Trabalho Completo Resumo Primeira Parte Do Resumo Do Livro História Da Política Exterior Do Brasil

Resumo Primeira Parte Do Resumo Do Livro História Da Política Exterior Do Brasil

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Categoria: História

Enviado por: Gabriel 06 janeiro 2012

Palavras: 8358 | Páginas: 34

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ões da Santa Aliança não tinham chance de se concretizar: no Mediterrâneo e na América Latina.

O Concerto Europeu, como sistema de hegemonia coletiva, “se guia pelo princípio da composição entre as nações para evitar o confronto armado nas relações intereuropéias e pelo princípio do entendimento para expandir interesses europeus nas relações internacionais”.

b) No período transitório referido, a política externa dos novos Estados poderia servir de instrumento de modificação das condições de vida material dos povos pela via das transformações estruturais. Contudo, as ações dos governos divergiam, tendo os EUA preservado seus interesses socioeconômicos e políticos e o Brasil cedido à mesma forma de pressão externa, criando as condições de dominação que se perpetuaram. Cervo pondera a tese da cooptação do Estado pelos grupos capitalistas externos e pelas classes fundiárias internas argumentando que havia no Brasil, como nos EUA, um incipiente setor de modernização a ser protegido, o que só ocorreu nos EUA. O autor é enfático no papel das decisões de Estado no destino dos povos.

d) A hegemonia inglesa sobre Portugal (com efeitos na corte do RJ) refletiu-se na PEB à época da independência através de um modelo de inserção dependente no sistema internacional.

Pressões externas e metas nacionais

PEB no período pós-independência define-se em função: 1) da herança colonial; 2) do Estado bragantino com seus valores, conexões e desígnios; 3) do sistema internacional resultante da Revolução Industrial; 4) do peso das forças na Santa Aliança; 5) dos vínculos ingleses vindos da metrópole; 6) da transformação do continente americano em área de competição internacional; 7) da experiência internacional acumulada na corte do Rio de Janeiro; e 8) a importância atribuída às questões externas na organização do Estado nacional.

Constituição de 1824: reserva ao Legislativo parcela restrita de responsabilidade nas relações internacionais do Estado, daí o pouco efeito das pressões vindas da Câmara no processo decisório do período inicial.

O período de 1822 a 1828 é o mais significativo dos primeiros anos, passando por quatro fases: a) rompimento com Portugal; b) guerra de independência; c) iniciativa para obtenção do reconhecimento da nacionalidade; d) concessões feitas aos interesses externos.

Segundo o autor, as condições do sistema à época apontam para as seguintes conclusões: i) a independência nunca esteve em perigo desde sua proclamação; ii) a busca brasileira pelo seu reconhecimento formal se explica mais pela temor (infundado) em perdê-la do que pela necessidade política; iii) havia um poder de barganha para o governo brasileiro devido aos interesses econômicos e políticos que se inclinavam para sustentar a independência; iv) o reconhecimento a qualquer preço foi um erro de cálculo político.

A diplomacia brasileira não foi utilizada exclusivamente com a finalidade de obter o reconhecimento externo. Dentre outras incumbências estavam a sustentação externa da monarquia constitucional (que chocava-se com o “sistema americano” e o republicanismo continental), a abertura do mercado europeu aos produtos brasileiros, a obtenção de empréstimos e o suprimento das necessidades de mão-de-obra para a economia agrícola nacional.

O enquadramento brasileiro no sistema internacional do capitalismo industrial sob a condição dependente

Foi a política internacional o instrumento pelo qual Brasil e potências ocidentais forjaram uma integração condicionante, aceitando cada uma das partes sua função própria na divisão internacional do trabalho. Ressalta-se o papel do Estado na consolidação dessas relações de dominação e dependência (papel das decisões políticas).

As três dimensões da independência brasileira:

a) político-jurídica: de janeiro de 1822 ao início de 1823; corte dos vínculos político-jurídicos com Portugal e das antigas relações do sistema colonial;

b) militar: a guerra de independência em virtude da presença de tropas portuguesas no Brasil; demonstração de força prevaleceu sobre o combate; consolidação da soberania; união das províncias; confisco das propriedades portuguesas;

c) diplomática: disposição de ceder favores e benefícios, sobre tudo econômicos, com o objetivo de apressar o reconhecimento da independência; negociação com Portugal (tratado em 1825, indenização, primeiro fracasso da diplomacia brasileira).

A Revolução Industrial e a concorrência internacional foram as determinações causais da política externa britânica; no lado brasileiro, nem os interesses da economia agrícola exportadora foram atendidos. O interesse nacional à época da independência estava particularmente vulnerável ante o projeto inglês de supremacia comercial. A dependência brasileira foi, assim, uma decisão de Estado. Por meio do Tratado de Amizade, Navegação e Comércio de 1827, o Brasil adaptou e renovou as concessões feitas em 1810 aos ingleses. Os tratados tiveram como efeito a antipatia nacional ao imperador dom Pedro, a revolta do Parlamento e a queda de 1831.

O espaço das relações periféricas

Movimentação da PEB à época da independência:

➢ Zonas de pressão: Europa e região do Prata;

➢ Aberturas periféricas: o americanismo, relações com os EUA, possibilidade africana, Paraguai, demais Estados hispano-americanos.

Após as independências, Rio de Janeiro e Buenos Aires vão administrar o conflito regional herdado de Portugal e Espanha. Em 1925 agrava-se a situação, tendo como cerne a questão uruguaia, que só se resolveria em 1828. A independência do Uruguai foi, segundo Cervo, fruto da determinação de seu povo, e não plano inglês de criar um Estado-tampão na região.

O americanismo teve duas versões no Brasil: a de José Bonifácio, até 1823, explicada pela necessidade de defender a independência; e a segunda, que corresponde à reação parlamentar contra o sistema de tratados, a partir de 1828. O americanismo bolivariano e o monroísta tinham em comum a concepção de uma estrutura binária dicotômica: a Europa, retrógrada e arcaica, e a americana, jovem e moderna. O fracasso do americanismo foi geral: ao Congresso do Panamá não atenderam EUA, Brasil e Argentina.

A posição da política externa norte-americana com relação ao Brasil e a América Latina pautava-se pelas seguintes coordenadas: não envolvimento nos conflitos com metrópoles; neutralidade nas guerras de independência; dissuasão das reconquistas européias; reconhecimento das nacionalidades após a independência tornar-se um fato consumado; apoiar o “sistema americano” e buscar facilitar o comércio regional mediante tratados que neutralizassem os privilégios britânicos. Não houve um tipo especial de relacionamento político porém não houve qualquer orientação para o conflito. O reconhecimento da independência brasileira pelos EUA ocorreu em 1824.

O Paraguai, por não ter tido política de reconhecimento, não foi enquadrado no sistema internacional de então. O objetivo inicial da PEB era de obter uma aliança (ou, no mínimo, a neutralidade) paraguaia na questão da Cisplatina. Após a guerra o interesse caiu. Com os demais países do continente, as relações foram precárias, quando não inexistentes.

Um balanço negativo e pedagógico: as interpretações disponíveis

“A política externa brasileira à época da Independência foi o instrumento com que se viabilizou a subordinação nacional ao esquema do desenvolvimento capitalista desigual”. As decisões que levaram a essa situação não foram consentidas pelas elites, representadas no Parlamento. Houve uma profunda divisão no Estado brasileiro devido a percepção, por parte dos parlamentares, de que houvera uma disposição injustificável do governo de mendigar o reconhecimento da nacionalidade, matando o comércio lícito nacional e os germes da indústria brasileira.

Cervo apresenta algumas críticas ao argumento dependentista/ neo-colonialista: as concessões externas não foram ditadas pela defesa dos interesses do grupo hegemônico interno, mas pelo segmento do Estado mais desvinculado da nação. Não houve permeabilidade por parte do gabinete em atender qualquer posição nacionalista.

A PEB em seus primeiros anos permitiu um reconhecimento internacional do Estado paralelamente à perda de legitimidade interna e prova de sua autonomia com relação à sociedade.

Administrando o imobilismo (p 51)

A PEB entre 1828 e 1844 caracterizou-se, por um lado, pela não autonomia e pela administração da dependência; por outro, pela reação lenta no discurso, com parcos resultados práticos, mas com efeitos para a fase de autonomia de política externa que se seguiria.

A política externa na estrutura do Estado

Crises de redefinição institucional do Estado brasileiro: estabelecimento do controle parlamentar sobre a PEB; organização do Ministério dos Negócios Estrangeiros. Em termos de política externa, o período não deve ser analisado por meio do embate entre partidos, mas pelo fortalecimento do Estado nacional, que possibilitou uma percepção mais abrangente do interesse nacional e um reordenamento da PEB.

O jogo das regras

A postura passiva do governo brasileiro no período se justifica pelas ações mal conduzidas à época da independência. Houve retraimento das relações com o exterior, sendo suficiente administrar o imobilismo. É a transição de uma política de submissão e erros de cálculo para uma política de afirmação nacional. O principal esforço foi o de abrir mercados (principalmente europeus) para os produtos brasileiros (ainda que entre 1822 e 1844 a balança comercial tenha sido superavitária em apenas quatro anos). Nota-se o superávit com os EUA.

Enfrentamentos da diplomacia brasileira “com a prepotência das nações mais fortes imperialistas”: a) conflito com a Inglaterra em torno do tráfico de escravos; b) reclamações diversas, prevalecendo as exigências de indenizações pelas presas feitas no bloqueio do Prata entre 1825 e 1828.

Imagens: Grã-Bretanha – deteriorada, prepotente, civilização; EUA – progresso, relações positivas; Portugal – contraditória, negativa política, positiva cultural; Espanha – pior de todas, absolutismo; Igreja – conflitos entre o Parlamento e o Vaticano; Argentina e Rosas – divisão, admiração por resistir à dominação européia. Percepção cada vez mais clara de um interesse nacional a ser defendido pelos desígnios de uma política externa adequada.

A reação no discurso

Estando a PEB bloqueada, é o discurso que flui livremente. A avaliação crítica da política externa nacional permeia todas as instâncias políticas (Câmara, Gabinete, Senado, Conselho de Estado) a partir de 1827. Deste modo houve uma releitura do interesse nacional, o estabelecimento de certo consenso em torno da política externa, o despertar de uma vontade de autoformulação da política externa, o restabelecimento da unidade do Estado (frente à PEB) e a criação das condições para a política de potência. Em 1842, restava em vigor apenas o tratado inglês do sistema original do Primeiro Reinado. O pensamento político veiculado pelo discurso político dessa época constitui, segundo Cervo, uma força profundo da História brasileira.

Economia, população e política externa (p 65)

A ruptura dos anos 1840 e a nova política externa

O novo período da PEB de 1844 a 1876 envolve a redefinição das metas nacionais a partir de novas percepções do interesse nacional, “resultando numa política externa enérgica em seus meios e independente em seus fins”.

Os quatro parâmetros da nova PEB eram:

a) o controle da política comercial, por meio da autonomia alfandegária (o que não foi feito com uniformidade);

b) o equacionamento do fortalecimento da mão-de-obra externa, pela extinção do tráfico de escravos e estímulo à imigração;

c) a sustentação das posses territoriais (política de limites);

d) presença decisiva no subsistema platino de relações internacionais (interesses econômicos, políticos e securitários).

A estratégia de ação escolhida para lidar com a política externa em um ambiente marcado tanto pela resistência à ingerência externa como pelo choque de múltiplos interesses foi o uso intenso, inteligente e adequado da diplomacia.

O Estado brasileiro de então possuía condições quase ideais para a definição e sustentação de diretrizes externas contínuas e coerentes (instituições estáveis, conservadorismo político, conciliação partidária, formulação conjunta da PEB) (tese da nação brasileira como produto de seu Estado). Cervo ressalta a responsabilidade coletiva em sua formulação, que perpassava partidos, instituições e homens de Estado. Em geral, a PEB não foi moldada para servir aos interesses exclusivos de uma oligarquia fundiária, já que atendia a “percepções mais complexas do interesse nacional”.

Nas relações econômicas externas, prevaleceu o liberalismo (radical), tendência predominante no cenário internacional, impulsionada pela política inglesa. Nota-se ainda na conjuntura da época a penetração ocidental na Ásia (China, Indochina e Japão como possibilidades de novos mercados), o expansionismo norte-americano e o expansionismo de Rosas, em um contexto de divergentes visões geopolíticas de Brasil e Argentina.

As relações econômicas com o exterior: as dúvidas da opção

Grandes expectativas no meio político brasileiro ante um novo modelo de política econômica com o exterior no projeto de 1844: autonomia alfandegária, resistência às pressões, reciprocidade, bases da indústria nacional. As origens do projeto estão na tradição antitratados, no ensaio autonomista e no pensamento industrialista; não houve demandas reais da sociedade, o Estado se posicionava à frente da nação, atrelada ainda a estruturas arcaicas pré-industriais. Contudo, a alienação das elites políticas e a situação confortável da época impediram que o projeto avançasse. Foram os excedentes do comércio que permitiram uma lenta (apesar de contínua) modernização. As trocas comerciais eram o primeiro elemento das relações internacionais do país. Não houve vontade política para se engendrar uma grande transformação na sociedade brasileira.

O fornecimento externo de mão-de-obra

Na percepção da sociedade e do governo no século XIX, o fornecimento externo de trabalho condicionava a expansão da economia agrícola de exportação, a interiorização econômica e a modernização.

Relações entre Brasil e Inglaterra a respeito do tráfico de escravos: da independência a 1845 – fase do cooperação difícil; a partir de 1845 – ruptura e conflito. O tráfico continuava em 1845, apesar de ter contra si as leis, as lideranças internacionais e a repressão inglesa, devido aos lucros auferidos pela operação e pelo apoio das lideranças locais e fazendeiros. Neste ano, o governo brasileiro cessou a convenção sobre o tráfico de 1826 (que dava amplos direitos aos ingleses). Os atritos com Londres cresceram com a aprovação da bill de Aberdeen no Parlamento, permitindo a captura de navios negreiros luso-brasileiros. Após atingir um fluxo máximo entre 1846 e 1851, o tráfico foi extinto pelo governo brasileiro em 1850, por razões internas e cálculos de política externa. As relações com a Inglaterra só se reencaminharam após a saída de Palmerston do gabinete em 1865.

No que tange a imigração, a política migratória do império foi permeada de intenções e debates, sem alcançar resultados expressivos. A iniciativa real partiu das províncias, das sociedades de colonização e de companhias particulares. Não houve, no Brasil, facilitação do acesso à terra, como nos EUA. A ação da diplomacia em promover a imigração esbarrava ainda na imagem de sociedade escravocrata, no tipo de atividade que desempenharia o imigrante, nas campanhas de difamação promovidas por companhias de países concorrentes, nas condições de vida de muitos colonos no Brasil, nas proibições esporádicas da emigração para o Brasil em alguns países europeus e na necessidade de instituições mais liberais (liberdade de culto, divórcio, etc.).

As posses territoriais ou a intransigência brasileira (p 87)

A política brasileira de limites

Constatações prévias: a) significância da experiência brasileira (16 mil km de fronteiras); b) situação herdada de facto confortável, de júri delicada; c) expansão fronteiriça no período colonial, cedendo os tratados diante dos fatos; d) ausência de doutrina de limites até meados do século XIX.

Não se desenvolveu no Brasil (nem no resto da América Latina) um mito de fronteira, como nos EUA. O conceito explicativo chave no caso brasileiro é a nacionalidade. A idéia de nação triunfou sobre as revoltas regionais separatistas e consolidou-se no Segundo Reinado. “Construiu-se com base na herança portuguesa, um legado histórico, e foi sustentada pelo Estado monárquico”. Seu mito: a grandeza nacional, reduzindo, assim, o problema da fronteira ao problema dos limites.

A tomada de consciência diante da questão foi gradativa, após 1838. Pequenos incidentes trouxeram a questão de limites ao primeiro plano e induziram à convicção de que a manutenção da paz com os vizinhos passava pela solução.

A doutrina de limites brasileira é a do uti possidetis, de 1851 ao final do império. Seu desenvolvimento ocorreu pelas circunstâncias, caracterizado pela imutabilidade e rigidez. Corolários foram desenvolvidos para lhe dar a operacionalidade necessária em casos únicos. A defesa da doutrina não foi necessária pela Chancelaria, dado o apoio do Parlamento e do Conselho de Estado. Defesa da doutrina pelo Visconde do Rio Branco em 1859: “trata-se de doutrina fundada na racionalidade e na justiça, apta a imprimir coerência e unidade de política, opção única para o país, zelosa pelo território enquanto previne usurpações, de que aliás não carece o Brasil para a sua grandeza e prosperidade”. O uti possidetis é, portanto, um subproduto da idéia brasileira de nacionalidade, introspectiva, incorporando o legado do mito de grandeza, não carecendo de fundamentação, no entendimento dos estadistas. Sua implementação se dava por negociação bilateral; excluía-se o arbitramento inicialmente; e possuía corolários ocasionais (referências a tratado na ausência de ocupação, permuta, etc.). A adesão gradativa dos demais governos latino-americanos à doutrina (a partir do Uruguai em 1851) converteu-a em uma doutrina latino-americana de direito internacional público. Os ajustes das fronteiras, eliminando fontes de tensões e conflitos, abriram caminhos para a paz e a cooperação continentais. Cervo vê a política de limites como uma demanda do interesse nacional, da segurança e das vantagens da paz.

A defesa da Amazônia e o conflito com os Estados Unidos

Continuidade do movimento de fronteiras norte-americano para o sul: a Amazônia. Empreendimento de iniciativa particular com o apoio do representante de Washington no Rio, William Trousdale. A abertura do Amazonas à navegação era condição prévia para o êxito de qualquer projeto do gênero. Os princípios de expansão territorial e anexação de territórios dos EUA chocavam-se com a resistência e as pressões externas e a defesa das posses territoriais do Brasil.

A estratégia brasileira para evitar um novo tratado de comércio com os americanos e a abertura do Amazonas passava pelos seguintes pontos: fortalecimento do Amazonas, com a criação de uma companhia nacional de navegação; concessão da navegação aos ribeirinhos; confronto da campanha norte-americana pela ação diplomática; o adiamento da abertura da navegação até o desaparecimento do risco.

As pressões americanas relaxaram a partir de 1855 devido ao alto nível do relacionamento bilateral (o maior fluxo comercial do continente) e ao encaminhamento do conflito interno nos EUA (Guerra Civil). Foi apenas em 1866 que, unilateralmente, o país abriu a navegação do Amazonas à todas as nações. “Manter o Amazonas fechado até cessar o perigo de dominação externa não foi, portanto, uma política mesquinha”. Foi uma variável independente de então, calculada e autoformulada.

O controle do Prata (p 109)

Política brasileira no Prata:

1822-1824: tentativa de cooperação para defesa das independências

1825-1828: guerra da Cisplatina

1828-1843: neutralidade

1844-1851: da neutralidade à intervenção

1851-1864: presença brasileira ativa Política BR de potência periférica regional

1864-1876: retorno à política intervencionista

1877-1889: retraimento vigilante

A política brasileira de potência periférica regional caracteriza-se por ser autoformulada, contínua e racional, na medida em que se guiava por objetivos próprios, aos quais subordinavam-se os métodos e os meios.

Condições regionais para sua implementação: consolidação do Estado brasileiro; conjuntura econômica internacional; debilidade dos Estados uruguaio e argentino; dificuldades do Estado patrimonial paraguaio.

Condições internacionais para sua implementação:dispersão das forças no cenário int’l que abriu no Prata um espaço de manobra para o Brasil.

Da hesitação à intervenção (1844-1851)

A neutralidade efetiva deveu-se à falta de opção política consciente. As quatro alternativas consideradas pelo meio político brasileiro: reaproximação com Rosas; marcha contra ele por meio de aliança paraguaia; marcha contra ele juntamente com França e Inglaterra; confronto direto sem alianças. A hesitação diplomática brasileira gerava dificuldades e comprometia a imagem do país.

As condições da parte brasileira para um entendimento com Rosas eram inviáveis, pois implicavam no sacrifício de pretensões hegemônicas argentinas em favor das brasileiras. Em 1844 a administração do Min. dos Negócios Estrangeiros estabelece aproximação com o Paraguai, por meio da assinatura de tratado de amizade, comércio, navegação e limites. A articulação anti-rosista com o Paraguai foi, contudo, efêmera. O gabinete posterior não ratificou o tratado paraguaio (causando grande desgaste na relação bilateral) e direcionou, no mesmo ano, os esforços para a Europa (possibilidade de intervenção conjunta com França e Inglaterra), no que não obteve sucesso.

Em 1845, refugia-se o Brasil novamente na neutralidade, à medida que agravava-se a situação. Com o retorno do visconde do Uruguai (Paulino José Soares de Souza) à chefia do ministério em 1849, leva-se a termo novamente a aproximação com o Paraguai e, posteriormente à retirada européia do Prata, a intervenção contra Oribe e Rosas.

O principal elemento do cálculo político brasileiro era o fortalecimento de Rosas após a vitória contra os europeus e a possibilidade de um expansionismo regional que pudesse restabelecer o Vice-Reino do Prata. Neutralizou-se o apoio inglês a Rosas e normalizaram-se as relações com a Inglaterra (extinção do tráfico de escravos, 1850). Buscaram-se alianças com as repúblicas do Pacífico, do Paraguai, do Uruguai (Rivera) e de Corrientes e Entre-Rios. O Ejército Grande, formado por soldados de Corrientes, Entre-Rios, Brasil e Uruguai, chefiado por Urquiza e financiado primordialmente pelo Império do Brasil, derrotou Rosas na batalha de Monte Caseros (1852).

A presença brasileira e seus fins (1851-1864)

Motivações brasileiras no Prata

a) Finalidades econômicas: necessidade de importação de charque; interesses brasileiros nas finanças (empréstimos feitos aos governos da região).

b) Finalidades estratégicas e de segurança: defesa das independências locais (condição favorável ao exercício de sua hegemonia); acesso a Mato Grosso pelo estuário; definição jurídica das fronteiras; liberdade de trabalho dos brasileiros residentes no Uruguai.

c) Finalidades políticas: interesse brasileiro no funcionamento normal de instituições liberais.

Balanço geopolítico dos fatores: Uruguai com importância econômica, Argentina com importância política, Paraguai como trunfo estratégico. No Uruguai: cinco tratados em outubro de 1851 estabelecendo semiprotetorado brasileiro; exploração brasileira das pastagens, controle das finanças públicas e delimitação das fronteiras segundo os desejos do Brasil. Na Argentina, pretensa neutralidade no conflito interno; empréstimos a Urquiza facilitam sua vitória; comércio regularizado; livre navegação e não-interferência no Uruguai. Com o Paraguai as relações pioravam à medida que não se alcançava um acordo sobre limites e livre-navegação. Em 1862, Francisco Solano López substitui seu pai, acentuando o radicalismo.

O retorno às soluções de força (1864)

Vitória de Mitre sobre Urquiza (Batalha de Pavón) em 1861 e ascensão à presidência da República Argentina; alinhamento ideológico com o liberalismo do Brasil. No Uruguai, o governo blanco de Berro (1860-1864) criava dificuldades com os brasileiros (imposição de direitos à passagem do gado em pé para o RS; nega novo tratado de comércio) e com os argentinos (apoio porteño à rebelião de Flores). A pressão externa motivou o governo blanco a buscar o Paraguai.

No Paraguai, ressentimento pelo seu minguado papel no subsistema regional a despeito de uma vontade de potência amparada em uma economia próspera e em efetivos militares extraordinários. López: teoria do equilíbrio dos Estados – possibilidade de se construir um terceiro Estado unindo Paraguai e Uruguai através das províncias de Entre Rios e Corrientes.

Ideologicamente, a guerra no Prata podia-se justificar pelo lado do liberalismo, implementado de maneira incompleta. Pelo lado econômico, nada aconselhava o conflito: a economia paraguaia já se integrava à região, ao contrário do que diz a explicação da conspiração capitalista.

Sobreposição de eixos: Argentina – Uruguai – Brasil e Paraguai – Uruguai. Os representantes do Rio e de Buenos Aires em Montevidéu empenhavam-se na solução do conflito interno uruguaio, o que foi alcançado com mediação externa entre Flores e Aguirre. O distanciamento de Aguirre do Império motivou a entrada de tropas brasileiras em Montevidéu em 1865, estabelecendo Flores no poder e selando a primeira aliança contra o Paraguai.

López procurou o entendimento com Buenos Aires e o Rio de Janeiro, porém o Paraguai era desqualificado internacionalmente sem receios, “humilhação demasiada para quem dispunha de forças superiores às dos vizinhos somadas”.

Ao atacar Brasil e Argentina López agiu por si só, porém cometeu três erros básicos, segundo Cervo: i) acreditou na dissidência de Urquiza, que ficou a disposição de Mitre; ii) contou com os blancos, que debandaram ante as tropas brasileiras; iii) dispersou os exércitos, em vez de tomar Montevidéu e Buenos Aires e negociar em posição de força. Também não calculou a facilidade com que se articularia a tríplice aliança em 1 de maio de 1865.

A guerra foi financiada pelo Tesouro brasileiro (repasse de empréstimos à Argentina) e por banqueiros ingleses, interessados em negócios lucrativos (Palmerston se opunha). O desencadeamento foi causado por López e sua condução pela vontade de Estado brasileira e argentina. Seu prolongamento se deveu à determinação do governo brasileiro de eliminar López, tornando-a impopular em toda parte.

A ação diplomática brasileira foi administrada ao estilo de uma potência periférica: obtenção de empréstimos dos Rothschild, restabelecimento das relações com a Inglaterra, abertura do Amazonas, concerto com a Bolívia, etc. O exército brasileiro ocupou o Paraguai até a conclusão final das muitas negociações (Guerra 1865-1870; Ocupação até 1874).

Um balanço dos resultados

Do ponto de vista do sistema internacional: estabeleceu-se uma hegemonia periférica com a substituição das potências anteriormente dominantes. Requisitos do conceito que foram preenchidos: o Brasil a) comandou, pela via diplomática, um sistema de acordos e alianças que lhe era favorável; b) usou da força quando requeriam as circunstâncias; c) submeteu os Estados à dependência financeira; d) abriu-os à penetração econômica privada e garantiu o fornecimento de matérias-primas indispensáveis à manutenção de seu sistema produtivo; e) obstou ao aparecimento de uma hegemonia concorrente. A hegemonia brasileira também revestiu-se de moderado grau imperialista.

Do ponto de vista econômico, as repercussões foram negativas: os custos desviaram da modernização interna um enorme volume de capital e os empréstimos não foram ressarcidos.

No Prata, a ação brasileira teve resultados paradoxais, ao não alcançar o fortalecimento dos pequenos Estados (manutenção das contradições internas do Uruguai; Paraguai arrasado) e possibilitar a consolidação do Estado argentino, única potencia rival em condições de articular-se internamente e competir externamente.

Distensão e universalismo: a política externa ao final do Império (p 129)

Tendências dominantes no período: distensão e universalismo. A distensão convinha pelos efeitos econômicos da guerra, pelo apaziguamento dos atritos com os ingleses e por ser condição para a condução pacífica das relações com a Argentina. O universalismo consistia na busca por maior prestígio e extensão à ação externa por meio de viagens do Imperador e da presença brasileira em eventos internacionais.

Aparente contradição entre distensão e universalismo. Por um lado, a nação voltava-se, como na regência, para a solução de problemas internos: abolição da escravatura, propaganda republicana, necessidade de mão-de-obra e o reordenamento do Estado em conformidade com os novos grupos hegemônicos oriundos da expansão cafeeira. Por outro, o retraimento não era aconselhável em um momento de ampliação das relações internacionais, no que se inserem a diplomacia de prestígio e o novo pan-americanismo.

Superadas as questões Christie (1863) e Webb (1869), as relações com Reino Unido e Estados Unidos caminharam para distensão e a cordialidade por uma questão de conveniência econômica para as três partes.

As seqüelas no Prata: as dívidas com o Paraguai não foram ressarcidas. O governo julgava não convir insistir na cobrança devido à absoluta falta de recursos do governo paraguaio e à necessidade de se manter uma boa relação bilateral.

Sobre limites: após os tratados com Uruguai, Peru, Venezuela, Bolívia e Paraguai, esmoreceu-se o empenho brasileiro em resolver as questões pendentes, que foram postergadas para o período republicano. Somente os limites com a Argentina mereciam da diplomacia nacional o cuidado de outrora.

As tensões com a Argentina continuaram após o período intervencionista no Prata, tendo como principais fatores o litígio fronteiriço, a questão do armamentismo, a concorrência por imigrantes e a guerra de imagem.

Dom Pedro II e sua diplomacia de prestígio

O imperador investiu seu prestígio pessoal na busca por resguardar o interesse brasileiro no exterior, empreendendo três grandes viagens pelo ocidente. A ampliação dos horizontes da PEB incluiu a participação em eventos internacionais de toda sorte, inclusive os congressos pan-americanos. Foram estabelecidas relações com a China em 1881.

As relações entre o Brasil e os Estados Unidos e o pan-americanismo

O comércio com os EUA era o sustentáculo do processo modernizador nos derradeiros anos do Império. Em 1889, 61% das exportações brasileiras se destinavam aos EUA, enquanto apenas 5% das importações eram provenientes deste país.

As relações EUA – América Latina passaram por três grandes fases no século XIX:

a) presença intensa americana à época das independências em desafio à preponderância européia;

b) desilusão de 1826 até o final da guerra de secessão, prevalecendo o distanciamento;

c) reformulação da imagem dos EUA após a vitória do norte e ressurgimento do ideal pan-americano, agora utilizado por Washington para fim real (comércio).

Algumas características do relacionamento bilateral EUA – Brasil: i) pouco apreço pelo regime monárquico, apesar de que a singularidade de ambos os países frente aos hispânicos aproximavam-nos; ii) atritos diplomáticos facilmente superados na cúpula dos governos, em nome das conveniências; iii) altas opiniões do governo brasileiro sobre a relação após 1840. Pragmatismo e cautela permitiram ao Brasil levar a cabo uma política bem sucedida, com ampliação das exportações de café, afastamento dos EUA das questões do Prata, não-interferência na Amazônia e manutenção da autonomia e dignidade brasileiras. Segundo Cervo: “elevado senso prático e bom cálculo político” marcavam as relações, garantindo seu sucesso.

O pan-americanismo bolivariano buscava a criação de um direito internacional americano, visando compensar o esfacelamento político regional. Contudo, a preocupação dos Estados hispânicos com segurança, sobretudo a ameaça espanhola, não se verificava no Brasil, de modo que não houve maior interesse em participar das conferências pan-americanas. Mais sérias eram as divergências ideológicas e de concepção de poder. A diplomacia brasileira, realista, se contrapunha ao idealismo pan-americano. A presença em congressos foi habilmente protelada, sem criar rivalidades ou ressentimentos. A participação no final em 1888 ocorreu em um período de universalismo e distensão em que não convinha manter o isolamento continental de até então. O engajamento dos EUA a partir de 1880 trouxe o movimento à realidade, facilitando a participação brasileira.

Conclusão: a política exterior do Império

Os resultados da política externa do Império são condicionados pela percepção do interesse nacional à época e pelas condições objetivas do processo decisório. Até 1831, o processo decisório era fechado e a leitura do interesse nacional feita sob a ótica da herança portuguesa, vinculada à aliança inglesa. O período da regência representou a gestação da PEB, acompanhando a nacionalização do Estado, processo que se consolidaria no Segundo Reinado. A PEB de então tendeu à racionalidade, à continuidade e à autonomia. Instituições estáveis e participativas no processo decisório. Tal autonomia significava tanto a possibilidade de ruptura como de distensão, de modo que o enquadramento no sistema internacional do capitalismo industrial não foi um fato inevitável, mas o resultado de decisões do Estado. A vontade de potência no campo econômico esmoreceu-se, desviando-se para o exercício da hegemonia regional no Prata, o que consumiu recursos e energia que seriam mais bem aplicados no esforço de superação da dependência estrutural.

Por fim, Cervo questiona alguns mitos sobre a PEB à época do Império:

a) o fatalismo da dependência e do atraso em função de leis mecânicas do capitalismo;

b) a destruição pelo Brasil da organização socioeconômica paraguaia, para atender aos interesses britânicos;

c) o intervencionismo brasileiro no Prata como benévolo e civilizador;

d) o expansionismo das fronteiras;

e) a insuperável rivalidade Brasil – Argentina.

Parte II – Da agroexportação ao desenvolvimentismo (1822-1964) – Clodoaldo Bueno

A política exterior da República (1889-1902) (p 151)

Reações no exterior ao novo regime

Uruguai e Argentina: primeiros países a reconhecerem o novo regime. Após alguma hesitação inicial (em razão da boa impressão deixada por D. Pedro II no país e do receio de que a mudança não obtivesse apoio nacional), os EUA reconheceram a República em janeiro de 1890, e o Congresso aprovou moção de congratulação ao povo brasileiro, antevendo a maior aproximação entre EUA e Brasil. No geral não houve problemas para ser reconhecida a República na Europa; houve uma reação inicial cautelosa e alguns países esperaram a realização de eleições para reconhecerem o governo provisório.

A imagem externa

Os interesses comerciais e financeiros britânicos requeriam um rápido reconhecimento do novo regime. Contudo, as autoridades inglesas se mostraram cautelosas em relação ao Brasil. As crises política e financeira se conjugavam pra prejudicar a imagem do país no exterior, levantando observações severas que prolongaram-se até o governo de Campos Sales.

Neste contexto, a principal tarefa da legação brasileira em Londres era procurar desfazer a imagem negativa que o país ia adquirindo com as convulsões internas.

A “republicanização” da diplomacia e o Legislativo

Em um primeiro momento, o Legislativo julgou necessário suprimir, fundir e criar delegações estrangeiras por meio de critérios pouco claros, mas demonstrativos das novas visões acerca da inserção internacional do Brasil. A razão de economia nos gastos públicos mascarava outras motivações, como a tentativa de deslocar parte dos diplomatas monarquistas vindos do Império.

Em 1894, o projeto de reorganização do corpo diplomático mostra maior atenção às relações com a América do Sul e com os EUA. Na Europa, os consulados seriam mais convenientes aos interesses brasileiros naquele continente: comércio e imigração. “Republicanizar” as relações internacionais do Brasil equivalia a privilegiar o contexto americano, notadamente os Estados Unidos, enquanto se verificava o retraimento das relações com a Europa

Reorientação da política externa

O período de 1889 a 1902 (ascensão de Rio Branco) é marcado pela falta de uma diretriz no que tange a política externa. Não há dúvidas de que houve uma ruptura com o padrão anterior, buscando uma orientação pan-americanista para as relações externas do país.

O americanismo marcou a República nascente como que por antinomia ao europeísmo com o qual se identificava a monarquia. Havia, em seu discurso, forte idealismo, baseado em fraternidade e solidariedade. A americanização se verificou também nas instituições nacionais, que tomavam os EUA como base.

Na Argentina, a República foi imediatamente bem recebida. A euforia inicial em ambos os lados possibilitou a assinatura do Tratado de Montevidéu, sobre a Questão de Palmas. Como já havia sido negociada a mediação pelo presidente americano, a divisão da região litigiosa pelo tratado foi muito mal recebida pela opinião pública e prejudicou o novo ministro das relações exteriores, Quintino Bocaiúva.

Após a euforia, as nações voltaram a se observar com espírito de rivalidade. Os três assuntos principais relacionados à Argentina foram, entre 1889 e 1902: a) as relações comerciais; b) a preocupação com o rearmamento naval argentino; c) a eventual hegemonia argentina na região. A questão naval preocupava o governo (e a Marinha do Brasil) devido à redução do poder naval brasileiro com as crises política, financeira e a Revolta da Armada. O idealismo inicial foi então substituído por uma atitude realista.

A proclamação da República ocorreu durante a I Conferência Internacional Americana, realizada em Washington. A delegação brasileira, representando o Império, foi com restrições às ambições norte-americanas sobre o continente. Com a mudança do regime político no Brasil e, consequentemente, do chefe da delegação, houve uma reorientação da posição a ser adotada, tendendo os brasileiros a estabelecer perfeito entendimento com os norte-americanos. O período republicano marcaria as relações bilaterais com cordialidade e entendimento. O café era o principal produto da exportação brasileira e os Estados Unidos eram seu principal comprador. Assim, buscavam os homens de Estado brasileiros colocar num mesmo patamar as relações econômicas e políticas entre as duas nações.

A intervenção estrangeira na Revolta da Armada (1893-1894)

A Revolta eclodiu em 1893 como resultado da crise política do Brasil nos primeiros anos do novo regime e do agravamento da rivalidade entre Marinha e Exército com a ascensão do marechal Floriano à presidência. Houve péssimo efeito no exterior, manchando a imagem do Brasil e levantando em dúvida a capacidade do país de se auto-governar e de manter a unidade nacional. As potências estrangeiras com presença naval na baía de Guanabara (EUA, Grã-Bretanha, França e Portugal) intermediaram um convênio entre Floriano e a Armada rebelada, o que deu tempo ao governo legal de organizar sua resistência. Em um momento em que a vitória de Floriano parecia difícil e que as diplomacias européias ensaiavam retirar seu apoio ao governo legal, foi sugerida ao governo americano a ruptura do bloqueio, o que foi feito, possibilitando a derrota da revolta. Desta forma, os EUA contribuíram para a consolidação do regime de Floriano e consolidaram sua influência sobre o governo brasileiro.

Rio Branco: prestígio, soberania e definição do território (1902 – 1912) (p177)

Grandes linhas da política externa do patrono da diplomacia brasileira:

a) busca de uma supremacia compartilhada na América do Sul;

b) restauração do prestígio internacional do país;

c) intangibilidade de sua soberania;

d) defesa da agroexportação;

e) sobretudo, solução dos problemas lindeiros.

No contexto de imperialismo mundial e ascensão dos EUA como potência global, a política de Rio Branco tinha como um de seus principais componentes a íntima aproximação aos EUA, o que não significa alinhamento automático e serviu aos propósitos sul-americanos do chanceler. O período representa um marco no relacionamento bilateral e levou à integração do Brasil no subsistema liderado pelos EUA no período da Guerra Fria. A aproximação com os americanos atendia aos interesses das oligarquias dominantes na política brasileira e convinha a Washington pela posição estratégica do Brasil e pelo potencial de seu mercado. O autor ressalta também a autonomia do Ministério das Relações Exteriores no período, devido ao prestígio de seu titular.

Rio Branco e o corolário Roosevelt

Ao impedir ações de violência e de conquista por parte dos europeus na América, a Doutrina Monroe constituía elemento de defesa territorial do continente, segundo Rio Branco. O caso do bloqueio naval anglo-germânico imposto à Venezuela é ilustrativo. O chanceler argentino, Drago, protestou contra a anuência de Washington à consulta britânica sobre o bloqueio. Rio Branco, por sua vez, não assumiu postura divergente da americana. Segundo o ministro, a doutrina Monroe não podia instituir em favor dos povos americanos o privilégio de faltar impunemente a compromissos de honra.

Concebida originalmente como proteção e não ingerência, a Doutrina Monroe foi transformada em justificativa para sancionar intervenções em países latino-americanos abrangidos pela ampliação da área de segurança norte-americana. Theodore Roosevelt foi o presidente que, unilateralmente, colocou a América Latina no subsistema internacional liderado pelos EUA, conciliando monroísmo com intervencionismo (Corolário Roosevelt – Big Stick –, discurso no Congresso, 1904).

Rio Branco receava a agressividade européia, o que levava-o a valorizar o caráter defensivo da Doutrina Monroe. Tal postura sugeria no exterior que o Brasil teria aceitado tacitamente a Doutrina nos termos em que fora reinterpretada por Roosevelt. Na Argentina, a aproximação brasileiro-americana decorria de um pacto pelo qual o Brasil exerceria a hegemonia sul-americana por delegação dos EUA. Para se evitar polêmicas, a Doutrina Monroe não constou na agenda da III Conferência Internacional Americana (Rio de Janeiro, 1906). Em seu discurso, Rio Branco elogiou a Europa. O chanceler não alimentava idealismo ingênuo quanto à natureza do pan-americanismo reanimado por Washington, adotando uma postura pragmática frente à nova distribuição internacional de poder.

O Brasil e o subsistema norte-americano de poder

Tanto Rio Branco como Joaquim Nabuco (primeiro embaixador brasileiro em Washington, 1905) reconheciam os EUA como o centro de um subsistema internacional de poder, diverso da Europa, “uma constelação com órbita própria” que formava uma grande unidade política livre de guerras. A amizade norte-americana tanto tinha um caráter defensivo como permitia ao Brasil jogar com mais desembaraço com seus vizinhos. Consolidava-se a idéia de um sistema continental pacífico, oposto ao continente beligerante europeu. O senso pragmático era evidente na aproximação, pois fazia-se em compasso com os objetivos do país. A solução das pendências lindeiras em um contexto de proximidade com Washington era benéfica para o Brasil, evitando maiores dificuldades e necessidade de mediações.

A questão do Acre

Prelúdio: incidente da canhoneira Wilmington, que foi até Iquitos no Peru em 1899.

A região boliviana do Acre foi ocupada por brasileiros em busca de borracha. Buscando evitar com o Acre o que ocorrera com o Atacama (perdido para o Chile), o governo boliviano instalou uma aduana em Puerto Alonso em 1899, levantando protestos dos brasileiros. Em 1901, La Paz arrendou a exploração da região para o Bolivian Syndicate por um período de 30 anos. A presença de uma companhia de tal natureza em região limítrofe ao país levantou a preocupação da diplomacia brasileira, que reconhecia a soberania boliviana na região mas buscou apoio político contra a empresa jogando com a Doutrina Monroe (pois o Bolivian Syndicate era integrado também por europeus).

Rio Branco assumiu o Ministério em dezembro de 1902 e logo colocou as posições do Executivo e da opinião pública em sintonia, tornando a área do Acre oficialmente litigiosa (por meio da reinterpretação do Tratado de Ayacucho, de 1867).

Os brasileiros revoltosos no Acre derrotaram os bolivianos e proclamaram um Estado independente em 1903. Rio Branco decidiu afastar o Syndicate por meio de indenização, o que ocorreu com intermediação do barão de Rothschild, mediante o pagamento de 114 mil libras. O chanceler buscava, assim, evitar complicações e encurtar o entendimento.

Isolado o sindicato, o governo passou a negociar com a Bolívia, culminando no Tratado de Petrópolis (novembro de 1903), pelo qual o Brasil fez permuta de territórios com a Bolívia (cedeu 3.200 km2 e indenizou em 2 milhões de libras, em troca de 191 mil km2).

O contexto sul-americano

Segundo a imprensa argentina (La Prensa; Estanisláo Zeballos), o projeto de rearmamento naval brasileiro, aprovado em 1904, constituía tentativa de respaldar militarmente a restauração da preeminência brasileira na América do Sul por meio de uma aliança com os Estados Unidos. Havia percepção no exterior de que o Brasil buscava desempenhar o papel de garantidor do governo de Washington na América do Sul.

Rio Branco buscava captar a simpatia de nações como Chile, Paraguai e Uruguai, a fim de conter a Argentina e sua capacidade de influência em terceiros. O chanceler almejou uma aproximação com Chile e Argentina (ABC) nos termos de uma cordial inteligência, que pudesse atuar de acordo com os americanos, numa espécie de condomínio oligárquico de nações.

Os tratados de limites

A definição do território nacional foi a principal obra de Rio Branco, alcançada sem o uso da força. Negociou a questão do Acre e estabeleceu tratados limítrofes com a Colômbia (1907), Peru (1909), Uruguai (1909) e Guiana Holandesa (1906). Com relação ao Uruguai, o país cedeu espontaneamente a Lagoa Mirim, elevando o nível do relacionamento bilateral e o prestígio do Brasil naquele país.

Do apogeu ao declínio da Primeira República: a ilusão de poder (1912-1930) (p 199)

Caracterização do período

A principal característica do período foi o cultivo da amizade com os Estados Unidos (o que não significava alinhamento automático), consolidada pelas sólidas relações econômicas bilaterais. A cooperação com os EUA se estendeu até os anos 1950, de modo que a aproximação com este país representou uma das mudanças mais significativas advindas da instalação da República.

O Brasil de entreguerras era uma nação satisfeita consigo mesmo na frente internacional, superestimando seu peso. Na ausência de grandes questões a serem resolvidas (e na não contestação da divisão internacional do trabalho na qual o Brasil cumpria papel de agroexportador), a diplomacia se concentrava em expandir mercados e buscar prestígio.

O país estabeleceu acordos de cooperação militar (missão militar francesa, 1919; missão naval americana, 1922) que tiveram repercussões negativas na Argentina e na V Conferência Internacional Americana (Santiago, 1923).

Declínio da influência inglesa e presença norte-americana

O imperialismo colonial e a disputa interimperialista não deixaram muita margem para os produtos primários do Brasil, cujo sistema econômico viu-se reduzido a extrema especialização, com base no café (72,5% das exportações entre 1924 e 1929). O triunfo do café foi facilitado pela sua popularização entre a crescente população americana. No entreguerras, os EUA passaram a ser, também, o principal fornecedor de importados do Brasil. Desse processo são responsáveis a crescente concorrência internacional, a perda de poder mundial dos britânicos e a Tarifa Mckinley dos EUA, de cunho protecionista mas que isentava produtos como o café. O convênio aduaneiro entre EUA e Brasil durou de 1904 a 1922, impulsionando a exportação cafeeira. Dada a primazia deste setor no conjunto da economia, pode-se avaliar o nível de vinculação econômica que se estabeleceu entre os dois países, bem como o reforço da condição do Brasil como país essencialmente agrícola. Na década de 20 houve também a transição da preponderância britânica para a americana com relação aos empréstimos feitos no estrangeiro, ainda que o Brasil tenha tirado proveito da competição financeira anglo-americana.

O Brasil e a Primeira Guerra Mundial (1914-1918)

A razão imediata para a entrada do Brasil na guerra foi a ação dos submarinos alemães contra navios mercantes brasileiros em abril de 1917. A declaração de guerra ocorreu em outubro do mesmo ano, sendo o Brasil o único país sul-americano a entrar no conflito.

Procurando dar expressão prática à sua colaboração com os aliados, o governo enviou missão de 13 oficiais aviadores à RAF e 100 médicos-cirurgiões à França, o que trouxe simpatias ao Brasil nas negociações de paz. A Divisão Naval em Operações de Guerra teve problemas em sua viagem até o Mediterrâneo (gripe espanhola), tendo entrado em Gibraltar um dia antes da assinatura do armistício que finalizou a guerra.

Com o fim do conflito, Itália e Grã-Bretanha fizeram propostas de cooperação aérea e naval que transcendiam a colaboração brasileira no conflito. Os britânicos, em setembro de 1918, decidiram por promover a legação no Rio de Janeiro à categoria de embaixada, como prova do apreço pela atitude do Brasil na guerra.

O conflito trouxe dificuldades para o comércio, devido à inclusão do café na lista de contrabandos de guerra (não era considerado de primeira necessidade). Houve aumento do intercâmbio com os EUA e diminuição do com a Alemanha. Ao fim, o saldo da balança comercial foi favorável, pois o país importava menos (em razão da desorganização da produção européia) e exportava mais (inclusive produtos “novos”, como cereais e carne congelada). Contudo, o quadriênio seguinte à guerra (Epitácio Pessoa) foi marcado por déficits comerciais.

Duas questões levantadas pelo Brasil nas negociações de paz foram as questões do café de São Paulo em portos europeus e da apreensão dos navios alemães, que tiveram resultados mais ou menos favoráveis ao país.

Defesa das exportações e mudança na lei alfandegária

O trabalho de divulgação do Brasil e de seus produtos no exterior, iniciado no Império, foi mantido na República. O Relatório anual do MRE de 1920-1921 mostra a renovação da preocupação com a expansão comercial do país. A política alfandegária foi reformulada, substituindo concessões específicas em tratados comerciais por cláusulas de nação mais favorecida. A melhora da situação dos produtos brasileiros no exterior mostrava, em 1926, o sucesso da política comercial inaugurada em 1923.

Ilusão e frustração: participação e retirada da Liga das Nações

A participação brasileira na Primeira Guerra Mundial assegurou-lhe assento na Conferência de paz (com três delegados, graças à positiva influência americana) e presença na organização da Sociedade das Nações (SDN) e em seu conselho.

Desde 1921 o Brasil almejava um posto permanente no Conselho Executivo da SDN, do qual já fazia parte como membro eleito sucessivamente de 1920 a 1925. Acreditava-se que a categoria de membro temporário não condizia com a posição do país no concerto internacional. O Brasil reforçou suas pretensões durante as negociações para inclusão da Alemanha na Liga (e sua imediata integração no Conselho como membro permanente). Com o insucesso da estratégia, a delegação brasileira ameaçou vetar a entrada alemã caso o Brasil não fosse igualmente atendido. A obstinação do governo, fortalecida pela postura irredutível de Artur Bernardes, repercutiu negativamente na Europa. O veto ocorreu em março de 1926, e, em junho de 1926, foi comunicada a renúncia do Brasil da SDN (mesmo com as divergências entre o governo no Rio e o representante em Genebra).

O Brasil justificou sua saída alegando que a SDN não tinha representação suficiente do continente americano (não-participação dos EUA, afastamento da Argentina) e que a doutrina de que só grandes potências deveriam figurar no quadro de membros permanentes não se coadunava com o caráter universal da Liga. O país tinha a respeito do seu peso no cenário internacional uma concepção distante daquela das potências européias.

Alguns apontam a atitude prepotente do Brasil como advinda de Artur Bernardes, que visava aprovação interna com o ato. O governo estaria com os olhos cegos para as manifestações contrárias ao aumento de assentos do Conselho da SDN, não observando que a posição brasileira no conceito da Liga não era compatível com a sua pretensão de adesão permanente ao Conselho (com a qual nem os governos latino-americanos concordavam).

A última etapa

No governo Washington Luís (1926 -1930; chanceler Otávio Mangabeira) foram resolvidas questões limítrofes remanescentes. Em termos de política mundial e regional, o Itamaraty atuou discretamente, evitando exercícios de liderança e buscando a conciliação, em contraste com o governo anterior. Na VI Conferência Internacional Americana (Havana, 1928) registrou-se a crise do pan-americanismo. No período, registra-se também a não-adesão ao Pacto Briand-Kellog, a manutenção da neutralidade na questão Bolívia – Paraguai (Guerra do Chaco), a política de fraternidade com a Argentina e o reforço do estreitamento com os EUA.

O chanceler empreendeu reformas estruturais na organização da pasta de relações exteriores, buscando maior eficácia na consecução dos três grandes assuntos nacionais: comércio exterior, crédito externo e imigração. A preocupação do ministério com o interesse econômico nacional foi uma constante na história da PEB, observada desde o nascimento da República. As mudanças são no conteúdo, na maneira de encaminhar o assunto e nas oportunidades do contexto internacional, como verificou-se na década de 1930 (setores como a indústria, os bens de capital e o setor energético integrados ao conceito de interesse econômico nacional).

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Argentina

1810: Revolução de Maio

1816: Independência (Tucumán)

1816-1861: Províncias Unidas del Río de la Plata

1852: Batalla de Caseros; derrota de Rosas; assume Urquiza

1853: Constitución

1853-1859: Estado de Buenos Aires

1861: Batalla de Pavón; porteños vitoriosos liderados por Mitre; República Argentina.