Trabalho Completo Qual A Diferença Entre O Pensamento De Wilhelm Wundt E William James Para A Psicologia

Qual A Diferença Entre O Pensamento De Wilhelm Wundt E William James Para A Psicologia

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Categoria: Psicologia

Enviado por: ELDER 05 setembro 2013

Palavras: 5692 | Páginas: 23

Qual a diferença entre o pensamento de Wilhelm Wundt e William James para a PsicologiaUma visão panorâmica da psicologia científica de Wilhelm Wundt

Embora seja geralmente louvado nos manuais de história da psicologia como fundador da psicologia científica, grande parte da obra de Wilhelm Wundt permanece desconhecida por parte dos psicólogos contemporâneos, sobretudo no que diz respeito à relação entre filosofia e seu pensamento psicológico. O presente artigo pretende apresentar uma visão geral dos pressupostos filosóficos envolvidos na fundamentação do projeto wundtiano de uma psicologia científica. Após uma breve contextualização geral de sua obra e a exposição de alguns problemas de interpretação na literatura contemporânea, são enfatizadas as concepções de objeto e método da psicologia. Além disso, são apresentados dois princípios fundamentais de seu projeto psicológico, a saber, o princípio do paralelismo psicofísico e o princípio da síntese criadora. Ao final, alguns mal-entendidos são desfeitos, sugerindo a atualidade do pensamento de Wundt para os debates contemporâneos na psicologia.

Palavras-chave: Filosofia da psicologia. Wundt. Conceito de experiência. Paralelismo psicofísico. História da psicologia.

Introdução

As dificuldades que o leitor moderno encontra para se familiarizar com o pensamento psicológico de Wilhelm Wundt (1832-1920) podem ser classificadas em dois tipos. Em primeiro lugar, podemos facilmente reconhecer os obstáculos externos que impedem tal aproximação: a extensão de sua obra, a falta de uma edição crítica de referência, a ausência de novas edições, traduções parciais e nem sempre confiáveis, além de outros menores. Entretanto, com uma dose de interesse e persistência por parte do leitor, é possível superá-los em um espaço relativamente curto de tempo. Há, contudo, um outro tipo de obstáculo, que aponta para uma dificuldade inerente à própria obra e parece exigir algo mais do que a paciência do leitor para sua superação. Em outras palavras, trata-se da dimensão propriamente intelectual da mesma. Wundt é um típico professor alemão do século XIX, cuja vasta erudição é uma de suas características essenciais. Assim, não só escreve de forma bastante rebuscada - com longos períodos intercalados por várias orações subordinadas - como constrói seu pensamento a partir de conceitos e expressões da própria tradição filosófica alemã que lhe precedeu (Leibniz, Wolff, Kant, Hegel, Herbart, Schopenhauer etc.), que estão bem distantes do vocabulário psicológico da tradição norte-americana predominante no cenário contemporâneo.

Se levarmos em consideração todos esses fatores, não causa nenhuma surpresa o fato de não termos até hoje um claro entendimento da obra de Wundt, especialmente de sua psicologia como um todo. Embora seu nome seja bastante citado nos manuais introdutórios de psicologia, o alcance e a importância de seu projeto permanecem ainda desconhecidos por grande parte dos psicólogos atuais. E mesmo na literatura especializada, há uma carência de estudos mais detalhados, que possam corrigir os inúmeros equívocos surgidos ao longo do século XX na historiografia da psicologia. Em várias ocasiões, Wundt tem recebido um tratamento caricatural - sendo retratado, por exemplo, como representante do associacionismo britânico, fundador do estruturalismo (ao lado de Titchener) e também defensor da introspecção tradicional - que demonstra a ausência de um contato mais cuidadoso com seus textos originais por parte dos autores em questão (cf. Boring, 1950; Marx e Hillix, 1995).

As correções que merecem ser feitas nas interpretações tradicionais acerca do pensamento de Wundt e de seu lugar na história da psicologia são muitas. Em um trabalho anterior (Araujo, 2007a), discutimos brevemente os três aspectos que nos parecem mais urgentes: sua biografia, seu projeto de uma Völkerpsychologie e seu sistema filosófico. Neste trabalho, contudo, vamos nos ater apenas ao último, especialmente no que diz respeito à íntima relação entre a filosofia e a psicologia wundtiana.

Embora os contemporâneos de Wundt tivessem dedicado vários trabalhos ao seu sistema filosófico (cf. Eisler, 1902; Heussner, 1920; König, 1909; Nef, 1923), nenhum deles logrou fazer uma análise suficientemente profunda da sua relação com o desenvolvimento de seu projeto de psicologia. Da segunda metade do século XX até hoje, só há um único livro dedicado à filosofia de Wundt, que é Arnold (1980). O autor, contudo, devido ao seu comprometimento ideológico, só consegue ver relações com o "idealismo" por toda parte. Por outro lado, os trabalhos que pretendem analisar teoricamente seu projeto psicológico fazem pouca ou nenhuma conexão com o seu sistema de filosofia, limitando-se na maior parte das vezes a certas afirmações de caráter mais genérico (cf. Bringmann e Tweney, 1980; Juttemann, 2006).

O que parece ter fugido à atenção de boa parte dos intérpretes atuais de Wundt, antes de mais nada, é o fato de não ter sido a psicologia, mas sim a filosofia que ocupou o lugar central no seu projeto intelectual. Wundt foi acima de tudo um filósofo, cujo objetivo último era elaborar um sistema metafísico universal - uma visão de mundo - baseado nos resultados empíricos de todas as ciências particulares. Nesse sentido, sua psicologia é parte integrante desse projeto maior e só pode ser adequadamente compreendida dentro dele. Quem não compreender isto, tratando-a isoladamente, jamais compreenderá o verdadeiro significado de seu trabalho psicológico. Nesse sentido, é preciso resgatar a íntima relação que existe entre psicologia e filosofia na obra de Wundt.

A questão fundamental, que permanece sem solução definitiva na interpretação do pensamento psicológico de Wundt, diz respeito à continuidade ou ruptura de seu projeto de uma psicologia científica. Teria Wundt formulado várias psicologias diferentes, introduzindo modificações essenciais em cada uma delas? Ou haveria um sistema unitário e coerente de psicologia, cujas alterações posteriormente introduzidas não modificariam a unidade essencial do projeto como um todo? Isso nos conduz a uma outra questão, que se refere justamente aos interesses e pressupostos filosóficos de Wundt, que estão na base de sua psicologia. Em trabalho anterior (Araujo, 2007b), procuramos mostrar como sua evolução filosófica determinou as mudanças que ele introduziu na sua concepção de psicologia, de forma que a fundamentação de seu projeto psicológico deve ser vista dentro desta perspectiva. Mas há muitos outros aspectos desta relação que merecem ser futuramente investigados, a fim de que façamos maior justiça ao pensamento de Wundt.

O objetivo desse artigo é bem modesto, na medida em que pretende apenas oferecer uma visão panorâmica de alguns pressupostos filosóficos subjacentes à psicologia de Wundt. Não se pretende de modo algum um tratamento exaustivo de todos os aspectos relevantes neste debate. Trata-se aqui apenas de apresentar um quadro geral relacionado a algumas das ideias centrais de sua psicologia. Para isso, deixaremos de lado toda a discussão relativa ao seu projeto psicológico inicial (as obras situadas entre 1858 e 1863) (cf. Araujo, 2003) e também à classificação dos processos psicológicos propriamente ditos (Araujo, 2007c) para nos dedicar apenas à sua fase já madura, entendida aqui a partir do final da década de 1880.

1 A definição da psicologia

A definição de psicologia apresentada por Wundt pode ser assim resumida: a psicologia é uma ciência empírica cujo objeto de estudo é a experiência interna ou imediata (cf. Wundt, 1896a, 1896b). No entanto, nessa definição, aparentemente simples, há uma expressão que precisa ser esclarecida, a saber, 'experiência imediata', que fundamenta toda a psicologia wundtiana. O que Wundt entende por este conceito?

É necessário, em primeiro lugar, entender o significado do termo "experiência" em Wundt. Para ele, a experiência em geral é um todo unitário e coerente, que pode ser concebido e elaborado cientificamente a partir de dois pontos de vista distintos, porém complementares: toda experiência pode ser analisada pelo seu conteúdo puramente objetivo (experiência mediata) ou subjetivo (experiência imediata). No primeiro caso, abstrai-se o sujeito da experiência e coloca-se toda a ênfase nos seus objetos (mundo externo), enquanto que, no segundo caso, investigam-se os aspectos subjetivos da experiência e sua relação recíproca com todos os conteúdos da mesma (mundo interno). Com base nesses dois pontos de vista, surge uma dupla possibilidade de se fazer ciência empírica: a ciência natural (física, química, fisiologia, etc.), que se ocupa com os conteúdos específicos da experiência mediata (objetos do mundo exterior), e a psicologia, que tem como objeto toda experiência imediata (aspectos subjetivos da experiência). Essas duas ciências trabalhariam de forma complementar, com o intuito de abranger o conteúdo da experiência como um todo (cf. Wundt, 1889).

Mas por que a nossa experiência externa é mediata, enquanto que a interna é imediata? Porque o acesso aos objetos da natureza é sempre mediado pelas características constitutivas do sujeito da experiência (estrutura biológica, cognitiva etc.) e, portanto, indireto. No caso do mundo subjetivo, não há nenhuma mediação, uma vez que cada um de nós tem acesso direto a sua própria experiência subjetiva. É a partir dessa assimetria, pois, que Wundt justifica a diferença epistemológica entre a psicologia e as ciências da natureza:

O objetivo da ciência natural consiste, no sentido mais geral, no conhecimento da realidade objetiva, isto é, dos objetos, cuja existência real deve ser pressuposta após a abstração das características que lhe foram atribuídas exclusivamente pela atividade subjetiva de representação. Em consequência disso, a ciência natural nunca pressupõe os objetos como eles são imediatamente dados, como reais. Ao contrário, seu modo de conhecer é mediato e conceitual, na medida em que o objeto que resta, após a abstração de certos elementos da experiência imediata, só pode ser pensado conceitualmente (Wundt, 1896a, p. 24 - itálicos no original).

A psicologia desfaz novamente esta abstração realizada pela ciência natural para poder investigar a experiência em sua realidade imediata. Ela fornece, portanto, informações sobre as interações dos fatores subjetivos e objetivos da experiência imediata e sobre o surgimento dos conteúdos particulares desta última, assim como de sua relação. A forma de conhecimento da psicologia é, pois, em contraposição à da ciência natural, imediata e intuitiva, na medida em que a própria realidade concreta, sem a utilização de conceitos auxiliares abstratos, é o substrato de suas explicações (p. 12 - itálicos no original).

Ao definir a psicologia como ciência da experiência imediata, Wundt pretendia atacar uma concepção de psicologia, muito comum em sua época, que tratava a mente como se fosse uma substância ou entidade, seja espiritual (espiritualismo) ou material (materialismo). Para ele, essa forma de fazer psicologia estaria equivocada porque se baseia em hipóteses metafísicas que extrapolam toda a possibilidade de experiência. Como sua intenção era fundar uma nova psicologia - autônoma e independente de teorias metafísicas -, a única alternativa era recusar por completo essas concepções metafísicas acerca do objeto da psicologia e propor uma outra, que se atenha à experiência psicológica propriamente dita. Na psicologia wundtiana, só há aquilo que é dado na experiência, entendida sempre como um conjunto de processos interligados (Wundt, 1911a [1904]).

É importante enfatizar que, também de acordo com a definição apresentada por Wundt, não há uma diferença essencial de natureza entre o mundo interno e o externo - uma vez que a experiência é um todo organizado que abrange ambos -, mas apenas uma diferença na maneira de abordá-los. Por isso, a relação entre a psicologia e as ciências da natureza deve ser de complementaridade. Elas se complementam, na medida em que fornecem relatos diferentes da mesma experiência, sem que haja a possibilidade de haver uma subordinação ou redução de uma à outra.

Um outro ponto importante a se considerar aqui é a relação entre psicologia e filosofia. De todas as ciências empíricas, Wundt considera que a psicologia é aquela cujos resultados mais contribuem para a investigação dos problemas gerais da teoria do conhecimento e da ética, os dois principais domínios filosóficos para ele. Se a psicologia, portanto, é complementar às ciências naturais, podemos dizer que é preparatória para a filosofia. Em outras palavras, os resultados das investigações psicológicas podem servir de guia para a construção de um sistema filosófico (cf. Wundt, 1889).

2 Os métodos de investigação psicológica

Para entendermos sua proposta metodológica para as investigações psicológicas, é preciso partir daquela distinção que Wundt estabeleceu entre ciência natural e psicologia. Como afirmamos anteriormente, essa diferença não está na natureza do que é estudado, mas sim no ponto de vista a partir do qual ele é considerado. Por isso, os métodos de investigação em psicologia também não podem diferir daqueles empregados nas ciências naturais, a saber, o experimento e a observação. O primeiro consiste na interferência proposital (manipulação) do pesquisador sobre o início, a duração e o modo de apresentação dos fenômenos investigados (como na física, na química e na fisiologia). A observação, propriamente dita, refere-se à mera apreensão de fenômenos ou objetos, sem que haja qualquer interferência por parte do observador (como na botânica, na anatomia e na astronomia).

Ao transportar essa dualidade metodológica para a psicologia, Wundt vai introduzir uma espécie de divisão de tarefas, de acordo com as possibilidades de aplicação de cada um dos métodos. Surge, então, a distinção entre a psicologia individual, fisiológica ou experimental, de um lado, e a psicologia dos povos (Völkerpsychologie), de outro. No primeiro caso - cujos resultados podem ser vistos já na primeira edição dos Elementos de psicologia fisiológica (Wundt, 1874), até hoje seu livro mais conhecido -, o experimento deve ser utilizado diretamente nos estudos sobre a sensação, a percepção e a representação, uma vez que se pode investigar cuidadosamente tanto o início quanto o curso desses processos, tendo sempre em vista a análise do complexo em termos de seus elementos constituintes. No segundo, a única alternativa possível é a observação, pois se tratam de fenômenos culturais e coletivos (linguagem, mito, religião etc.), que escapam ao controle experimental (cf. Wundt, 1900).

Neste ponto, é necessário apresentar um breve esclarecimento sobre o estatuto da observação na psicologia wundtiana. Em decorrência daquela distinção entre experiência imediata e mediata, Wundt vai ser obrigado a postular uma outra diferença entre ambas, que vai acabar influenciando as características do método observacional. Segundo ele, enquanto a experiência mediata ou externa nos revela objetos estáveis (pedra, árvore etc.), isso de modo algum acontece em nossa experiência imediata, cujo conteúdo é apenas um conjunto de processos (percepção, atenção, representação etc.), muitas vezes extremamente complexos. Além disso, é muito difícil que, mesmo em situações frequentemente repetidas, os mesmos elementos objetivos da experiência imediata venham acompanhados da mesma condição do sujeito. Por outro lado, a psicologia não pode desconsiderar, ou colocar entre parênteses, como fazem as ciências naturais, esses processos subjetivos da experiência, uma vez que este é precisamente o assunto de seu interesse. Considerando, pois, essa peculiaridade dos eventos mentais, a psicologia estaria diante de um impasse, na medida em que a observação pura de nossa própria experiência subjetiva (introspecção ou auto-observação pura) é ilusória:

Uma auto-observação planejada, como é recomendada pela maioria dos psicólogos, é apenas uma fonte de autoilusões. Pois, como neste caso o sujeito que observa coincide com o objeto observado, é óbvio que o direcionamento da atenção para os fenômenos modifica os mesmos. Além disso, uma vez que em nossa consciência o espaço para muitas atividades simultâneas diminui com o aumento na intensidade das mesmas, tal modificação consiste quase sempre na supressão geral dos fenômenos que se querem observar (Wundt, 1883, 2, p. 482).

No intuito de resolver esse problema crucial da psicologia, Wundt estabeleceu uma diferença entre a introspecção tradicional ou auto-observação (Selbsbeobachtung), de um lado, e a percepção interna (innere Wahrnehmung), de outro (cf. Wundt, 1888a). Somente essa última poderia ser utilizada como recurso metodológico, devido ao fato de poder ser reforçada pelo controle experimental das condições externas da experiência, o que, segundo Wundt, eliminaria os riscos da introspecção tradicional e livraria a psicologia das duras críticas feitas por diversos autores ao introspeccionismo. De acordo com ele:

No que ele [o psicólogo], porém, repete experimental e arbitrariamente um processo percebido inicialmente apenas por acaso e o modifica sistematicamente, no sentido de substituir as condições de seu aparecimento, a percepção inicialmente casual transforma-se em uma observação, na qual as deficiências da percepção interna são superadas ou pelo menos colocadas dentro dos limites mais estreitos possíveis (Wundt, 1921, 3, p. 166).

E este é exatamente o ponto em que o método experimental na psicologia prova ser o único meio seguro de observação psicológica. O cientista natural pode retornar à vontade ao seu objeto. O psicólogo, contudo, só pode retornar a um processo interno observado sob certas condições, se ele reproduzir artificialmente as mesmas condições, ou seja, com a ajuda do método experimental (p. 167).

Esse aspecto da teoria wundtiana permanece em grande parte ignorado por seus intérpretes, que insistem em incluir Wundt entre os defensores da introspecção clássica (cf. Araujo, 2007b).

Há, porém, um segundo aspecto a ser considerado nessa questão do método observacional. A crítica de Wundt à introspecção não significa que a observação pura esteja definitivamente descartada da psicologia. Segundo ele, existem fatos psíquicos que, embora não sejam objetos reais do mundo externo, possuem o caráter de objetos psíquicos, na medida em que sua natureza é relativamente estável e independente do observador. Além disso, eles têm uma outra característica em comum, que os torna adequados à observação: a inacessibilidade pelo método experimental. Mas que objetos psíquicos são esses? São aquilo que Wundt chama de produtos mentais surgidos ao longo da história, como a linguagem, a religião, os mitos e os costumes, que dependem de certas condições psíquicas gerais, que podemos inferir com base em suas características objetivas. É aqui que se manifestam os processos mentais superiores, também inacessíveis à experimentação.

Uma característica fundamental desses produtos mentais é que eles pressupõem a existência de uma comunidade de muitos indivíduos que compartilham certa mentalidade, embora sua fonte última sejam sempre as características psíquicas de cada um dos indivíduos. É por estarem ligados a uma comunidade, a um grupo étnico ou a uma totalidade cultural que Wundt chamou esse domínio de investigação psicológica de psicologia dos povos (Völkerpsychologie), que complementa a psicologia individual ou experimental na busca de uma compreensão das leis gerais da vida psíquica (Wundt, 1888b). Nos últimos 20 anos de sua vida (1900-1920), Wundt dedicou-se principalmente a esse empreendimento - baseando-se sempre em estudos e relatos linguísticos, históricos e etnológicos - que teve como resultado dez extensos volumes, além de ensaios isolados.

Em suma, a psicologia dispõe, assim como a ciência natural, de dois métodos de investigação, que dão origem a duas formas complementares de estudo psicológico: o experimento, que a psicologia individual ou fisiológica utiliza na análise dos processos psíquicos inferiores (sensação, percepção, representação); e a observação dos produtos mentais, através da qual a Völkerpsychologie investiga os processos psíquicos superiores. É importante termos sempre em mente que essa subdivisão da psicologia decorre parcialmente de uma necessidade metodológica, que em princípio não compromete a unidade do seu objeto de estudo, a saber, os processos psíquicos revelados na experiência. Além disso, o objetivo final de ambos os tipos de investigação é um só: a descoberta das leis gerais da vida mental.

3 Princípios fundamentais da psicologia wundtiana

Uma outra parte essencial do sistema teórico de Wundt são os chamados princípios ou postulados gerais, que servem de fundamento para todas as investigações psicológicas e garantem, pois, a própria autonomia da psicologia. Ao longo de sua obra, Wundt considera vários desses princípios. Contudo, como esses são muitas vezes apenas desdobramentos de princípios anteriores, vamos considerar aqui apenas os dois postulados principais, que fundamentam a autonomia da psicologia: o princípio do paralelismo psicofísico e o princípio da causalidade psíquica.

O paralelismo psicofísico é uma doutrina acerca do problema mente-corpo, que tem suas raízes principalmente na hipótese da harmonia pré-estabelecida de G. W. Leibniz (1646-1716). Embora contenha variantes, caracteriza-se principalmente pela afirmação de que o físico e o psíquico são processos paralelos, que não interagem entre si e que não podem ser reduzidos um ao outro. É uma doutrina bastante influente na filosofia e na psicologia do século XIX, consistindo na tentativa de superar tanto o dualismo de substâncias quanto o monismo materialista.

Em certo sentido, Wundt se mantém fiel à tradição filosófica e utiliza o paralelismo psicofísico para sustentar a irredutibilidade do mental ao físico. Como a experiência, segundo ele, pode ser conhecida a partir de duas perspectivas distintas (objetiva e subjetiva), é possível que certas partes da experiência mediata possam ter uma correspondência direta com partes da experiência imediata. No entanto, essa correspondência ou correlação entre o mental e o físico impede que um possa ser reduzido ao outro, dadas as limitações de cada um dos pontos de vista (cf. Wundt, 1894). Por outro lado, a particularidade do paralelismo de Wundt está no fato de ele não ser utilizado como um princípio metafísico, mas sim como expressão de um fato empírico, a saber, a irredutibilidade de nossa própria experiência subjetiva na vida cotidiana:

Do ponto de vista do tratamento empírico da vida mental, o princípio do paralelismo psicofísico contém apenas o pressuposto de que todo evento mental tem um processo físico correspondente, enquanto que o inverso disso não é de modo algum exigido, uma vez que inúmeros processos fisiológicos não têm relação alguma não só com os próprios fenômenos da consciência, mas também com seus processos auxiliares, que ocorrem no sistema nervoso central (Wundt, 1889, p. 584-5).

Partindo da possibilidade de uma correspondência entre os processos mentais e físicos, Wundt observa que existem vários conteúdos da nossa experiência que só podem ser conhecidos a partir de um único ponto de vista, seja ele físico (por exemplo, no caso dos estados e processos cerebrais) ou psicológico (por exemplo, no caso dos aspectos qualitativos da experiência religiosa). Nesse caso, seríamos obrigados a reconhecer a autonomia do conhecimento psicológico e estaríamos justificados a supor uma causalidade própria para o domínio dos processos mentais, da mesma forma que supomos a causalidade física na natureza. Os dois tipos de causalidade, segundo Wundt, são complementares e nunca poderiam entrar em contradição entre si (cf. Wundt, 1911b [1910]).

Um desdobramento importante da causalidade psíquica é o princípio da síntese criadora, uma das ideias centrais na psicologia wundtiana e que a diferencia de outras teorias psicológicas da época. Para Wundt, embora os complexos psíquicos sejam compostos por elementos simples, eles possuem características próprias, que não pertencem a nenhum de seus elementos em particular. Isso acontece graças ao processo psíquico que Wundt chamou de fusão (Verschmelzung), que é um dos tipos possíveis de ligação dos elementos. É, pois, através da fusão que a causalidade psíquica se manifesta, produzindo as novas propriedades qualitativas de nossa experiência subjetiva. Podemos afirmar, portanto, que a fusão é o processo mental primário - na medida em que funda a complexidade psíquica -, enquanto que a associação é apenas um processo secundário, o que distancia Wundt da tradição do associacionismo britânico (cf. Araujo, 2007b, 2007c).

Vale ressaltar que há uma íntima relação entre o princípio do paralelismo psicofísico e o princípio da causalidade psíquica. Juntos, eles fornecem a fundamentação da autonomia epistemológica da psicologia em relação às demais ciências particulares, garantindo assim a irredutibilidade da primeira em relação seja à neurociência seja à física propriamente dita, o que afastaria Wundt de qualquer tendência materialista contemporânea (cf. Araujo, 2006).

Conclusão

O pensamento wundtiano permanece ausente do horizonte da psicologia contemporânea. Seja como mera curiosidade histórica seja como antepassado a ser cegamente louvado e eternamente relembrado - como em um ritual mecânico e alienante -, o tratamento dado a Wundt no desenvolvimento da psicologia ao longo do século XX, sobretudo na tradição norte-americana, parece ser indicativo de um sintoma mais geral: o progressivo distanciamento dos psicólogos em relação a suas próprias raízes e às condições intelectuais que tornaram possível o projeto de uma ciência psicológica. Isso se deve, em primeiro lugar, tanto à falta de acesso às obras originais e à ausência de traduções quanto ao grande desserviço prestado pelos manuais tradicionais de história da psicologia, que insistem em apresentar uma caricatura do autor, ao invés de situálo adequadamente em relação ao contexto e à trama original de suas ideias. Há, contudo, um segundo aspecto fundamental que talvez tenha exercido uma influência ainda mais decisiva, a saber, a predominância do pragmatismo como perspectiva geral sobre o conhecimento humano, que acabou provocando uma espécie de horror à filosofia e às discussões metafísicas entre muitos psicólogos contemporâneos. É compreensível, pois, que as extensas considerações filosóficas e as profundas elaborações teóricas de Wundt sobre o conhecimento psicológico não despertassem mais o interesse de toda uma nova geração de psicólogos.

É exatamente dentro desta perspectiva que nos parece oportuno considerar a questão da atualidade de Wundt. Se olharmos para a situação atual da psicologia científica, não é difícil perceber sua enorme dispersão teórica e sua frágil fundamentação filosófica. Muitos psicólogos, orgulhosos de sua separação institucional e de sua aparente autonomia intelectual, foram levando cada vez mais a sério a ideia de um desprezo pela filosofia, chegando mesmo a proclamar a total inutilidade das discussões filosóficas. Não por acaso, encontram-se muitas vezes soterrados por uma montanha de dados empíricos isolados, que não são capazes de integrar em um todo coerente. Ou então, o que é ainda mais grave, acabam defendendo posições filosóficas de forma ingênua e desarticulada, não percebendo que as mesmas são a repetição camuflada de ideias muito antigas e já criticadas. Isso para não falar nas aplicações práticas da psicologia, que muitas vezes são oferecidas prematuramente, sem uma validação e uma fundamentação suficientes.

O pensamento de Wundt caminha na contramão de toda essa situação contemporânea. Primeiro, ele considerava um equívoco a separação entre filosofia e psicologia, tendo em vista os efeitos negativos disso. Embora a filosofia também pudesse perder, segundo ele, seria a psicologia a mais prejudicada, pois jamais poderia prescindir de uma fundamentação filosófica sólida de seus princípios e conceitos, exatamente para evitar cair em contradições e posições ingênuas. Segundo, sua defesa do método experimental nunca esteve separada da formulação de teorias psicológicas abrangentes e sistemáticas, que pudessem esclarecer os fenômenos estudados. Além disso, criticava também as aplicações prematuras da psicologia. Como a psicologia, no seu entender, estava ainda em estado de consolidação, ele via com muitas reservas suas aplicações apressadas. Assim, o psicólogo contemporâneo de forma alguma perderia seu tempo ao se aproximar da obra de Wundt. Entre outras coisas, ele poderia despertar sua consciência para a necessidade de uma reflexão sistemática e contínua acerca do conhecimento psicológico produzido, além de ampliar seus horizontes sobre a fundamentação filosófica da psicologia. Em qualquer um dos casos, Wundt deixaria de ser uma mera curiosidade histórica ou um antepassado apenas formalmente reverenciado para se tornar um autor cuja relevância para o presente merece ser ao menos seriamente discutida.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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William James explica o PENSAMENTO

William James foi um dos grandes nomes do Pragmatismo, atitude filosófica que é um dos 3 pilares do Behaviorismo Radical (ao lado do Funcionalismo e do Evolucionismo).

Um dos principais conceitos de James em Psicologia é o de"Fluxo de pensamento", que é como o filósofo norte-americano explica a consciência.

Para explicar esse conceito, quero que você se observe por um instante. Relaxe, de olhos abertos ou fechados e tente 'observar' seus pensamentos. Qualquer coisa que surgir é válida. Fique por alguns minutos nesse estado, se conseguir, antes de continuar a ler, ok?

E aí, fez? Como foi?

Provavelmente você percebeu, do seu modo, os 5 pontos do "Fluxo de Pensamento", conforme James comenta:

1) O pensar é algo próprio de uma consciência pessoal.

Ou seja, é você quem pensa, enquanto pessoa total, e não uma parte de você, seu "ego", ou seu corpo ou parte dele, ou algum outro fragmento do Ser. Quem pensa é sempre uma pessoa, na íntegra.

O agente do pensamento, como pessoa concreta, é alguém no tempo e no espaço, situado historicamente: por isso nossos pensamentos têm a ver com que experimentamos em nossas vidas, e dificilmente poderiamos pensar em "conceitos puros", em abstrações o tempo todo, como se esses pensamentos ocorressem em um vácuo (Não somos um vácuo, pois somosseres historicamente determinados).

Por isso experimentamos a noção de um Eu quando pensamos: porque quem pensa tem uma história, um corpo, uma individualidade que a distingue do ambiente e dos outros.

2) O pensar está sempre mudando.

Isso você deve ter percebido se tentou se concentrar em algo no exercício de introspecção que propus...

O pensar é um comportamento de baixíssimo custo de resposta, por isso é tão flexível, volátil, fácil de mudar e difícil de controlar. Começamos pensando uma coisa e, tal qual um trilha caótica, percorremos uma rede intricada de sons, imagens, cheiros, palavras, etc, que não tinham tanto a ver com aquela coisa original. Isso, claro, a não ser que, por treinamento, consigamos nos concentrar.

Aliás, há diferentes "estados e níveis de pensar", como o normal, o concentrado, o devaneio, etc e estamos indo de um a outro, o tempo todo.

3) O pensar é contínuo.

Ou seja, estar consciente é nosso estado natural, até mesmo quando dormimos. Apenas em ocasiões patológicas e/ou raras, como p.e. uma amnésia, um lapso temporal ou um coma, é que experimentamos descontinuidades do pensar, e elas de fato são algo muito inquietantes, exatamente pelo pensar ser a regra.

O que ocorre é que por o pensar ser um comportamento encoberto apenas quem o emite é capaz de percebê-lo. Por isso uma pessoa, se estiver completamente imóvel, como um estátua, pode muito bem estar se comportado: seu pensar pode estar a mil, criando um poema ou resolvendo uma equação matemática.

4) O pensar sempre lida com algo que não é ele mesmo.

Outros pensadores chamariam isso de intencionalidade, e explicariam que quando estamos consciente, sempre estamos consciente de algo, de alguma coisa que não é a própria consciência. Quando pensamos, portanto, sempre estamos pensando sobre alguma coisa, até porque uma das funções do comportamento de pensar é nos ajudar conhecer o mundo, experimentá-lo, criar modelos, regras, cultura sobre ele.

Se no ponto 3 chegamos a conclusão que não é natural o não-pensar, no ponto 4 é a vez de concluir: é impossível pensar sobre nada.

5) O pensar é indissociável do atentar.

William James diz que estamos o tempo inteiro conscientes, e que a chave para a compreensão disso é nossa atenção, pois para estarmos conscientes de algo é porque alguma atenção demos a esse estímulo, ao passo que o inconsciente seriam contingências que nos determinam, mas não estamos atentos quanto a elas.

Vale lembrar que o comportamento de atentar e o de perceber são praticamente o mesmo, pois em todo ato de percepção há um foco de atenção implícito.

Ou seja, o tempo inteiro estamos vivenciado essa tríade em nossa consciência: