos sobre expedições e estudos sobre a pesquisa científica entre os índios. A sétima parte traz uma listagem de Catálogos de Exposições e Coleções, que apresentam materiais iconográficos e textos originais. Finalmente, a última parte é dedicada a Narrativas e Autores Indígenas, com ênfase em textos voltados para a história.

Esta bibliografia constitui um projeto em curso e será aumentada e corrigida periodicamente. Compilada por John M. Monteiro (atualizada novembro de 2011; últimos acréscimos em roxo). Mande informações, correções e comentários para o editor da listagem. Última versão (pesquisável) em PDF: clicar aqui.

1. História dos Índios, Índios na História (voltar ao início)

Agnolin, Adone. O Apetite da Antropologia. O Sabor Antropofágico do Saber Antropológico: alteridade e identidade no caso tupinambá. São Paulo: Associação Editorial Humanitas, 2005, 403p. Este livro surgiu da tese de doutorado do autor, apresentando uma densa exegese da documentação europeia sobre a antropofagia nas Américas, em especial entre os Tupinambá do litoral da América Portuguesa. Além de dialogar com a bibliografia etnológica e historiográfica, o autor discute a antropofagia não apenas como objeto em si mas sobretudo como uma chave para compreender diferentes discursos antropológicos em referência a um “outro” esvaziado de uma historicidade própria.

Agnolin, Adone. Jesuítas e Selvagens: a negociação da fé no encontro catequético-ritual americano-tupi (séc. XVI-XVII). São Paulo: Humanitas, 2007, 560p. Partindo de uma leitura crítica dos catecismos jesuíticos, obras compostas nos séculos XVI e XVII para auxiliar na evangelização dos índios, este livro oferece ricas perspectivas sobre “situações dialógicas” que configuraram o encontro entre culturas neste período. De especial interesse para a história dos índios é a Parte III, que enfoca “Doutrina e Sacramentos” e mostra o caráter “mão dupla” do sistema de comunicação e do processo de conversão.

Alden, Dauril. The Making of an Enterprise: the Society of Jesus in Portugal, its empire, and beyond, 1540-1750. Stanford: Stanford University Press, 1996, 707p. Resultado de quase três décadas de pesquisa, o livro oferece um amplo panorama das atividades jesuíticas na esfera do padroado lusitano, da fundação da ordem à sua expulsão das dependências portuguesas. Os aspectos mais importantes do livro residem na abordagem das atividades produtivas e comerciais dos jesuítas, bem como na perspectiva interoceânica do empreendimento inaciano. No que diz respeito à temática indígena no Brasil, o autor incorpora e expande seus estudos anteriores sobre a questão da liberdade dos índios, sobre as aldeias missionárias e sobre o trabalho indígena.

Alencastro, Luiz Felipe de. O Trato dos Viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, 525p. Arrojada interpretação da formação do Brasil no século XVII a partir da sua inserção num sistema comercial e num circuito cultural demarcados no espaço do Atlântico Sul. No que diz respeito à temática indígena, o livro apresenta uma discussão densa e inovadora sobre a relação entre a escravidão indígena e a escravidão africana no Brasil e em Angola. Destacam-se a parte sobre epidemias enquanto fator de peso na opção pelo trabalho africano, bem como a reinscrição das guerras indígenas do século XVII no contexto mais amplo da história colonial seiscentista.

Almeida, Maria Regina Celestino de. Os Índios na História do Brasil. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010 (Coleção FGV de Bolso, 15), 167p. Partindo do pressuposto de que a historiografia brasileira, tal qual construída a partir do século XIX, “apagou a história e as identidades de inúmeros povos indígenas”, este livro busca recolocar os povos indígenas na história colonial e pós-colonial do país. Ao deslocar os índios “dos bastidores ao palco”, a autora oferece uma síntese habilíssima da recente historiografia voltada para a temática indígena e chama a atenção para o desafio que enfrenta gerações futuras, pois “há ainda muitas histórias de índios para se escrever e contar”.

Almeida, Maria Regina Celestino de. Metamorfoses Indígenas: identidade e cultura nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003, 301p. Obra vencedora do Prêmio Arquivo Nacional de Pesquisa em 2001, este livro apresenta uma ampla pesquisa documental, a partir da qual a autora tece uma abordagem inovadora da história dos índios no Rio de Janeiro colonial. O enfoque recai no papel das lideranças nativas, na inserção dos índios aldeados no sistema de trabalho colonial, nas disputas em torno das terras e na busca de uma identidade indígena num contexto de mudanças profundas.

Almeida, Rita Heloisa de. O Diretório Pombalino. Brasília: Editora da UnB, 1998¸ 370p. Estudo bastante detalhado da legislação pombalina e suas implicações para os povos indígenas da Amazônia na segunda metade do século XVIII. É importante a discussão sobre o conceito de civilização que serviu de base para a política indigenista neste período, bem como a contextualização desta política no plano mais amplo do império português. Reproduz, em facsímile, o Diretório dos Índios de 1757.

Alves, Maurício Martins. Caminhos da Pobreza: a manutenção da diferença em Taubaté (1680-1729). Taubaté: Prefeitura Municipal, 1998, 181p. Pesquisa detalhada a partir do rico acervo documental (inventários, testamentos, notas de tabelião) existente em Taubaté, referente ao final do século XVII e início do século XVIII, quando vigorava a exploração intensiva da mão-de-obra indígena na região.

Amantino, Marcia. O Mundo das Feras: os moradores do sertão oeste de Minas Gerais – século XVIII. São Paulo: Annablume, 2008, 262p. Trata-se da tese de doutoramento da autora, que aborda os sertões de Minas colonial, com enfoque interessante sobre as populações indígenas e quilombolas. A pesquisa é bastante original e explora uma documentação manuscrita em acervos mineiros e cariocas. Inclui uma discussão muito interessante das relações entre comunidades indígenas e quilombolas, sugerindo de forma instigante que “as estruturas quilombolas se assemelhavam às organizações espaciais de aldeias indígenas”.

Amorim, Maria Adelina. Os Franciscanos no Maranhão e Grão-Pará: missão e cultura na primeira metade de seiscentos. Lisboa: Centro de Estudos de História Religiosa/ Universidade Católica Portuguesa, 2005 (Estudos de História Religiosa 2), 373p. A partir de uma ampla pesquisa documental em diversos arquivos portugueses, o livro analisa a contribuição dos franciscanos para o estabelecimento da presença portuguesa na Amazônia na primeira metade do século XVII. Inclui muitas informações sobre missões e relações com os índios. A autora destaca o papel do assim-chamado “Hércules da Capucha”, frei Cristóvão de Lisboa, que intercedeu a favor da liberdade dos índios diante dos abusos cometidos por colonos particulares e pelas autoridades portuguesas no Maranhão. O livro inclui ilustrações pouco conhecidas e um extenso anexo documental com vários documentos sobre as missões e sobre a defesa da liberdade, alguns inéditos, outros publicados anteriormente nos Anais da Biblioteca Nacional.

Anderson, Robin L. Colonization as Exploitation in the Amazon Rain Forest, 1758-1911. Gainesville: University Presses of Florida, 1999, 208p. Ao percorrer a história do baixo Amazonas da introdução do Diretório ao ocaso do boom da borracha, a autora sustenta que a colonização representou basicamente a exploração desenfreada dos recursos humanos e naturais da região. O objetivo é mostrar que o processo contemporâneo de devastação da Amazônia possui raízes profundas.

Andrade, Ugo Maia. Memória e Diferença: os Tumbalalá e as redes de trocas no submédio São Francisco. São Paulo: Humanitas, 2008, 391p. A partir de uma pesquisa etnográfica e documental, o autor ambienta a discussão da etnogênese tumbalalá em redes de relações interétnicas e interindígenas, redes essas que se constituem e se transformam no tempo e na memória. O livro inclui um capítulo muito bom sobre o processo de ocupação colonial do sertão do São Francisco e as implicações deste processo para a configuração de identidades indígenas. Mostra que a emergência étnica é longe de ser uma invenção recente e oportunista, antes está articulada a mudanças no quadro de relações historicamente profundas.

Andrade, Maristela de Paula. Terra de Índio: Identidade Étnica e Conflito em Terras de Uso Comum. São Luís: Ed. UFMA, 1999, 296p. A partir de uma pesquisa de campo no Município de Viana, no Maranhão, a autora apresenta um estudo denso da relação entre uma comunidade rural e as terras de uso comum. De particular interesse para a temática da história indígena são as partes que trazem uma pesquisa documental e cartográfica com referências importantes aos Gamela. Também são significativos os depoimentos de moradores sobre diferentes aspectos do passado. Finalmente, enfoca o processo recente de conflitos fundiários e suas implicações para a elaboração da etnopolítica.

Andrello, Geraldo. Cidade do Índio: transformações e cotidiano em Iauaretê. São Paulo: Editora Unesp; Instituto Socioambiental; NuTI, 2006, 447p. Estudo tão instigante quanto inovador, Cidade do Índio apresenta uma história e uma etnografia de uma “cidade indígena” no noroeste da Amazônia. De complexa feição pluriétnica (Tukano, Arapasso, Desana, Tariano, Pira-Tapuia e outros), Iauaretê propõe um desafio teórico para a tradição etnográfica focada geralmente num povo e numa aldeia. Como parte deste desafio, o autor realiza uma leitura diferenciada de fontes históricas, analisadas à luz dos materiais etnográficos coletados em campo (na cidade). Mas o autor também considera o “tom histórico” das narrativas indígenas, que pautam suas avaliações de situações atuais à luz de uma referência ao modo de vida dos antigos. Mais do que isso, segundo o autor, “os sentidos atribuídos pelos índios às transformações contemporâneas relacionam-se nitidamente a uma longa história de contato com a chamada sociedade nacional” (p. 18). De especial interesse para a história indígena é o capítulo 2, que realiza uma admirável síntese de vários séculos de história.

Apolinário, Juciene Ricarte. Os Akroá e Outros Povos Indígenas nas Fronteiras do Sertão: políticas indígena e indigenista no norte da Capitania de Goiás, atual Estado do Tocantins, século XVIII. Goiânia: Editora Kelps, 2006, 276p. Fruto de uma tese de doutorado defendida na UFPE, o livro abarca a atribulada história dos povos indígenas que, no século XVIII, enfrentaram o avanço da presença colonial na região do rio Tocantíns. A autora traz inúmeros aportes documentais que permitem elucidar o protagonismo de homens e mulheres Akroá, Karajá e Xakriabá (entre outros) nos embates violentos, na negociação de acordos de paz e na constituição de um espaço colonial para os índios. É de grande interesse a utilização de textos e depoimentos de obscuros estadistas, de sertanistas semi-analfabetos e de outros personagens que ilustram o encontro nem sempre feliz entre a política indigenista de Lisboa e as práticas locais do sertão. O livro inclui mapas ilustrados, com destaque para um manuscrito da Biblioteca Pública de Évora que mostra representações pictóricas de índios e aldeias.

Ataídes, Jézus Marco de. Sob o Signo da Violência: colonizadores e Kayapó do Sul no Brasil Central. Goiânia: Ed. UCG, 1998 (Coleção Teses Universitárias 4), 187p. Baseado numa extensa pesquisa sobretudo em arquivos goianos, este estudo mapeia literalmente séculos de encontros e confrontos entre os Kayapó do Sul e diferentes atores envolvidos, incluindo paulistas, Bororo e autoridades coloniais e imperiais, entre outros. O trabalho abrange as capitanias e províncias de Goiás, Minas Gerais e São Paulo.

Bandeira, Júlio. Canibais no Paraíso: a França Antártica e o imaginário europeu quinhentista. Rio de Janeiro: Mar de Idéias, 2006, 200p. O autor reúne uma quantidade expressiva de materiais textuais e iconográficos que refletem a dimensão atlântica das relações entre franceses e índios durante o século XVI. O livro é voltado para um público não especializado, porém a edição é muito bem feita e as imagens são evocativas e provocadoras, sobretudo à medida que permitem comparações entre as representações dos ameríndios com as de outros povos. No final do livro há uma tradução do texto para o francês.

Baptista, Jean. O Temporal: sociedades e espaços missionais. São Miguel das Missões: Museu das Missões, 2010 (Dossiê Missões, I), 228p. Marcando os 400 anos da formação das reduções, o Dossiê Missões traz três volumes que buscam fornecer subsídios conceituais e documentais para o Museu das Missões, em São Miguel RS. Este primeiro volume, baseado nos Manuscritos da Coleção de Angelis e na bibliografia especializada sobre os Guarani, aborda aspectos organizacionais e administrativos com destaque para a experiência dos índios “reduzidos”. É especialmente interessante o enfoque sobre os espaços ocupados por crianças, mulheres e homens indígenas nas missões.

Baptista, Jean. O Eterno: crenças e práticas missionais. São Miguel das Missões: Museu das Missões, 2010 (Dossiê Missões, II), 260p. Este segundo dossiê sobre as missões se apoia sobretudo na tese de doutorado do autor, buscando elucidar questões relativas à economia simbólica dos Guarani em situações de crise, com um enfoque especial sobre a fome, as epidemias e a guerra. O autor mobiliza uma quantidade expressiva de documentos inéditos, provenientes da Coleção de Angelis.

Baptista, Jean, e Santos, Maria Cristina dos. As Ruínas: a crise entre o temporal e o eterno. São Miguel das Missões: Museu das Missões, 2010 (Dossiê Missões, III), 249p. O terceiro dossiê inclui uma parte da tese de doutorado de Maria Cristina dos Santos sobre as missões no período posterior à expulsão dos jesuítas na segunda metade do século XVIII. Baseado numa ampla pesquisa documental, esta parte demonstra os percalços da administração espanhola e dos índios na tentativa de reorganizar as comunidades, cada vez mais arruinadas. A segunda parte do livro, escrito por Jean Baptista, adentra o século XIX e acompanha o destino das ruínas de igrejas, das populações dispersas e dos objetos sagrados que ficaram das reduções.

Barbosa, Bartira Ferraz. Paranambuco: poder e herança indígena. Nordeste séculos XVI-XVII. Recife: Editora Universitária, 2007, 220p. Baseado numa tese de doutorado em História defendida na USP, o livro busca, nas palavras da autora, “reordenar questões” atinentes à ocupação portuguesa do espaço pernambucano nos séculos XVI e XVII. Lançando mão de dados arqueológicos, fontes históricas escritas e percepções cartográficas, a autora mostra que a conquista dos espaços ameríndios constituiu um processo profundamente imbricado numa complexa trama de guerra, aliança, mestiçagem e exploração do trabalho. O livro traz informações detalhadas sobre a localização de espaços indígenas pré-coloniais e coloniais. Em anexo, a autora inclui belas reproduções de mapas coloniais e dados complementares sobre a ocupação portuguesa do território.

Barros, Clara Emília Monteiro de. Aldeamento de São Fidelis: o sentido do espaço na iconografia. Rio de Janeiro: IPHAN, 1995 (Série Ensaios 3), 143p. O núcleo do trabalho está na análise iconográfica de uma gravura de 1782 mostrando a aldeia de São Fidélis, no Vale do Paraíba fluminense. Pouco elaborado e carente de apoio documental, o texto busca analisar a organização dos espaços político e simbólico deste aldeamento capuchinho.

Barros, Edir Pina de. Os Filhos do Sol. História e cosmologia na organização social de um povo Karib: os Kurâ-Bakairi. São Paulo: Edusp, 2003, 385p. Fruto de uma longa convivência da autora entre os Bakairi no Mato Grosso, esta etnografia versa mais sobre a cosmologia e a organização social do que sobre a história. Ainda assim, o primeiro capítulo apresenta informações muito ricas retiradas de fontes históricas diversificadas, dos relatos coloniais, à documentação do Império, aos relatos da expedição de Karl von den Steinen (1884), aos relatórios do SPI.

Becker, Ítala Irene Basile. O Índio Kaingang no Rio Grande do Sul. 2ª ed. São Leopoldo: Editora Unisinos, 1995, 324p. Reedição de estudo publicado em 1975, superado em muitos aspectos pela nova bibliografia Kaingang dos últimos tempos. Ainda assim, há uma compilação de informações relevantes, com relativamente pouco destaque para a dimensão histórica.

Becker, Ítala Irene Basile, com a colaboração de Luís Fernando da Silva Laroque. O Índio Kaingang do Paraná: Subsídios para uma Etno-História. São Leopoldo: Editora Unisinos, 1999, 344p. O texto busca oferecer um amplo painel da presença Kaingang no território paranaense, baseada numa bibliografia variada e alguns documentos impressos.

Bezerra, Marcos Otávio. Panambi: um Caso de Criação de uma Terra Indígena Kayowá, Niterói: Editora da UFF, 1994, 149p. A partir de documentos do Serviço de Proteção aos Índios, o trabalho avalia o processo de constituição de uma área indígena no atual Mato Grosso do Sul.

Bigio, Elias dos Santos. Cândido Rondon: a integração nacional. Rio de Janeiro: Contraponto/Petrobrás, 2000 (Série Identidade Brasileira), 72p. Breve estudo sobre a vida e obra do principal articulador do SPILTN, bem fundamentado numa pesquisa documental e bibliográfica. O trabalho enfoca sobretudo os projetos junto aos índios do Mato Grosso durante as primeiras décadas do século XX. O autor inclui uma breve descrição da documentação do Museu do Índio e reproduz algumas fotos interessantes daquele acervo.

Bigio, Elias dos Santos. Linhas Telegráficas e Integração de Povos Indígenas: as estratégias políticas de Rondon (1889-1930). Brasília: FUNAI/CGDOC, 2003, 357p. Baseado numa ampla pesquisa documental, este livro aborda as atividades e as políticas de Rondon a partir da perspectiva da história regional de Mato Grosso. Reproduz uma parte da documentação em citações extensas e traz algumas das fotos publicadas anteriormente no livro de Rondon, Índios do Brasil (Rio de Janeiro: CNPI, 1946).

Brienen, Rebecca Parker. Visions of Savage Paradise: Albert Eckhout, Court Painter in Colonial Dutch Brazil. Amsterdã: Amsterdam University Press, 2006, 288p. A partir de uma perspectiva de história da arte, este livro proporciona o primeiro estudo de fôlego sobre a vida e obra do artista que acompanhou Maurício de Nassau e que nos legou um dos mais penetrantes registros visuais do século XVII, notável pelo seu olhar etnográfico. Após reconstituir a biografia do artista, a autora apresenta uma densa análise dos desenhos de história natural e dos quadros monumentais que retratam indígenas, africanos e mestiços, com destaque para um estudo detalhado sobre os retratos dos Brasilianen (brasilianos ou Tupi) e dos Tapuia. Além de chamar a atenção para aspectos temáticos e estilísticos pouco notados em estudos anteriores, a autora também investe numa análise do contexto mais amplo no qual estas obras se inseriram, contexto esse envolvendo a circulação de imagens e objetos numa ampla rede de trocas e de acumulação de saberes coloniais. Ver também a obra desta autora na seção Catálogos de Exposições e Coleções.

Britto, Rossana G. A Saga de Pero do Campo Tourinho: o primeiro processo da Inquisição no Brasil. Petrópolis: Editora Vozes, 2000, 247p. Este livro retoma o célebre caso do capitão-donatário de Porto Seguro, estudado por Capistrano de Abreu e outros. Ao esmiuçar os depoimentos constantes do processo inquisitorial contra Tourinho, a autora evoca o mundo de relações políticas, sociais e culturais entre os povoadores portugueses e os índios nos turbulentos anos iniciais da colônia. Vem transcrito, no anexo, o processo da Inquisição, inclusive a parte inédita que foi omitida na História da Colonização Portuguesa do Brasil, de Carlos Malheiros Dias (1924).

Calavia Sáez, Oscar. O Nome e o Tempo dos Yaminawa: etnologia e história dos Yaminawa do rio Acre. São Paulo: Editora Unesp; Instituto Socioambiental; NuTI, 2006, 479p. Estruturado em três partes, este livro oferece uma abordagem inovadora da história indígena, com foco num grupo de língua pano que veio a ser chamado de Yaminawa. A primeira parte apresenta uma etnografia do grupo, cuja “função essencial é definir o sujeito da história descrito nos capítulos seguintes, sua estrutura interna e as fronteiras do grupo”. O autor descreve a segunda parte como “uma tentativa de crônica”, lançando mão de fontes históricas, etnografias antigas (com destaque para Capistrano de Abreu e Constant Tastevin), etnografias recentes, relatos orais e cantos indígenas. Esta parte enfoca de maneira instigante a história dos índios como um campo em disputa, inclusive tecendo uma crítica à reiteração de uma história de perdas, que se contrasta com uma abordagem que entende a história como parte de um processo constante de produção da cultura e da identidade. Esta parte encerra com uma análise fascinante dos mitos que tematizam o Inca, servindo de ponte para a terceira e última seção, que apresenta uma rica análise da mitologia dos Yaminawa, oferecendo ainda a transcrição de 70 relatos míticos em anexo.

Capiberibe, Artionka. Batismo de Fogo: os Palikur e o cristianismo. São Paulo: Annablume; Fapesp; NuTI, 2007, 276p. Versão revista de uma dissertação defendida na Unicamp, o livro enfoca o processo de evangelização dos Palikur, com ênfase especial e inovadora sobre a atuação de missionários pentecostais. Fruto de uma cuidadosa pesquisa etnográfica e documental, o livro não só contribui para a crescente bibliografia etnológica sobre a região do Oiapoque como também dialoga com os estudos sobre missões religiosas em comunidades indígenas. De especial interesse para a história indígena é a análise do diário de um casal de missionários ligados ao Summer Institute of Linguistics, abrangendo as décadas de 1960-70.

Carneiro, Palmyos Paixão. Os Índios de São Januário do Ubá (1690-1990). Ubá: Gráfica da Escola de Veterinária da UFMG, 1990, 104p. Baseado numa ampla bibliografia, o livro estuda a presença dos índios na Zona da Mata mineira dos primeiros contatos por paulistas aos dias de hoje.

Carneiro da Cunha, Manuela. Cultura com Aspas e Outros Ensaios. São Paulo: Cosac Naify, 2009, 440p. Este livro reúne, de forma oportuna num único volume, 19 estudos e ensaios publicados entre 1973 e 2009, muitos dos quais são referências obrigatórias para qualquer aproximação à história indígena e do indigenismo no país. Agrupados em quatros seções (Olhares Indígenas; Olhares Indigenistas e Escravistas; Etnicidade, Indianidade e Política; Conhecimentos, Cultura e “Cultura”), os ensaios incluem, entre outros, o estudo seminal sobre o movimento messiânico canela de 1963; o artigo sobre vingança e temporalidade entre os Tupinambá (com E. Viveiros de Castro); o manifesto “Por uma História Indígena e do Indigenismo”; um texto sobre imagens de índios, contrastando as visões francesa e portuguesa; a instigante incursão na “guerra das relíquias” em que se explora os trajetos da memória no cruzamento entre o Velho e o Novo Mundo. Escritos com estilo refinado e inteligência afiada, os textos representam vários momentos em que a autora se debruçou sobre fontes históricas para abrir novos caminhos para a antropologia no Brasil.

Carvalho, João Renôr Ferreira de. Resistência Indígena no Piauí Colonial: 1718-1774, Imperatriz: Ética, 2005, 130p. Apoiado numa farta documentação do Arquivo Histórico Ultramarino, Arquivo Público do Estado do Pará e Arquivo Público do Estado do Maranhão, este estudo traz uma contribuição original e valiosa para a história colonial do Piauí. Dentre outros documentos analisados pelo autor, destacam-se o “Diário da Viagem de Regresso para o Reino” (1728), do governador João Maia da Gama, e o livro de “Assentos, Despachos e Sentenças da Junta das Missões”, ambos com importantes detalhes sobre os conflitos entre colonizadores e índios Timbira, Gueguê, Acroá-mirim e Acroá-guaçu ao longo do século XVIII. Inclui, em anexo, oito documentos inéditos da época estudada.

Castelnau-L’Estoile, Charlotte. Operários de uma Vinha Estéril: os Jesuítas e a conversão dos índios no Brasil (1580-1620). Traduzido por Ilka Stern Cohen. Bauru: Edusc, 2006, 628p. Publicado originalmente em francês em 2000, trata-se de um excelente estudo do projeto e da prática de evangelização dos índios num período de reformulações na Europa e na América. A autora não pretende avaliar o impacto dessas práticas sobre os índios mas sim introduzir um olhar historico-antropológico sobre os próprios jesuítas, buscando compreender suas categorias analíticas, bem como suas experiências pessoais e religiosas. Meticulosamente pesquisado em arquivos e bibliotecas nos dois lados do Atlântico, o livro oferece ricas análises sobre a administração de aldeias, a confecção de instrumentos linguísticos, a circulação de missionários, as estratégias e ações individuais e a tarefa de escrever a experiência missionária em diferentes registros.

Castro, José Liberal de. Igreja Matriz de Viçosa do Ceará: arquitetura e pintura de forro. Fortaleza: Edições IPHAN/UFC, 2001 (Cadernos de Arquitetura Cearense 1), 166p. Interessantíssimo estudo da igreja de N. S. de Assunção, em Viçosa na Serra de Ibiapaba, local de uma missão jesuítica e posteriormente uma vila de índios. Bem documentado e fartamente ilustrado, o livro traz uma análise detalhada dos painéis da capela-mor, oferecendo não apenas um rico estudo de história da arte e arquitetura, como também um vislumbre do imaginário cristão que acompanhava o processo de conversão dos índios.

Catharino, José Martins. Trabalho Índio em Terras da Vera ou Santa Cruz e do Brasil: tentativa de resgate ergonlógico [sic]. Rio de Janeiro: Salamandra, 1995, 628p. Trata-se de um livro difícil de abordar, uma vez que é constituído basicamente por fichamentos de leituras das mais diversas. Escrito por um jurista especializado em direito do trabalho, o texto reúne um vasto repertório de informações, servindo, pela sua organização sistemática, sobretudo como um guia para localizar diferentes assuntos referentes às atividades produtivas e à cultura material dos índios, nas principais fontes descritivas do período colonial.

Cavalcante, Thiago Leandro Vieira. Tomé, o Apóstolo da América: índios e jesuítas em uma história de apropriações e ressignificações. Dourados: Editora UFGD, 2009, 198p. Fruto de uma dissertação de mestrado, o livro enfoca dois momentos de elaboração de narrativas sobre a presença antiga do apóstolo S. Tomé na América do Sul. Primeiro, mostra a busca de uma convergência entre as cosmologias tupi-guarani e cristã no século XVI e, num segundo momento, sustenta que os jesuítas se apropriaram, no século XVII, do mito, no intuito de se firmarem enquanto sucessores do apóstolo. OBS: Este texto está disponível para download no site da Editora.

Chamorro, Graciela. Kurusu Ñe’ëngatu: palabras que la historia no podría olvidar. Assunção: Centro de Estudios Antropológicos de la Universidad Católica e São Leopoldo: COMIN, 1995 (Biblioteca Paraguaya de Antropología 25), 251p. Trata-se, segundo a autora, de uma etnohistória dos Guarani que busca identificar o impacto da catequese jesuítica sobre as palavras sagradas e, ao mesmo tempo, aferir "a resistência que o grupo foi capaz de efetuar no campo linguístico". A pesquisa, realizada entre os Kaiowá de Panambizinho-MS, coteja cantos e narrativas ligadas às festas do milho novo (avatikyry) e das crianças (kunumi pepy) com textos catequéticos do período das missões. No final, a autora apresenta uma boa discussão do problema da historicidade guarani.

Chamorro, Graciela. A Espiritualidade Guarani: uma teologia ameríndia da palavra. São Leopoldo: Sinodal, 1998 (Série Teses e Dissertações 10), 234p. Fruto de uma longa vivência entre os Guarani em Mato Grosso do Sul e no Rio Grande do Sul, de uma densa pesquisa em documentos históricos do período colonial e de uma leitura criteriosa da etnologia referente à religiosidade Guarani, este livro se define, nas palavras da autora, "duplamente como uma teologia índia feita por uma teóloga cristã e como tradução de uma experiência religiosa indígena". Ao enfocar a maneira pela qual os índios cristãos têm permanecido "fiéis aos grandes valores de seu sistema cultural", a autora permite repensar a longa relação entre os Guarani e o cristianismo.

Chamorro, Graciela. Terra Madura Yvy Araguyje: fundamento da palavra guarani. Dourados: Editora UFGD, 2008, 368p. Dedicado aos acadêmicos e acadêmicas guarani e kaiowá da Universidade Federal da Grande Dourados, o livro apresenta um amplo painel interpretativo da religião e religiosidade guarani. Afirma que os grupos guarani “não podem ser tomados como exemplo de um ‘cristianismo ameríndio’, mas sim contados entre as populações aborígines que mantêm uma relação marginal, embora cordial, com o cristianismo”. Para tanto, a autora conta com uma densa pesquisa documental, uma interlocução com narradores guarani e com sua própria experiência com a espiritualidade guarani ao longo dos anos.

Coelho, Elizabeth Maria Bezerra. Territórios em Conflito: a dinâmica da disputa pela terra entre índios e brancos no Maranhão. São Paulo: Hucitec, 2002, 349p. A autora enfoca os conflitos entre grupos indígenas no Maranhão (sobretudo Tenetehara e Guajajara) e trabalhadores rurais, porém também oferece uma pesquisa histórica sobre a missão capuchinha e a rebelião de Alto Alegre em 1901.

Coelho, Elizabeth Maria Bezerra. A Política Indigenista no Maranhão Provincial. São Luís: SIOGE, 1990, 344p. A autora apresenta uma análise da trajetória da política provincial através da legislação e da documentação do Império.

Cohen, Thomas. The Fire of Tongues: António Vieira and the missionary church in Brazil and Portugal. Stanford: Stanford University Press, 1998, 274p. Neste estudo do pensamento teológico e social do jesuíta Vieira, o autor inclui uma boa discussão das controvérsias em torno da exploração da mão-de-obra indígena no Maranhão e no Pará em meados do século XVII.

Coimbra Jr., Carlos; Flowers, Nancy; Salzano, Francisco, e Santos, Ricardo Ventura dos. The Xavante in Transition: Health, Ecology, and Bioanthropology in Central Brazil. Ann Arbor: University of Michigan Press, 2002, 344p. Projeto de colaboração interdisciplinar, o livro busca produzir uma percepção diacrônica da relação entre os Xavante de Etéñitépa e a sociedade brasileira. O enfoque recai sobre aspectos biológicos, demográficos, epidemiológicos e ecológicos, porém os autores trazem informações históricas importantes, algumas remontando ao século XVIII, com a reprodução de mapas e plantas de aldeias.

Colaço, Thaís Luzia. “Incapacidade” Indígena: tutela religiosa e violação do direito guarani nas missões jesuíticas. 4ª Reimpressão. Curitiba: Juruá, 2009, 223p. Publicado originalmente em 2000, o livro resulta de uma tese de doutorado que busca entender as origens das noções de “incapacidade” e “tutela” enquanto instrumentos de coação e desrespeito aos direitos indígenas, embora apresentados como instrumentos de proteção desses mesmos direitos. A pesquisa se atém sobretudo à bibliografia secundária e aborda as missões jesuíticas da Província do Paraguai.

Costa, Maria de Fátima. História de um País Inexistente: o Pantanal entre os séculos XVI e XVIII. São Paulo: Estação Liberdade/Kosmos, 1999, 277p. Esta minuciosa pesquisa em fontes das mais variadas produz uma história fascinante que transita entre o imaginário fantástico e a dura realidade da conquista de povos indígenas do Pantanal, das primeiras expedições espanholas no século XVI à demarcação de 1777. Inclui a belíssima reprodução de mapas, alguns pouco conhecidos.

Couto, Jorge. A Construção do Brasil. Ameríndios, portugueses e africanos, do início do povoamento a finais de Quinhentos. Lisboa: Cosmos, 1998, 408p. Escrito originalmente para uma coleção espanhola, este livro foi atualizado e oferece uma ampla abordagem da experiência portuguesa no Brasil durante o século XVI. No que diz respeito à história dos índios, é útil para visualizar o contexto mais amplo da presença indígena nesse período.

Cymbalista, Renato. Sangue, Ossos e Terras: os mortos e a ocupação do território luso-brasileiro, séculos XVI e XVII. São Paulo: Alameda, 2011, 364p. Originalmente uma tese de doutorado, este livro aborda a formação inicial da América portuguesa a partir de um enfoque singular, buscando mostrar a importância “das complexas relações entre o espaço dos vivos, dos mortos e a realidade territoiral na época da expansão colonial”. A investigação percorre uma documentação familiar (registros de missionários), enriquecida por imagens sacras, hagiografias e gravuras impressas mostrando cenas de martírio. Ao evocar martírios, relíquias, crenças e práticas, o autor inevitavelmente confronta “diálogos e traduções entre a cultura católica e ameríndia”. Se os primeiros capítulos tratam de maneira instigante este horizonte de convergências no espaço colonial, o último – dedicado exclusivamente aos índios – parece redundante e algo fora do lugar.

Daher, Andrea. O Brasil Francês: as singularidades da França Equinocial, 1612-1615. Trad. A. Stückenbruck. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007, 358p. Publicado originalmente em francês com o título Les singularités de la France Equinoxiale em 2002, o livro aborda as relações entre franceses e índios tupinambás nos dois lados do Atlântico. Dividido entre “o mundo par delà” e o “o mundo par deçà”, o estudo apresenta uma refinada análise dos textos escritos por missionários capuchinhos, textos estes que permitem não apenas entender o sentido da missão no Maranhão como também documentar “o espetáculo da conversão dos Tupinambá na França”, um episódio singular reconstruído com maestria pela autora. O livro inclui ilustrações da época e um bom prefácio de Roger Chartier.

Di Creddo, Maria do Carmo Sampaio. Terras e Índios: a propriedade da terra no Vale do Paranapanema. São Paulo: Editora Arte & Ciência, 2003, 184p. Baseado numa extensíssima pesquisa documental em cartórios do interior e no arquivo estadual, este livro enfoca a política expansionista do governo provincial de São Paulo na segunda metade do século XIX. Ao detalhar a organização de bandeiras, as tentativas de aldeamento e os conflitos entre fazendeiros e índios – Coroados (Kaingang), Cayuás (Kayowá-Guarani) e Xavantes (Oti) – a autora documenta a convergência entre interesses particulares e do Estado na ocupação fundiária do Vale, redundando na destruição dos povos indígenas.

Diacon, Todd. Stringing Together a Nation: Cândido Mariano da Silva Rondon and the construction of a modern Brazil, 1906-1930. Durham: Duke University Press, 2004, 228p. Baseado numa ampla pesquisa em arquivos, jornais e publicações oficiais, o livro estuda a trajetória de Rondon, do projeto de telégrafos à Revolução de 30. Ao relacionar as atividades de Rondon a um projeto de nacionalidade, o autor busca mostrar o caráter incompleto do processo, ressaltando a ineficácia e as contradições do projeto de integração dos sertões à nação. No capítulo sobre a política indigenista, critica com certa veemência a vertente "revisionista" de estudiosos que "denigram" a imagem de herói nacional e defensor romântico dos índios, imagem essa produzida por uma vertente "hagiográfica" ligada aos militares. O livro inclui uma seleção muito interessante de fotografias do acervo do Museu do Índio.

Domingues, Ângela. Quando os Índios eram Vassalos. Colonização e relações de poder no Norte do Brasil na segunda metade do século XVIII. Lisboa: CNCDP, 2000, 388p. Baseado numa rica pesquisa em arquivos portugueses e brasileiros, o livro acompanha a implantação da política pombalina nas comunidades indígenas da Amazônia, produzindo um retrato de complexas relações entre índios e as autoridades portuguesas. O texto demonstra a multiplicidade de respostas à nova situação por parte das autoridades locais, de outros agentes coloniais e, sobretudo, das próprias lideranças indígenas.

Dutra, Carlos Alberto dos Santos. Ofaié: morte e vida de um povo. Campo Grande: Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso do Sul, 1996, 339p. Produto de um levantamento etno-histórico feito pelo autor em meados dos anos 80 para o CIMI com o intuito de iniciar o processo de identificação de uma área indígena Ofaié Xavante, o livro costura textos do autor, depoimentos de lideranças indígenas, entrevistas e documentos históricos referentes aos Ofaié, grupo hoje radicado no município de Brasilândia MS. Apesar do caráter descontínuo do livro, o volume traz uma grande quantidade de informações históricas sobre os Ofaíé, oferecendo um amplo painel da luta desse povo contra as agressões de sertanistas e fazendeiros, contra a doença e a miséria, contra o descaso das autoridades republicanas. A Parte V reproduz uma série importante de documentos produzidos durante a gestão do SPI.

Early, John D. e Peters, John F. The Xilixana Yanomami of the Amazon: history, social structure, and population dynamics. Gainesville: University Press of Florida, 2000, 352p. Estudo detalhado das dinâmicas populacionais em oito aldeias Yanomami, traçando um perfil da fertilidade, mortalidade e das migrações. O livro busca documentar a história demográfica destas comunidades desde 1930, abrangendo um período de quase trinta anos anterior ao contato efetivo com forças sociais, políticas e econômicas externas. A pesquisa traz aportes para o debate em torno da relação entre demografia e etnologia, com reflexões sobre o impacto das doenças contagiosas introduzidas pelo contato e sobre a mudança das dinâmicas populacionais após esse evento.

Eisenberg, José. As Missões Jesuíticas e o Pensamento Político Moderno: encontros culturais, aventuras teóricas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2000, 264p. Ao explorar o movimento de ideias entre a América e a Europa do século XVI, o autor introduz uma nova leitura das implicações políticas da obra missionária dos jesuítas no Brasil em seu período formativo. A releitura dos escritos de Nóbrega permite reavaliar as bases morais e éticas sobre as quais se formulou a política indigenista colonial. O livro reproduz textos-chave de Nóbrega, incluindo o Diálogo sobre a Conversão do Gentio e o chamado Plano Civilizador.

Espindola, Haruf Salmen. Sertão do Rio Doce. Bauru: Edusc, 2005, 492p. O livro aborda a guerra de conquista na região do Rio Doce no século XIX, enfocando particularmente as motivações econômicas que estimularam o projeto de ocupação territorial. Bem documentado, o trabalho é menos sobre os índios propriamente ditos e mais sobre o impacto das políticas governamentais.

Farage, Nádia. As Muralhas dos Sertões: os povos indígenas no rio Branco e a colonização. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991, 197p. Exemplo emblemático da nova história indígena, este livro identifica a postura de atores indígenas frente à expansão colonial na região do rio Branco, unindo uma sensibilidade etnográfica a uma cuidadosa pesquisa documental. Demonstra que os índios não apenas foram usados pelas potências europeias que disputavam esta região de fronteira, como também usaram esta situação para consolidar uma certa autonomia.

Faulhaber, Priscila. O Lago dos Espelhos: etnografia do saber sobre a fronteira em Tefé/Amazonas. Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi, 1998, 215p. Estudo de antropologia histórica enfocando os movimentos étnicos na região de fronteira no rio Solimões. De especial interesse são as partes sobre a configuração das fronteiras no século XIX e início do século XX e sua relação com os povos indígenas locais. Há também um instigante estudo sobre a constituição dos estudos etnológicos no início do século XX, mostrando a relação entre as atividades missionárias e científicas de uma das principais fontes sobre a região, o padre C. Tastevin.

Fausto, Carlos. Inimigos Fiéis: história, guerra e xamanismo na Amazônia. São Paulo: Edusp, 2001, 587p. A primeira vista, trata-se de uma etnografia nos moldes clássicos sobre os Parakanã, povo tupi-guarani que vive entre os rios Xingu e Tocantins. No entanto, como as boas monografias clássicas, o alcance do livro vai muito além da descrição do objeto em si e traz aportes para a abordagem antropológica dos processos históricos vivenciados por sociedades indígenas. Ao se defrontar com o desafio de explicar porque dois ramos dos Parakanã – de origem comum porém cindidos no final do século XIX em decorrência de uma "briga por mulheres" – apresentavam, na época do contato (década de 1970), formas sociais "significativamente distintas", o autor procura "mostrar como as transformações foram produto da intersecção de determinações internas e externas, interesecção que se deu em situações históricas particulares, conformando e sendo conformada pela ação dos agentes". Transitando entre estrutura e processo, esta etnografia apresenta uma sofisticada apreciação das "formas na história" e da "história das formas", manejando com destreza documentos históricos, narrativas indígenas, observações pessoais e uma extensa bibliografia etnológica.

Fausto, Carlos. Os Índios antes do Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2000, 94p. Este pequeno livro tem o grande mérito de sintetizar em poucas páginas os difíceis debates em torno das origens e desenvolvimento cultural dos povos nativos no amplo período anterior à chegada dos europeus. Mostra de forma hábil o diálogo entre a arqueologia e o registro histórico, levantando sérias questões a respeito das características demográficas, políticas e étnicas dessas populações.

Felix, Cláudio Eduardo. Uma Escola para Formar Guerreiros. Irecê: Print Fox, 2007, 110p. Originalmente uma dissertação defendida na UFPE, este livro descreve e analisa o surgimento e expansão da Comissão de Professores Indígenas de Pernambuco (COPIPE). Além da história recente desta organização, o livro também faz uma breve incursão pela história da educação indígena no país.

Fernandes, João Azevedo. De Cunhã a Mameluca: a mulher tupinambá e o nascimento do Brasil. João Pessoa: Editora UFPB, 2003, 303p. Ao transitar entre a etnologia e a história, o autor produz uma monografia marcada sobretudo pela originalidade na abordagem crítica dos inícios da mestiçagem no Brasil. O livro desloca o foco para as mulheres tupinambás enquanto protagonistas de uma história de relações que devem, segundo o autor, ser analisadas a partir de um "paradigma interétnico". Para tanto, realiza uma ampla reavaliação crítica dos estudos históricos e etnológicos à luz de uma releitura de relatos e fontes coloniais dos mais variados. A riqueza deste trabalho só é empobrecida pela baixa qualidade editorial do livro.

Fernandes, João Azevedo. Selvagens Bebedeiras: álcool, embriaguez e contatos culturais no Brasil colonial (séculos XVI-XVII). São Paulo: Alameda, 2011, 238p. Versão revista de uma tese de doutorado que aborda o processo de encontro intercultural a partir de um objeto sempre presente porém pouco estudado. O autor faz uma leitura minuciosa de documentos e narrativas coloniais para revelar “o papel crucial das festas e cerimônias etílicas nas sociedades indígenas”, com especial atenção às “cauinagens canibais” dos Tupinambá. Chega à conclusão de que, se os índios conseguiram impedir a introdução do vinho português enquanto “mercadoria civilizatória”, sofreram uma derrota com a repressão do cauim e das cauinagens, o que criou um “vazio etílico” que seria preenchido de maneira trágica por bebidas destiladas, como a cachaça, com efeitos danosos sobre os índios e para os planos dos evangelizadores. Mas o autor deixa para uma outra ocasião uma análise sobre as maneiras pelas quais os índios, com larga experiência com bebidas e embriaguez, se relacionaram com aquilo que de forma simplificada é pensado como uma “arma da colonização”.

Freire, Carlos Augusto da Rocha. O SPI na Amazônia: política indigenista e conflitos regionais, 1910-1932. Rio de Janeiro: Museu do Índio-Funai, 2007 (Série Publicação Avulsa do Museu do Índio, 2), 116p. Pequena publicação de grande riqueza, este livro aborda uma série de questões ligadas à atuação da Inspetoria Regional responsável por Amazonas e Acre durante as primeiras décadas do SPI. O autor enfoca de maneira particular as atividades e os escritos de Bento de Lemos, cuja carreira permite colocar em discussão aspectos demográficos, territoriais, políticos e administrativos da gestão indigenista. O material documental inédito e as fotografias dos postos são, simplesmente, fantásticos.

Freire, José Ribamar Bessa. Rio Babel: a História das Línguas na Amazônia. Rio de Janeiro: Atlântica Editora/Editora da UERJ, 2004, 272p. De forma pioneira e abrangente, o autor apresenta uma "história social das línguas na Amazônia num período de trezentos anos", percorrendo um rico manancial de fontes escritas. O livro aborda a transformação do quadro etnolinguístico, mostrando o processo de formação da língua geral e a introdução da língua portuguesa no contexto da diversidade linguística ameríndia. O autor salienta não apenas o papel do sistema de exploração da mão-de-obra na interação de línguas diversas, como também demonstra a importância das "políticas de línguas" dos missionários e do Estado nesta história. Por fim, o livro acompanha a trajetória da língua geral no século XIX, revelando um delicado quadro marcado tanto pela persistência localizada quanto pelo declínio geral face ao avanço do português.

Freire, José Ribamar Bessa e Malheiros, Márcia Fernanda. Aldeamentos Indígenas no Rio de Janeiro. 2ª ed. Rio de Janeiro: Editora da UERJ, 2009, 100p. Pensado inicialmente como um aporte didático, o livro ultrapassa essa limitação ao trazer um material original de pesquisa em arquivos realizada pela equipe do Programa de Estudos dos Povos Indígenas, da UERJ. O texto é curto porém contundente, buscando levantar questões e problemas quanto à presença indígena no Rio de Janeiro, entre os séculos XVI e XIX.

French, Jan Hoffman. Legalizing Identities: Becoming Black or Indian in Brazil’s Northeast. Chapel Hill: University of North Carolina Press, 2009, 247p. A partir de uma pesquisa de campo realizada em 1998-2000, a autora analisa a construção de identidades indígenas e quilombolas em Sergipe. A autora introduz uma perspectiva da antropologia do direito e chega a conclusão de que o êxito das políticas identitárias nestes dois casos não passa pela prova de uma “autenticidade” de origem e sim pela articulação de múltiplos agentes em torno de uma relação com a legislação e com o conceito de justiça social.

Funari, Pedro Paulo e Piñón, Ana. A Temática Indígena na Escola: subsídios para os professores. São Paulo: Editora Contexto, 2011, 127p. Destinado a “professores das escolas não indígenas”, trata-se de um livro paradidático que se mostra mais eficaz no manejo de conceitos e informações provenientes da arqueologia americanista do que dos debates atuais a respeito da história dos índios nas Américas. O livro traz uma discussão útil sobre a imagem dos índios ao longo da história, porém os índios surgem enquanto atores sociais e políticos apenas na conclusão, quando se faz uma referência rápida ao contexto da abertura política.

Gallois, Dominique. Mairi Revisitada. A Reintegração da Fortaleza de Macapá na Tradição Oral dos Waiãpi. São Paulo: Núcleo de História Indígena e do Indigenismo, 1993 (Série Estudos), 91p. Estudo bastante criativo que apresenta diferentes versões indígenas sobre as origens da humanidade e as origens da presença dos brancos na vida social dos índios Waiãpi do Amapá. A autora comenta longos depoimentos de diferentes narradores nativos, com destaque para o chefe Waiwai, apresentando uma rica discussão dos diferentes gêneros de narrativa sobre o passado.

Gambini, Roberto. O Espelho Índio: a formação da alma brasileira. 2a ed., São Paulo: Axis Mundi/Terceiro Nome, 2000, 191p. Publicado originalmente em 1988 com outro subtítulo, este estudo apresenta uma abordagem instigante do encontro entre missionários e índios no século XVI, lançando mão de instrumentos junguianos de análise. A nova edição é enriquecida por um projeto editorial arrojado, amplamente ilustrado.

Ganson, Barbara. The Guarani Under Spanish Rule in the Río de la Plata. Austin: University of Texas Press, 2003, 290p. Apesar da abrangência do título, o livro trata menos das missões espanholas e mais sobre o período após a expulsão dos jesuítas dos territórios espanhóis em 1767. A autora introduz uma pesquisa bastante original e densa, destacando-se a documentação evocativa das vozes e das ações dos Guarani, não se atendo apenas às lideranças. O trabalho trava um diálogo entre a etnologia e a história, situando-se numa rica tradição de estudos sobre as áreas de fronteiras coloniais. Embora o enfoque seja sobre a América Espanhola, o livro acrescenta informações e perspectivas sobre episódios envolvendo colonos e índios da América Portuguesa, incluindo as expedições paulistas, a chamada Guerra Guaranítica e a incorporação dos Sete Povos ao lado português da fronteira.

Garcia, Elisa Frühauf. As Diversas Formas de Ser Índio: políticas indígenas e políticas indigenistas no extremo sul da América portuguesa. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2009, 352p. Segundo lugar no Prêmio Arquivo Nacional de Pesquisa, este livro é fruto de uma extensa pesquisa de doutorado que enfoca a presença e participação dos índios na configuração da sociedade colonial na fronteira meridional da América portuguesa. Aborda de maneira inovadora as políticas de alianças iniciadas pelos índios, desde o contexto da demarcação territorial em torno do Tratado de Madri às vésperas da Independência.

Garfield, Seth. Indigenous Struggle at the Heart of Brazil: state policy, frontier expansion, and the Xavante Indians, 1937-1988. Durham: Duke University Press, 2001, 316p. Pesquisa de fôlego, este livro mostra a articulação entre as ideias sobre a nação, a política indigenista e as estratégias indígenas durante o período crítico de expansão econômica (e política, com a mudança da capital federal) para o Brasil central. São vários destaques dignos de nota: traz muitas informações e perspectivas novas sobre o período do Estado Novo (1937-1945); confronta, de maneira instigante, o pessimismo sentimental dos etnógrafos com as posturas assumidas por atores indígenas; documenta os embates em torno da demarcação de terras dos Xavante; demonstra o jogo complexo entre a formação da imagem dos Xavante enquanto símbolos primordiais da nacionalidade e a política da diferença adotada pelos mesmos Xavante em prol de seus direitos territoriais.

Gaspar, Madu. A Arte Rupestre no Brasil. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003 (Série Descobrindo o Brasil), 83p. Trata-se de um pequeno resumo do estado atual do conhecimento referente aos grafismos rupestres presentes em várias regiões do país. A autora fornece informações sobre pesquisas recentes em seus esforços de contextualizar as imagens e de propor um quadro analítico para interpretar o domínio do simbólico expresso nos grafismos.

Giraldin, Odair. Cayapó e Panará: luta e sobrevivência de um povo Jê no Brasil Central. Campinas: Editora Unicamp, 1997, 198p. Ao transitar entre a documentação histórica e as etnografias modernas, o autor apresenta um sólido estudo da trajetória dos Kayapó meridionais, objetos de uma brutal política de repressão a partir do século XVIII. A pesquisa documental revela fontes e perspectivas antes desconhecidas, além de aprofundar as evidências que apontam para a relação entre os Kayapó meridionais, considerados "extintos", e os Panará do rio Peixoto de Azevedo.

Giucci, Guillermo. Sem Fé, Lei ou Rei: Brasil 1500-1532. Rio de Janeiro: Rocco, 1993, 239p. Enfocando o primeiro período de atividades coloniais no litoral brasileiro, o autor apresenta uma sugestiva discussão sobre o papel de náufragos e degredados naquilo que chama de "colonização acidental". Enfoca de maneira interessante as fontes do período, que dizem várias coisas sobre as primeiras relações entre europeus e índios.

Goldschmidt, Eliane M. Rea. Casamentos Mistos: liberdade e escravidão em São Paulo colonial. São Paulo: Annablume, 2004, 176p. Fruto de uma paciente pesquisa em documentos eclesiásticos abrangendo o período de 1728 a 1822, o livro traz informações sobre os casamentos entre africanos e índios em São Paulo, dando visibilidade a um assunto pouco abordado na historiografia.

Golin, Tau. A Guerra Guaranítica: como os exércitos de Portugal e Espanha destruíram os Sete Povos dos jesuítas e índios guaranis no Rio Grande do Sul. Passo Fundo: EDUPF, 1998 [3ª ed., 2004], 623p. A parte principal desta publicação é a edição anotada do “Diário da Expedição e Demarcação da América Meridional e das Campanhas das Missões do Rio Uruguai”, escrito pelo engenheiro militar português José Custódio de Sá e Faria. Apesar de escrito alguns anos depois dos eventos, Custódio foi participante e testemunha de vários episódios da rebelião indígena que investiu contra as comissões castelhana e portuguesa que visavam cumprir os artigos do Tratado de Madri. O texto é prefaciado por um estudo sobre Sá e Faria e as anotações que acompanham a transcrição trazem abundantes informações complementares, baseadas numa extensa pesquisa documental e bibliográfica. O Diário traz detalhes sobre aspectos cerimoniais, políticos, militares e culturais das relações entre os rebeldes e as autoridades coloniais. O autor inclui, ainda, uma quantidade expressiva de imagens cartográficas e iconográficas do período.

Gomes, José Eudes. As Milícias d’El Rey: tropas militares e poder no Ceará setecentista. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010, 359p. Dissertação de mestrado vencedora do Prêmio Pronex/UFF Culturas Políticas, este livro aborda um tema de grande importância para a história dos índios, porém parcamente estudado: a estrutura e atuação de diferentes espécies de tropas militares nos processos de conquista, colonização e controle territorial na América portuguesa. Além de percorrer uma bibliografia ampla, o autor realizou uma pesquisa extensíssima em documentos impressos e manuscritos, enfocando de modo particular o Ceará. Enfoca de maneira original a participação e recompensa de tropas ameríndias, incluindo a identificação de doações de sesmarias a índios neste contexto. Inclui um bom número de mapas, tabelas, gráficos e ilustrações de interesse para a temática da história indígena.

Gomes, Mércio Pereira. O Índio na História: o povo Tenetehara em busca da liberdade. Petrópolis: Editora Vozes, 2002, 631p. O autor alia uma extensa pesquisa documental a sua longa experiência como etnógrafo e indigenista para produzir um detalhadíssimo relato das relações entre os Tenetehara do Maranhão e os brancos, desde o contato inicial com os franceses no início do século XVII aos dias de hoje. Conforme alerta o próprio autor, o livro está escrito em vários registros distintos, passando pela teoria antropológica ("ontosistêmica"), pela história do contato, pela "economia igualitarista", pela demografia e pela filosofia. A parte sobre a história é organizada pela sequência das principais instituições da política indigenista, com uma concentração maior no período do SPI. No mais, destacam-se a abordagem da rebelião de Alto Alegre (1901) e o capítulo sobre a demografia histórica. Presente de maneira indireta ao longo do livro, a voz dos índios aparece de maneira explícita num capítulo curto com a transcrição de alguns depoimentos.

Gonçalves, Regina Célia. Guerras e Açúcares: política e economia na Capitania da Parayba – 1585-1630. Bauru: Edusc, 2007, 330p. Baseado numa extensa pesquisa documental em arquivos portugueses e brasileiros, o livro enfoca a consolidação da sociedade e economia colonial na Paraíba, durante o período entre a “guerra da conquista contra os Potiguara” e o início da presença holandesa. Nascida “às custas de sangue”, a Capitania da Paraíba foi palco de uma intensa disputa entre populações indígenas e adventícias. Sobretudo nos capítulos 1 e 2, a autora destrincha estas relações com uma análise detalhada da guerra, das alianças, do comércio entre índios e franceses, do “negócio do cativeiro de índios” e da política dos conquistadores em “limpar o terreno”, marcada tanto pelos esforços de aldeamento de aliados quanto no massacre de inimigos. O livro também mostra, de maneira bastante persuasiva, a importância da conquista e das narrativas de conquista para o surgimento de uma elite regional, cuja participação nas guerras redundou em recompensas na distribuição de terras a serem exploradas na produção açucareira.

Grünberg, Georg. Os Kaiabi do Brasil Central: história e etnografia. São Paulo: Instituto Socioambiental, 2004, 299p. A publicação deste livro revela algo da história recente dos índios do Xingu e, ao mesmo tempo, a busca por parte das lideranças atuais por subsídios para uma história indígena do povo Kaiabi. Fruto de uma pesquisa de campo realizada em 1965-66, o texto foi apresentado como tese em etnologia e publicado em alemão na revista Archiv für Völkerkunde em Viena em 1970. O autor situa, no capítulo II, as fontes históricas sobre os Kaiabi, do século XVIII ao XX; no capítulo III, coteja as informações de meados dos anos de 1950 com as observações do período da pesquisa para aferir mudanças demográficas e territoriais. Esta edição inclui um posfácio escrito por Klinton Senra, Geraldo Mosimann da Silva e Simone Ferreira de Athayde trazendo dados atuais sobre os Kaiabi, o que permite mais um cotejo histórico com as observações e dados desta rica tese escrita há algumas décadas.

Grünewald, Rodrigo de Azeredo. Os Índios do Descobrimento: tradição e turismo. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2001, 224p. Fruto de uma densa pesquisa etnográfica realizada às vésperas das "comemorações" do quinto centenário, este estudo problematiza a postura dos Pataxó do sul da Bahia ao assumirem o papel de "índios do descobrimento" no sítio histórico dos primeiros contatos de 1500. Lançando mão de uma antropologia histórica em diálogo com os "estudos pós-coloniais", o autor demonstra o quanto a história dos índios se complica à medida que os índios apresentem versões próprias dessa história no contexto da negociação de identidades. Outra contribuição importante deste estudo reside no enfoque sobre o turismo étnico, outra arena na qual se mobiliza discussões em torno das tradições que, neste caso, segundo o autor, estão vinculadas tanto a manifestações culturais essencializadas (danças, artesanato, língua) quanto a uma narrativa histórica que remete ao descobrimento do Brasil.

Harris, Mark. Rebellion on the Amazon: the Cabanagem, race, and popular culture in the north of Brazil, 1798-1840. Cambridge: Cambridge University Press, 2010, 331p. Baseado numa extensa pesquisa documental e um domínio ágil da bibliografia vigente, este livro aborda a Cabanagem enquanto “rebelião camponesa”, comparável com outros movimentos nas Américas. Para tanto, o autor faz uma interessante revisão dos desdobramentos econômicos, políticos e culturais do Diretório abolido em 1798. De especial interesse para a história dos índios é o capítulo “Formas de Resistência nos Anos Finais do Período Colonial”, mostrando as bases mais profundas dos processos de conflito, mobilização e rebeldia que marcariam as décadas após a independência.

Heckenberger, Michael J. The Ecology of Power: Culture, Place, and Personhood in the Southern Amazon, A.D. 1000-2000. Londres: Routledge, 2005, 404p. A partir de um enfoque historico-ecológico, o autor apresenta uma empolgante análise de um milênio de história alto-xinguana, tecendo um rico diálogo interdisciplinar. Ao questionar modelos e ao reivindicar novos estudos arqueológicos e etnohistóricos para fornecer respostas mais claras, esta importante contribuição adensa a discussão em torno da chefia (e dos cacicados) na Amazônia anterior ao contato com a expansão europeia e, em certo sentido, no período coêvo a esta mesma expansão.

Hemming, John. Ouro Vermelho: A Conquista dos Índios Brasileiros. Trad. Carlos Eugênio Marcondes de Moura. São Paulo: Edusp, 2007 (Série Clássicos, 27), 811p. Excelente tradução deste livro pioneiro, publicado originalmente em inglês em 1978. Apesar da ausência de um diálogo mais consistente com a historiografia colonial ou com a etnologia sul-americana, Hemming apresenta uma pesquisa bastante abrangente nas fontes impressas e uma narrativa empolgante, bem ao estilo de sua obra anterior sobre a conquista dos Incas. A importância do livro reside na abrangência da cobertura, porém falta a esta edição uma apresentação (como há nos outros volumes da série Clássicos), esclarecendo o contexto em que a obra foi produzida e o seu significado para os estudos indígenas. A tradução preserva a edição de 1978 quase integralmente, acrescido de algumas citações bibliográficas mais recentes (até o início dos anos 90). Se não há um esforço de atualização da obra à luz da revolução nos estudos sobre a história dos índios nos últimos anos, surge estranhamente uma alteração no anexo demográfico, em certo sentido amenizando a visão catastrófica e pessimista da edição original (na qual declarava que a população indígena daquela época seria menos de 100.000, obviamente reproduzindo as projeções de Darcy Ribeiro). A