Trabalho Completo Maus Tratos Na Infancia

Maus Tratos Na Infancia

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Categoria: Ciências Sociais

Enviado por: Camila 30 dezembro 2011

Palavras: 3185 | Páginas: 13

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aus tratos vividas durante a infância”, a 2ª à “ Prevalência de história de maus tratos na infância em indivíduos na idade adulta”, a 3ª às “Trajectórias desenvolvimentais e ajustamento psicológico na idade adulta em indivíduos com historia de maus tratos na infância”, a 4ª à “Avaliação na idade adulta da historia de maus tratos na infância” e a 5ª à “ Intervenção psicológica na idade adulta em indivíduos com história de maus tratos na infância”.

1. Modelo desenvolvimental do impacto na idade adulta das experiencias de maus tratos vividas durante a infância.

Na sua introdução Figueiredo, Fernandes, Matos & Maia (2002), começam com uma breve contextualização da psicopatologia do desenvolvimento afirmando que esta se interessa pela origem e curso dos padrões (des) adaptados de comportamento (Sroufe, Cooper, & Dehart, 1996), e que este se fundamenta no seu essencial na teoria da vinculação. Falam sobre a resolução de tarefas do desenvolvimento, diz que estas podem implicar emergência psicopatológica ou uma conduta menos adaptada, as dificuldades que podem surgir resultam das condições do meio e do indivíduo, ou seja, na determinação de uma trajectória desenvolvimental (des) adaptada, estão presentes factores que condicionam negativamente ou positivamente a resolução de tarefas, a autora enumera-as por factores de risco e protectores. Segundo os autores a psicopatologia do desenvolvimento privilegia a interacção entre o indivíduo e o contexto em que se desenvolve, o indivíduo é considerado o produtor do seu desenvolvimento. É no âmbito de interacções ente o meio e o indivíduo que têm lugar os padrões de interacção intergeracional. Para serem mais claros em explicar o que são os padrões de interacção intergeracional, é dado o seguinte exemplo: os pais que sofreram abusos na infância, na ausência de modelos alternativos e de experiências emocionais correctoras podem agir do mesmo modo que os seus pais agiram consigo, actualizando a sua perturbação na criança.

2. Prevalência de histórias de maus tratos na infância em indivíduos na idade adulta.

A autora, e os seus colegas relatam que as experiencias de maus tratos e abuso sexual na infância e adolescência são descritos por um elevado numero de sujeitos na idade adulta, note-se que em cada 15 a 50 por cento dos adultos considerados. As mulheres descrevem histórias de abuso sexual e físico com sequelas em percentagens mais elevadas que os homens, já estes descrevem terem sido vítimas de algum tipo de abuso físico em percentagens superiores às mulheres. Com efeito, a história de maus tratos durante a infância em indivíduos da comunidade são elevados, mas aumentam quando se estudam amostras de indivíduos com perturbação psicológica. Vejamos que a 43 a 57 por cento dos indivíduos adultos, quando estudadas amostras de sujeitos em tratamento ou internamento psiquiátrico.

3. Trajectórias desenvolvimentais e ajustamento psicológico na idade adulta em indivíduos com história de maus tratos na infância.

Segundo os autores as histórias de maus tratos na infância podem interferir negativamente na qualidade do ajustamento psicológico e do relacionamento interpessoal do individuo na idade adulta, podendo até afectar a qualidade dos cuidados prestados á criança. No entanto isto só se verifica caso o individuo não tenha tido a oportunidade de usufruir de outro tipo de relacionamento, e no caso de não terem sido capazes de organizar as suas experiencias adversas de um modo coerente e organizado. (Main & Goldwyn, 1984).

3.1 Representação da vinculação em indivíduos adultos com histórias de maus tratos na infância.

Através do procedimento experimental desenhado por Mary Ainsworth, a “situação estranha”, foram estudados os padrões de organização da vinculação. Os autores enumeram os seguintes: o padrão de vinculação insegura (“A” ou “C”), o padrão de vinculação seguro (“B”), o padrão inseguro de vinculação do tipo ambivalente/evitante (“A/C”) designada por Crittendem (1998), e ainda uma quarta classificação proposta por Main e Soloman (1986), que designaram como desorganizada/ desorientada (“D”). No padrão (“A/C”) as crianças vítimas de maus tratos utilizavam estratégias mistas, ou seja, estratégias evitantes em determinados momentos e estratégias resistentes, ou até mesmo seguras. No padrão (“D”), acontecia que as crianças na impossibilidade de delinear estratégias coerentes para lidar com a activação de vinculação na situação estranha, as crianças vitimas de maus tratos exibiam sinais evitantes de desorganização ou desorientação: comportamentos contraditórios em relação à mãe, movimentos e expressões incompletas e sem direcção, movimentos e expressões de imobilização, apatia e estupefacção, posturas anómalas e movimentos assimétricos.

3.2 Qualidade dos cuidados prestados e perpetração de maus tratos à criança em indivíduos adultos com história de maus tratos na infância.

Na opinião dos autores, é a qualidade das experiencias na relação precoce com os pais, que determinarão a qualidade dos cuidados que o individuo irá prestar na idade adulta, tal como pressupõe a teoria da vinculação. A teoria da vinculação concebe que as praticas de cuidados que os pais têm com os seus filhos estabelecem-se muito frequentemente na continuidade dos modos pelos quais eles mesmos foram cuidados durante a infância, pois tais praticas são guiadas pela representação que os pais fazem dos seus próprios pais e da relação que com eles estabelecem em criança (Main & Goldwyn, 1984; Morton & Browne, 1998). Os autores referem que o facto do sujeito ter sido vitima de maus tratos na infância e ter presenciado maus tratos na infância (violência conjugal, abuso sexual, colocação familiar) aumentam a probabilidade de estes virem a maltratar os seus filhos na idade adulta. Enuncia-se aqui que os filhos de mães vítimas de incesto, estão vulneráveis a abusos sexuais, devido ao facto de estas mães serem menos capazes de prestar cuidados adequados. No entanto o abuso sexual do qual estas crianças eram vítimas não é perpetrado pelas mães. Observou-se também que muitos dos pais que maltratavam os seus filhos não tinham sido alvos de maus tratos na infância e que consoante os estudos, apenas 25 a 50 por cento dos pais com histórias de maus tratos na infância maltratavam os seus filhos na idade adulta (e.g., Herrenkohl, Herrenkohl, & Toedtler, 1983; Kaufman & Zigler, 1987; Pianta, Egeland, & Erickson, 1989). Existem factores que permitem quebrar a transmissão intergeracional dos maus tratos, para que as crianças vitimas de maus tratos na infância não se tornem possíveis abusadores na idade adulta, Por exemplo a presença de um adulto capaz de prestar uma relação de apoio a criança, a possibilidade de estabelecer durante a infância uma relação calorosa com um adulto ou com um amigo, são factores que minimizam a interferência das historias de maus tratos na infância no potencial abusador do individuo na idade adulta, propiciam a aquisição de “ingredientes” necessários a uma trajectória desenvolvimental mais adaptada, a qual permite, na idade adulta, o estabelecimento de relações interpessoais mais satisfatórias, nomeadamente praticas de cuidados mais adequados com os filhos. Mas segundo o raciocínio dos autores, também existem factores que podem agravar o efeito das histórias de abuso durante a infância na circunstância de o indivíduo vir a maltratar os filhos na idade adulta. Vejamos o seguinte exemplo: a vivencia de situações repetidas de maus tratos, antes e depois da idade dos 13 anos. (Sraus, Hamby, Finkelhor, Moore, & Ruyan, 1998; Milner)

3.3 Qualidade do relacionamento interpessoal e das relações íntimas em indivíduos adultos com histórias de maus tratos na infância.

As experiencias de maus tratos durante a infância contribuem significativamente, quer para a ocorrência de experiencias em que o individuo é perpetrador de abuso (físico, sexual e verbal), quer para a ocorrência de experiências em que o individuo é vitima de abuso nas relações intimas com outros significativos, o que é observado em rapazes e em raparigas adolescentes (Wekerle & Wolfe, 1998). No entanto Figueiredo, e seus colegas afirmam aqui, que quando em consequência dos maus tratos ocorridos durante a infância não se observa um padrão inseguro de vinculação (evitante/ambivalente), então não se observam dificuldades no relacionamento íntimo na idade adulta (e. g., McCarthy & Taylor, 1999, Wekerle & Wolfe, 1998).

3.4 Emergência de psicopatologia em indivíduos adultos com historias de maus tratos na infancia.

Os autores começam por referir a relação existente entre experiências de maus tratos durante a infância e a emergência de sintomas ou perturbações psicopatológicas, diz-nos também que têm sido feitos vários estudos acerca do tema. Como conclusão dos estudos efectuados são relatados que existem números significativamente mais elevados de sintomas psicopatológicos em sujeitos abusados quando comparados com sujeitos não abusados, visto que para efectuar os estudos foram observados indivíduos da sociedade quer aqueles que estivessem a ter apoio psicológico. Importa ainda referir que quando os abusos na infância são do cariz sexual, os sintomas psicopatológicos são mais graves observando-se assim: sintomas de depressão, baixa auto-estima e ainda comportamento auto destrutivo.

4. Avaliação na idade adulta da história de maus tratos na infância.

Existem instrumentos que possibilitam a aquisição de informação, essencialmente a partir da recordação que os adultos têm dos acontecimentos da infância, afirmam os autores. A medida que vão sendo aperfeiçoados, estes instrumentos, entrevistas ou questionários, são cada vez mais capazes de activar a memória dos indivíduos para acontecimentos relevantes e de descriminar os factores em si da resposta que o sujeito dá aos factos (Bifulco et al., 1997). Os instrumento seguidamente referênciados foram submetidos a estudos de validação, no sentido de obter informação fidedigna relativamente a histórias passadas de abuso e negligência.

4.1 Questionários que avaliam a ocorrência de maus tratos na infância e adolescência.

Neste subcapítulo são apresentados alguns questionários de auto-relato pelos autores, que avaliam a ocorrência de maus tratos na infância e na adolescência, vejamos os seguintes exemplos: Assessing Environments III; CATS – Child Abuse and Trauma Scale; Childhood Neglect and Physical Abuse; CHQ-Childhood History Questionnaire; ROME-Record of Maltreatment Experience. Avaliam a frequência de experiências de abuso, permitem aceder a histórias de abuso físico e sexual e caracterizam as histórias de vitimização durante a infância e adolescência.

4.2 Questionários que avaliam a ocorrência de maus tratos específicos (abuso sexual) na infância e adolescência.

Aqui são apresentados dois questionários de auto-relato que avaliam as experiências adversas de abuso sexual, o SAQ- Sexual Abuse Questionnaire, cujo objectivo é a recolha de informação acerca de experiencias de abuso sexual na infância, e o SAEQ-Sexual Abuse Exposure Questionnaire, que mede a ocorrência de abuso sexual na infância, a sua duração e consequências psicológicas, bem como a relação da vitima com o perpetrador.

4.3 Entrevistas que caracterizam experiencias de abuso na infância.

Deste grupo de entrevistas temos a CECA-Childhood Experience of Care and Abuse, e a entrevista de exploração de abuso sexual na infância. A primeira é uma entrevista semi-estruturada, cujo objectivo permite a recolha de informação retrospectiva acerca das experiencias da infância em amostras de população adulta, já o objectivo da segunda entrevista é avaliar indirectamente a ocorrência de 8 tipos de experiências sexuais abusivas, antes dos dezoito anos de idade.

4.4 Questionários que avaliam o impacto de experiencias passadas de abuso, e que discriminam vitimas de abuso na infância. Temos o IES-impact of Scale, é um questionário de auto-relato que avalia a forma, qualidade e quantidade de sintomas relacionados com experiências adversas na infancia. O TCHC- The Courage to Heal Checklist, avalia os efeitos de experiências de abuso na infância.

4.5 Outros instrumentos. Os autores salientam que existem instrumentos, que não tem por objectivo, avaliar directamente a ocorrência de experiências de maus tratos na infância e na adolescência, que é o caso particular da AAI (Adult Attachment Interview), que serve como meio complementar de avaliação. Esta é uma entrevista do tipo clínico que traduz as principais questões da vinculação. Avalia-se a ocorrência de experiencias de abusos na infância, a partir da descrição que o próprio adulto faz da relação com os pais.

5. Intervenção psicológica na idade adulta em indivíduos com história de maus tratos na infância.

A intervenção clínica é a oportunidade que um indivíduo tem, por um lado, de beneficiar de um espaço, em que lhe é dada permissão para falar das experiências de maus tratos na infância, e por outro, reconstruir a percepção de si, dos outros e das relações que mantém na idade adulta.

5.1 A intervenção psicológica em adultos vítimas de maus tratos na infância.

Figueiredo e seus colegas falam acerca do modelo de intervenção psicológica em adultos que está organizado em cinco fases, enumerando-as como: a primeira fase é a avaliação clínica, a segunda fase é construção da confiança e segurança, a terceira fase é a estabilização de sintomas, e a quarta fase é a integração de experiencias traumáticas e a quinta fase é consagrada ao desenvolvimento e fortalecimento pessoal. Na primeira fase pode-se ou não incluir a utilização de questionários e de entrevistas estruturadas, esta fase têm como objectivo obter um primeiro relato de experiencias de maus tratos vividas na infância, bem como uma avaliação dos factores de risco e /ou protectores presentes e do funcionamento actual do sujeito. Na segunda fase os autores afirmam que é procurado favorecer a construção de confiança e de segurança, de modo a criar condições e recursos necessários para o trabalho terapêutico acerca das consequências dos maus tratos. Na terceira fase é feita a estabilização dos sintomas, procurando lidar com sintomas de depressão, ansiedade e /ou perturbações psicofisiológicas que possam estar presentes. Na quarta fase trabalha se no sentido de integrar as experiencias de maus tratos na totalidade da vida do sujeito, proporcionando assim uma continuidade narrativa. E para findar na quinta fase o sujeito têm a oportunidade de solidificar as suas aprendizagens e implementar os projectos pessoais, libertando-se assim para novas experienciam.

5.2 Caso clínico.

Os autores descrevem um caso clínico, começam por descrever um técnico de educação de 46 anos, com 2 filhos que sofria de uma depressão endógena. Afirmavam que A., era incapaz de se envolver em projectos que fossem desafiadores, e encarava segundo os autores a distância emocional em relação aos seus familiares como um destino. Sentia tristeza e angústia, por vezes até a luz do dia o incomodava. Com efeito a sua história desenvolvimental estava carregada de abusos graves, abuso psicológico, inversão de papéis (parentificação). O seu pai era o abusador, e depois que este sofreu um enfarte do miocárdio a depressão de A., ocorreu. Na conceptualização do caso foi considerado que a falta de cuidados adequados e a violência física de que A., era submetido interferiram com as suas tarefas desenvolvimenais básicas, pondo em causa a possibilidade de A., desenvolver um conceito de si próprio como capaz de despertar nos outros emoções positivas. As criticas e humilhações por parte do pai depressa destruíram a possibilidade de se perceber como eficaz para resolver os problemas da vida. Após a avaliação do paciente a sua intervenção foi organizada segundo quatro objectivos: validação da experiencia do sujeito num ambiente de conforto e segurança, lidar com os sintomas, integração do trauma e fortalecimento e reconstrução pessoal. O processo terapêutico só se deu por finalizado quando o paciente já estava envolvido em vários projectos e se sentia suficientemente forte para acreditar nas suas competências no presente, afirmando este que já era capaz não só de enfrentar, como de construir os desafios do seu futuro.

Para concluir, Os autores verificam que é no balanço entre factores de risco e de factores protectores que se pode ajudar a resolver o desajustamento nas tarefas desenvolvimentais adultas, favorecido pela vivência de maus tratos na infância. Note-se ainda que a maior parte dos maus tratos verificam-se no contexto de cuidados inadequados e de interacções pautadas pela falta de sensibilidade dos pais e ainda que nem todos os indivíduos sujeitos a maus tratos na infância desenvolvem perturbações psicopatológicas.

Bibliografia

Figueiredo, B., Fernandes, E., Matos., R. & Maia, A. (2002). Maus Tratos na infância: Trajectórias desenvolvimentais e intervenção psicológica na idade adulta. In Abrunhosa, R. & Machado, C. (Coords.). Violência e Vítimas de Crime. Vol. 1 – Adultos. Coimbra: Quarteto Editora.