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Novas Configurações Da Divisão Sexual Do Trabalh

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Categoria: Ciências Sociais

Enviado por: Camila 15 dezembro 2011

Palavras: 4987 | Páginas: 20

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de conteúdos distintos. Trata-se, de um lado, de uma acepção sociográfica:

estuda-se a distribuição diferencial de homens e mulheres no mercado de trabalho, nos ofícios e nas profissões, e as variações no tempo e no espaço dessa

distribuição; e se analisa como ela se associa à divisão desigual do trabalho

doméstico entre os sexos.

Esse tipo de análise foi e continua sendo indispensável: por exemplo, a

construção de indicadores confiáveis para medir a igualdade profissional homens/mulheres é um verdadeiro desafio político na França. Mas, a nosso ver,

falar em termos de divisão sexual do trabalho deveria permitir ir bem além da

simples constatação de desigualdades. E aqui se chega à segunda acepção, segundo a qual falar em termos de divisão sexual do trabalho é: 1. mostrar que

essas desigualdades são sistemáticas e 2. articular essa descrição do real como

uma reflexão sobre os processos mediante os quais a sociedade utiliza essa

diferenciação para hierarquizar as atividades, e portanto os sexos, em suma,

para criar um sistema de gênero.

O projeto coletivo que serviu de base na França às primeiras aparições

do termo “divisão sexual do trabalho” tinha uma ambição maior que denunciar desigualdades: sob o impulso do movimento feminista, tratava-se nem mais

nem menos de repensar o “trabalho”. O ponto de ancoragem dessa ambição

era a idéia de que o trabalho doméstico era um “trabalho” e que, portanto, a

definição deste deveria obrigatoriamente incluir aquele. Não dava para imaginar para onde isso nos levaria... A questão não era simplesmente somar trabalho profissional e trabalho doméstico. Para ser mais precisas: ao fazer essa

soma, logo nos demos conta de que as costuras do paletó “trabalho”, feito sob

medida por e para as crenças economicistas, cediam facilmente nas cavas. Assim, pouco a pouco, caminhamos para uma definição não mais centrada na

valorização do capital, e sim naquilo que alguns chamaram de “produção do

viver” (Hirata, Zarifian, 2000). Vamos medir o caminho percorrido…

A idéia de iniciarmos este artigo distinguindo as duas maneiras de pensar e de estudar a divisão sexual do trabalho deve-se a duas razões. A primeira é que, desde o nascimento do conceito há cerca de trinta anos, se observa

uma tensão entre, de um lado, análises que pensam mais em termos de constatação de desigualdades entre homens e mulheres, e de acúmulo, de soma

dessas desigualdades (cf. a noção atual de conciliação de tarefas), e, de outroCadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, set./dez. 2007 597

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lado, análises que procuram remontar à nascente dessas desigualdades e, portanto, compreender a natureza do sistema que dá origem a elas. Subentendese que é nesse quadro de reflexão que nos inscrevemos.

A segunda razão é que, sempre que se tenta fazer um balanço da divisão sexual do trabalho em nossas sociedades, se chega à mesma constatação

em forma de paradoxo: nessa matéria, tudo muda, mas nada muda. Por isso,

nesta exposição, procuraremos desconstruir esse paradoxo.

A GÊNESE DO CONCEITO

Embora a divisão sexual do trabalho tenha sido objeto de trabalhos precursores em diversos países, foi na França, no início dos anos 1970, sob o

impulso do movimento feminista, que surgiu uma onda de trabalhos que rapidamente assentariam as bases teóricas desse conceito. Primeiro na Etnologia

(Mathieu, 1991; Tabet, 1998), depois na Sociologia e na História.

Foi com a tomada de consciência de uma “opressão” específica que teve

início o movimento das mulheres: torna-se então coletivamente “evidente” que

uma enorme massa de trabalho é efetuada gratuitamente pelas mulheres, que

esse trabalho é invisível, que é realizado não para elas mesmas, mas para outros, e sempre em nome da natureza, do amor e do dever materno. A denúncia

(pensemos no nome de um dos primeiros jornais feministas franceses: Le

Torchon Brûle*) se desdobrará em uma dupla dimensão: “estamos cheias” (era

a expressão consagrada) de fazer o que deveria ser chamado de “trabalho”, de

deixar que tudo se passe como se sua atribuição às mulheres, e apenas a elas,

fosse natural, e que o trabalho doméstico não seja visto, nem reconhecido.

Em pouquíssimo tempo, surgiram as primeiras análises dessa forma de

trabalho nas ciências sociais. Foi o caso, para citar apenas dois corpus teóricos,

do “modo de produção doméstico” (Delphy, 1998) e do “trabalho doméstico” (Chabaud-Rychter, Fougeyrollas-Schwebel, Southonnax, 1985). Pouco a

pouco, as análises passaram a abordar o trabalho doméstico como atividade

de trabalho tanto quanto o trabalho profissional. Isso permitiu considerar “si-

* Expressão da língua francesa que poderia ser traduzida como “fechou o tempo”, ou “a coisa

está feia” (N. da T.).598 Cadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, set./dez. 2007

Helena Hirata e Danièle Kergoat

multaneamente” as atividades desenvolvidas na esfera doméstica e na esfera

profissional, o que abriu caminho para se pensar em termos de “divisão sexual

do trabalho”.

Assim, inicialmente, a divisão sexual do trabalho tinha o estatuto de articulação de duas esferas. Porém, essa noção de articulação logo se mostra insuficiente, o que nos levou a um segundo nível de análise: a conceitualização

dessa relação social recorrente entre o grupo dos homens e o das mulheres.

Essa foi a origem do que nós, francesas, chamamos de “relações sociais de

sexo”. Não desenvolveremos essa noção, pois esse não é nosso objetivo aqui,

embora, na França, ela seja indissociável da teorização em termos de divisão

sexual do trabalho.

Essa nova maneira de pensar o trabalho teve muitas conseqüências. Por

uma espécie de efeito boomerang, depois que “a família”, na forma de entidade natural, biológica, se esfacelou para ressurgir prioritariamente como lugar

de exercício de um trabalho, foi a vez de implodir a esfera do trabalho assalariado, pensado até então apenas em torno do trabalho produtivo e da figura

do trabalhador masculino, qualificado, branco.

Esse duplo movimento impulsionou na França e em vários países uma

floração de trabalhos que utilizaram a abordagem da divisão sexual do trabalho para repensar o trabalho e suas categorias, suas formas históricas e geográficas, a inter-relação de múltiplas divisões do trabalho socialmente produzido. Essas reflexões levaram a um questionamento radical da sociologia da família

e do paradigma funcionalista que lhe servia de base. No que se refere à sociologia do trabalho

1

, elas permitiram retomar noções e conceitos como de qualificação, produtividade, mobilidade social e, mais recentemente, de compet ê n c i a , e a b r i r am novos c ampos d e p e s q u i s a : r e l a ç ão d e s e r v i ço e , hoj e ,

trabalhos de cuidado pessoal, mixidade no trabalho, acesso das mulheres às

profissões executivas de nível superior, temporalidades sexuadas, vínculos entre políticas de emprego e políticas para família etc.

Contudo, esse balanço, por mais positivo que seja, não deve ser confundido com um grito de vitória. Pois, simultaneamente a esse trabalho de

construção teórica, entrou em declínio a força subversiva do conceito de divi-

1. Sobre esse longo trabalho de desconstrução e de reconstrução, pode-se reportar ao artigo

de Hirata e Kergoat (2005).Cadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, set./dez. 2007 599

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são sexual do trabalho. Agora o termo é usual no discurso acadêmico das ciências humanas e, particularmente, na Sociologia. De maneira geral, é desprovido de qualquer conotação conceitual, e remete apenas a uma abordagem que

descreve os fatos, constata as desigualdades, mas não organiza esses dados de

forma coerente. O trabalho doméstico, que já foi objeto de numerosos trabalhos, quase não é mais estudado; mais precisamente, ao invés de se utilizar esse

conceito para questionar a sociedade salarial (Fougeyrollas-Schwebel, 1998),

fala-se em termos como “dupla jornada”, “acúmulo” ou “conciliação de tarefas”, como se fosse apenas um apêndice do trabalho assalariado. Voltaremos a

isto na seqüência desta exposição.

UMA DEFINIÇÃO DO CONCEITO

É, portanto, na perspectiva dinâmica inicial que queremos situar nosso

referencial teórico. A divisão sexual do trabalho é a forma de divisão do trabalho social decorrente das relações sociais entre os sexos; mais do que isso, é

um fator prioritário para a sobrevivência da relação social entre os sexos. Essa

forma é modulada histórica e socialmente. Tem como características a designação prioritária dos homens à esfera produtiva e das mulheres à esfera reprodutiva e, simultaneamente, a apropriação pelos homens das funções com maior

valor social adicionado (políticos, religiosos, militares etc.).

Sobre essa definição, todo mundo, ou quase, está de acordo. Contudo,

do nosso ponto de vista, era necessário ir mais longe no plano conceitual. Por

isso, propusemos distinguir claramente os princípios da divisão sexual do trabalho e suas modalidades.

Essa forma particular da divisão social do trabalho tem dois princípios

organizadores: o princípio de separação (existem trabalhos de homens e trabalhos de mulheres) e o princípio hierárquico (um trabalho de homem “vale”

mais que um trabalho de mulher). Esses princípios são válidos para todas as

sociedades conhecidas, no tempo e no espaço. Podem ser aplicados mediante um processo específico de legitimação, a ideologia naturalista. Esta rebaixa

o gênero ao sexo biológico, reduz as práticas sociais a “papéis sociais” sexuados

que remetem ao destino natural da espécie.

Se os dois princípios (de separação e hierárquico) encontram-se em todas

as sociedades conhecidas e são legitimados pela ideologia naturalista, isto não600 Cadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, set./dez. 2007

Helena Hirata e Danièle Kergoat

significa, no entanto, que a divisão sexual do trabalho seja um dado imutável.

Ao contrário, ela tem inclusive uma incrível plasticidade: suas modalidades

2

concretas variam grandemente no tempo e no espaço, como demonstraram

fartamente antropólogos e historiadores(as). O que é estável não são as situa-

ções (que evoluem sempre), e sim a distância entre os grupos de sexo. Portanto, esta análise deve tratar dessa distância, assim como das “condições”, pois,

se é inegável que a condição feminina melhorou, pelo menos na sociedade

francesa, a distância continua insuperável.

Essa distinção entre princípios e modalidades e a insistência sobre a no-

ção de distância é que permitem desconstruir o paradoxo de que falávamos

no início: tudo muda, mas nada muda.

NOVAS CONFIGURAÇÕES DA DIVISÃO SEXUAL DO TRABALHO

Como d i s s emos , a d i v i s ão s e x u a l do t r a b a l ho t em uma i n c r í v e l

plasticidade. É nessa perspectiva que citaremos algumas das configurações que

assume a divisão sexual do trabalho nesta época de fortes turbulências.

1. Trata-se antes de tudo da aparição e do desenvolvimento, com a precarização e a flexibilização do emprego, de “nomadismos sexuados”

(Kergoat, 1998): nomadismo no tempo, para as mulheres (é a explosão do trabalho em tempo parcial, geralmente associado a períodos

de trabalho dispersos no dia e na semana); nomadismo no espaço,

para homens (provisório, canteiros do BTP* e do setor nuclear para

os operários, banalização e aumento dos deslocamentos profissionais na Europa e em todo o mundo para executivos). Constata-se

que a divisão sexual do trabalho amolda as formas do trabalho e do

emprego e, reciprocamente, que a flexibilização pode reforçar as formas mais estereotipadas das relações sociais de sexo.

2. O segundo exemplo é o da priorização do emprego feminino, que

ilustra bem o cruzamento das relações sociais. Desde o início dos

2. Por “modalidades”, entendemos, por exemplo, a concepção do trabalho reprodutivo, o lugar

das mulheres no trabalho mercantil etc.

* Banque du Bâtiment et Travaux Publics [Banco da Construção e Obras Públicas] (N. da T.).Cadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, set./dez. 2007 601

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anos 1980, o número de mulheres contabilizadas pelo Institut National

de la Statistique et des Études Économiques – Insee (pesquisas de

emprego) como “funcionários e profissões executivas de nível superior” mais do que dobrou

3

; cerca de 10% das mulheres ativas são

classificadas atualmente nessa categoria. Simultaneamente à precarização e à pobreza de um número crescente de mulheres (elas representam 46% da população ativa, mas são 52% dos desempregados e

79% dos baixos salários), observa-se, portanto, o aumento dos capitais econômicos, culturais e sociais de uma proporção não desprezí-

vel de mulheres ativas. Assiste-se também ao aparecimento, pela primeira vez na história do capitalismo, de uma camada de mulheres

cujos interesses diretos (não mediados como antes pelos homens:

pai, esposo, amante) opõem-se frontalmente aos interesses daquelas

que foram atingidas pela generalização do tempo parcial, pelos empregos em serviços muito mal remunerados e não reconhecidos socialmente e, de maneira mais geral, pela precariedade.

Mas a análise não pode parar por aqui, e esse será o objeto de nosso

terceiro ponto:

3. As mulheres das sociedades do Norte trabalham cada vez mais e,

com uma freqüência cada vez maior, são funcionárias e investem em

suas carreiras. Como o trabalho doméstico nem sempre é levado em

conta nas sociedades mercantis, e o envolvimento pessoal é cada vez

mais solicitado, quando não exigido pelas novas formas de gestão de

empresas, essas mulheres para realizar seu trabalho profissional precisam externalizar “seu” trabalho doméstico. Para isso, podem recorrer à enorme reserva de mulheres em situação precária, sejam francesas ou imigrantes.

Essa demanda, maciça no âmbito europeu, criou um imenso alento para

as mulheres migrantes que chegam aos países do Norte com a esperança de

conseguir um emprego de serviço (no cuidado de crianças e idosos, no em-

3. Os números desse item foram extraídos do Insee, 2003.602 Cadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, set./dez. 2007

Helena Hirata e Danièle Kergoat

prego doméstico etc.). Essas mulheres, muitas vezes diplomadas, entram em

concorrência direta com as dos países de origem, que têm situação precária e

pouco estudo.

Duas relações sociais entre mulheres, inéditas historicamente, estabelecem-se dessa maneira: uma relação de classe entre as mulheres do Norte,

empregadoras, e essa nova classe servil; uma relação de concorrência entre

mulheres, todas precárias, mas precárias de maneira diferente, dos países do

Norte e dos países do Sul e, logo também, de “cores” diferentes com a chegada a esse mercado de mulheres dos países do Leste.

As relações étnicas começam assim a ser remodeladas através das migrações femininas e da explosão dos serviços a particulares. As relações de

gênero também se apresentam de uma forma inédita: a externalização do trabalho doméstico tem uma função de apaziguamento das tensões nos casais

burgueses dos países do Norte (e em inúmeros países urbanos do Sul, mas,

nesse caso, trata-se de movimentos migratórios internos no país em questão)

e permite igualmente maior flexibilidade das mulheres em relação à demanda

de envolvimento das empresas. Em um plano mais geral, isso permite às sociedades do Norte fazer vista grossa a uma reflexão sobre o trabalho doméstico. Mas essa pacificação das relações sociais nos casais e nas empresas não

ajuda a avançar nem um pouco na luta pela igualdade. Ao contrário, ela tem

sobretudo uma função regressiva a esse respeito, pois funciona no nível do

mascaramento e da negação. Ao mesmo tempo, as relações de classe são exacerbadas numericamente, pela maior quantidade de indivíduos, homens e

mulheres, engajados nesse tipo de relação e, concretamente, pelo contato fí-

sico – por meio do trabalho doméstico – entre mulheres em situação precária

(do ponto de vista econômico e/ou legal) e mulheres abonadas.

Para resumir, pode-se dizer que os pontos fortes dessas novas modalidades da divisão sexual do trabalho são os seguintes:

• a reorganização simultânea do trabalho no campo assalariado e no

campo doméstico. O que remete, no que diz respeito a este último,

à externalização do trabalho doméstico, mas também à nova divisão

do trabalho doméstico (o maior envolvimento de certos pais é acompanhado de um envolvimento quase exclusivo no trabalho parental);

• duplo movimento de mascaramento, de atenuação das tensões nosCadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, set./dez. 2007 603

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casais burgueses, de um lado, e a acentuação das clivagens objetivas

entre mulheres, de outro: ao mesmo tempo em que aumenta o nú-

mero de mulheres em profissões de nível superior, cresce o de mulheres em situação precária (desemprego, flexibilidade, feminização

das correntes migratórias).

Esses movimentos desenvolvem-se em um nível material (a externaliza-

ção), mas, evidentemente, estendem-se às representações ad hoc (os “novos

pais”, o casal visto como lugar de negociação entre dois indivíduos iguais de

direito e de fato).

Contudo, é preciso rever agora a outra modalidade de teorização, a da

divisão sexual do trabalho como “vínculo social”, pois é ela que fundamenta a

tese, que hoje adquiriu o estatuto de política – e de política européia a partir

da cúpula de Luxemburgo em 1997 (cf. Fagnani, Letablier, 2005, p.171) –, da

“conciliação” vida familiar/vida profissional – política fortemente sexuada, visto

que define implicitamente um único ator (ou atriz) dessa “conciliação”: as mulheres, e consagra o statu quo segundo o qual homens e mulheres não são iguais

perante o trabalho profissional. Na própria essência dessa política há um paradoxo: a vontade de chegar à igualdade pela promoção da conciliação (Nouvelles

Questions Féministes, 2004, p.8).

VÍNCULO SOCIAL E RELAÇÕES ENTRE ESFERAS DOMÉSTICA E

PROFISSIONAL: MODELOS EM QUESTÃO

A idéia de uma complementaridade entre os sexos está inserida na tradição funcionalista da complementaridade de papéis. Remete a uma conceitualização em termos de “vínculo social” pelos conteúdos de suas noções (solidariedade orgânica, conciliação, coordenação, parceria, especialização e divisão

de tarefas). A abordagem em termos de “complementaridade” é coerente com

a idéia de uma divisão entre mulheres e homens do trabalho profissional e

doméstico e, dentro do trabalho profissional, a divisão entre tipos e modalidades de empregos que possibilitam a reprodução dos papéis sexuados. Ela aparece de formas diversas.

No “modelo tradicional”: papel na família e papel doméstico assumidos

inteiramente pelas mulheres, e o papel de “provedor” sendo atribuído aos604 Cadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, set./dez. 2007

Helena Hirata e Danièle Kergoat

homens. No “modelo de conciliação”: cabe quase que exclusivamente às mulheres conciliar vida familiar e vida profissional. A definição de Jacqueline Laufer

para esse modelo de conciliação é a seguinte:

.ele visa articular as atividades familiares e domésticas com a vida profissional...

É uma condição necessária da igualdade de oportunidades entre mulheres e

homens, em particular no âmbito profissional […]. Uma eventual recomposi-

ção e uma nova divisão de papéis se realizariam, assim, não mais em detrimento

das mulheres, mas em benefício comum de homens e mulheres. (1995, p.164)

Contudo, entre modelo e realidade das práticas sociais pode haver uma

grande distância, e em geral incumbe apenas às mulheres operar essa conciliação. Essa abordagem deu margem a várias críticas na França. Hoje, certos

pesquisadores propõem substituir “conciliação”, ou mesmo “articulação”, por

“conflito”, “tensão”, “contradição” para evidenciar a natureza fundamentalmente

conflituosa da incumbência simultânea de responsabilidades profissionais e familiares às mulheres.

Aparece ainda no “paradigma da parceria”, que presume a igualdade de

estatutos sociais entre os sexos – preconizada na 4ª Conferência Mundial sobre as Mulheres, organizada pela Organização das Nações Unidas em Pequim

em 1995. Esse princípio de parceria considera mulheres e homens como parceiros (e portanto decorre mais de uma lógica de conciliação de papéis que do

conflito e da contradição) e as relações entre eles mais em termos de igualdade que de poder. Esse paradigma da parceria poderia alimentar uma prática de

divisão das tarefas domésticas no casal – no plano individual –, porém as pesquisas de emprego do tempo realizadas pelo Insee na França, em 1986 e 1999

(por exemplo, Brousse, 1999), mostram que a realidade das práticas sociais não

confirma a atualidade desse modelo.

Figura finalmente no “modelo da delegação”. Queremos desenvolver aqui

a hipótese da emergência desse quarto modelo, que substitui ou se sobrepõe

ao “modelo da conciliação” vida familiar/vida profissional na França.

A emergência desse modelo se deve à polarização do emprego das

mulheres (Hakim, 1996) e ao crescimento da categoria de profissões de nível

superior e de executivas; elas têm ao mesmo tempo a necessidade e os meios

de delegar a outras mulheres as tarefas domésticas e familiares. O modelo daCadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, set./dez. 2007 605

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delegação, de resto, tornou-se possível graças ao aumento acelerado dos

empregos em serviços, como já mostramos.

É essa expansão dos empregos em serviços nos países capitalistas ocidentais, tanto desenvolvidos como semi-industrializados e em vias de desenvolvimento, como o Brasil (Sorj, 2004), que oferecem novas “soluções” para

o antagonismo entre responsabilidades familiares e profissionais.

EXPERIÊNCIA DA “CONCILIAÇÃO” OU DA “DELEGAÇÃO” DAS

EMPREGADAS EM SERVIÇOS

Na perspectiva das faxineiras, empregadas domésticas, babás e cuidadoras, o que representariam os termos conciliação e delegação

4

? Elas também realizam uma delegação do trabalho doméstico e familiar a outras mulheres, mas

com conseqüências muito diferentes sobre a vivência dessas mulheres e de seus

filhos, como mostram as pesquisas sobre a migração internacional de empregadas domésticas (Parreñas, 2001; Ehrenreich, Hochschild, 2003). De fato, a

internacionalização do trabalho reprodutivo como uma das conseqüências da

externalização crescente do trabalho doméstico nos países capitalistas desenvolvidos engendra uma relação Norte-Sul em que a servidão doméstica provoca para a migrante uma ruptura da relação mãe-filho: “diferentemente do que

ocorre com os empregadores do Primeiro Mundo próspero, ela não pode viver com sua família e, ao mesmo tempo, incumbir-se dela economicamente

5

.

Essas migrantes do Sul, para fazer “o trabalho das mulheres” do Norte, deixam seus próprios filhos aos cuidados das avós, irmãs, cunhadas, e às vezes só

voltam para casa depois de longos períodos, o que acarreta “o traumatismo

inevitável dos filhos que deixaram em seu país”. Aprofundar a análise da situa-

ção das mulheres que tornam possível a “conciliação”, e mesmo a “delegação”,

é essencial para avançar no sentido de uma eventual plataforma – “agenda” na

expressão de Ehrenreich e Hochschild – comum entre essas mulheres e as

mulheres do Norte que delas dependem.

4. Para a vivência da “conciliação” desta última categoria, ver Lapeyre e Le Feuvre, 2004.

5. Ehrenreich, Hochschild, 2003, p.2.606 Cadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, set./dez. 2007

Helena Hirata e Danièle Kergoat

POLÍTICAS FAMILIARES E “CONCILIAÇÃO”

A política familiar francesa atual pode ser definida como uma “política de

conciliação”, “destinada a facilitar a articulação entre trabalho e vida familiar”

(Fagnani, Letablier, 2005, p.167). Como dizem estas últimas, ela continua a

excluir os homens dessa problemática, prosseguindo em uma via “maternalista”.

As políticas familiares, como a Allocation Parentale d’Education [Subsí-

dio Parental de Educação] – APE –, são políticas de emprego: a interdependência (Devreux, 2000, p.70) dessas duas políticas já foi destacada a partir do

estudo de políticas sociais para o caso da França (Devreux, 2000; Fagnani,

Letablier, 2005). A análise das políticas européias que pregam medidas que

permitam a conciliação vida profissional/vida familiar para permitir o acesso das

mulheres ao emprego (Fagnani, Letablier, 2005, p.171) mostra claramente essa

interdependência no âmbito europeu.

A a doç ão d e pol í t i c a s como a APE , n a Fr a n ç a , em um d e t e rmi n a do

momento da conjuntura econômica e social, até pode seduzir as mulheres em

situações difíceis quanto ao emprego ou à família. Os movimentos sociais em

torno do direito ao emprego – e ao pleno emprego – das mulheres, quando

existem na França, não são tão fortes como seria de se esperar, e não conseguem fazer frente às medidas de políticas familiares e de emprego adotadas na

óptica da “conciliação”.

LIMITES SOCIETAIS DA “CONCILIAÇÃO” E DA DELEGAÇÃO

O caso do Japão mostra como os limites da “conciliação” variam de um

espaço societal a outro. As mulheres japonesas conjugam o termo “concilia-

ção”, que elas utilizam nas entrevistas (ryoritsu), sob formas e em sentidos muito

diferentes, uma vez que atuam em contextos societais, familiares e de casal

bastante diferentes daqueles dos países europeus. No caso do Japão, é preciso escolher – o que é muito difícil – entre a maternidade e a carreira, porque

“é impossível conciliá-las” (ryoritsu dekinakata).

De fato, uma pesquisa de campo realizada no Japão, em outubro 2003,

revelou que, às vezes, existem obstáculos enormes à introdução do modelo

da delegação e mesmo do modelo de conciliação vida familiar/vida profissional (em tempo integral) no país (para os primeiros resultados dessa pesquisa,

ver Kase, Sugita, 2006). A interrupção da atividade no primeiro filho é a regra,Cadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, set./dez. 2007 607

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o que contrasta com a situação francesa. O que mudou nos últimos anos no

Japão é que essa interrupção é menos duradoura, e as mães retornam ao

mercado de trabalho em busca de um emprego em tempo parcial mesmo com

os filhos ainda muito pequenos (menos de um ano).

Entre os principais obstáculos estão a falta de equipamentos coletivos, a

falta de políticas públicas que estimulem o trabalho das mulheres em tempo

integral, a existência, ao contrário, de políticas que estimulam a inatividade das

esposas e sua volta ao trabalho em tempo parcial; e, talvez mais importante

ainda, as relações sociais (na família, no casal, na sociedade) e as normas sociais que continuam a negar qualquer legitimidade ao estatuto de trabalhadoras em tempo integral e a possibilidade de carreira às mulheres que têm o estatuto de mães (Hirata, 1996).

Pode-se dizer que o Japão é um caso paradigmático dos limites à conciliação de papéis do ponto de vista das normas, mas também das práticas sociais. A falta de alternativas, tanto do ponto de vista das políticas públicas quanto

do ponto de vista dos movimentos sociais, é, sem dúvida, um dos principais

fatores explicativos dessa especificidade nacional.

CONCLUSÃO

Um pensamento crítico da “conciliação” não pode se desenvolver fora

do contexto de reflexão sobre as modalidades de reprodução da servidão

doméstica.

A socialização familiar, a educação escolar, a formação na empresa, esse

conjunto de modalidades diferenciadas de socialização se combinam para a reprodução sempre renovada das relações sociais. As razões dessa permanência

da atribuição do trabalho doméstico às mulheres, mesmo no contexto da reconfiguração das relações sociais de sexo a que se assiste hoje, continua sendo

um dos problemas mais importantes na análise das relações sociais de sexo/

gênero. E o que é mais espantoso é a maneira como as mulheres, mesmo plenamente conscientes da opressão, da desigualdade da divisão do trabalho doméstico, continuam a se incumbir do essencial desse trabalho doméstico, inclusive entre as militantes feministas, sindicalistas, políticas, plenamente conscientes

dessa desigualdade. Mesmo que exista delegação, um de seus limites está na

própria estrutura do trabalho doméstico e familiar: a gestão do conjunto do trabalho delegado é sempre da competência daquelas que delegam. É preciso608 Cadernos de Pesquisa, v. 37, n. 132, set./dez. 2007

Helena Hirata e Danièle Kergoat

refletir não apenas sobre o porquê dessa permanência, mas, principalmente,

sobre como mudar essa situação. A nosso ver, é preciso questionar, sobretudo, os âmbitos psicológicos da dominação e a dimensão da afetividade. Essa

pesquisa está por ser feita, e é singularmente complicada pela complexidade de

seu objeto, que requer um trabalho interdisciplinar de muito fôlego.

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Recebido em: maio 2007

Aprovado para publicação em: maio 2007