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Categoria: Ciências Sociais

Enviado por: igoreduardo 30 abril 2013

Palavras: 21490 | Páginas: 86

INSTITUIÇÃO DE ENSINO SUPERIOR

UNIVERSIDADE FEDERAL DE CAMPINA GRANDE

AS CONEXÕES OCULTAS

CIÊNCIA PARA UMA VIDA SUSTENTÁVEL

Carla de Araújo Souza

Francisco Manoel de Barros

Jemerson Figueiredo Damásio

Jeysibel Dantas

Julio Zinga Suzuki Lopes

Prof. Ulrich Schiel

Orientador

Campina Grande, 10 de Março de 2008

AS CONEXÕES OCULTAS

Trabalho de conclusão da disciplina Seminários apresentado como parte das atividades desenvolvidas ao longo do aprendizado, no curso de Ciência da Computação da Universidade Federal de Campina Grande.

Prof. orientador: Ulrich Schiel

Campina Grande, 2007

AGRADECIMENTOS

Agradecemos, cada um de nós, aos outros membros do grupo por terem realizado o trabalho com afinco e produzido resultados de qualidade.

RESUMO

As últimas descobertas científicas mostram que todas as formas de vida – desde as células mais primitivas até as sociedades humanas, suas empresas e Estados nacionais, até mesmo sua economia global – organizam-se segundo o mesmo padrão e os mesmos princí-pios básicos: o padrão de redes, com unidades e sistemas interconectados. Em As Co-nexões Ocultas, Fritjof Capra desenvolve uma compreensão sistêmica e unificada que in-tegra as dimensões biológicas, cognitivas e sociais da vida e demonstra claramente que a vida, em todos os seus níveis, é inextricavelmente interligada por redes complexas.

No decorrer deste novo século, dois fenômenos específicos terão um efeito decisivo sobre o futuro da humanidade. Ambos se desenvolvem em rede e ambos estão ligados a uma tecnologia radicalmente nova. O primeiro é a ascensão do capitalismo global, com-posto de redes eletrônicas de fluxos de finanças e de informação; o outro é a criação de comunidades sustentáveis baseadas na alfabetização ecológica e na prática do projeto ecológico, compostas de redes ecológicas de fluxos de energia e matéria.

O grande desafio que se apresenta ao século XXI é o de promover a mudança do sis-tema de valores que atualmente determina a economia global e chegar-se a um sistema compatível com as exigências da dignidade humana e da sustentabilidade ecológica.

ABSTRACT

The most recent scientific researches show that every way of life – since the most primitive cells until the human society, their companies and national states, even the global economy – are organized following a common pattern and the same basic principles: the net pattern, with interconnected systems. In As Conexões Ocultas, Fritjof Capra develops a systemic and unified comprehension that involves the biological, cognitive and social di-mensions of life and shows clearly that the life, in all of its levels, is extrictly interconnect-ed by complex nets.

In this new century, two specific phenomenons will have and decisive effect over the humanity future. Both are developed in net and both are connected to a radically new tech-nology. The first is the global capitalism growing, composed of electronic finances flow nets; the other is the creation of tenable communities based on the ecological education and the practice of the ecological project, composed of ecological flows of energy and material.

The great challenge that shows up to the 21st century is the promotion of changes in the values system that determines the global economy nowadays and reach a system com-patible with the requirement of human dignity and ecological tenably.

SUMÁRIO

Introdução 9

1 PARTE 1 - VIDA, MENTE E SOCIEDADE 10

1.1 Capítulo 1 - A natureza da vida 10

1.1.1 A primordialidade das células 10

1.1.2 A perspectiva ecológica 11

1.1.3 A vida definida pelo DNA 11

1.1.4 As membranas - Os fundamentos da identidade celular 12

1.1.5 Autogeração 14

1.1.6 A rede celular 14

1.1.7 O surgimento de uma nova ordem 16

1.1.8 A vida em sua forma mínima 16

1.1.9 Os elementos da vida 17

1.1.10 As membranas 18

1.1.11 A recriação das protocélulas em laboratório 18

1.1.12 Os catalisadores e a complexidade 19

1.1.13 O desenvolvimento da vida 20

1.1.14 O que é a vida? 22

1.2 Capítulo 2 - Mente e Consciência 23

1.2.1 A teoria da cognição de Santiago 23

1.2.2 Cognição e consciência 23

1.2.3 A natureza da experiência consciente 24

1.2.4 As escolas de estudo da consciência 25

1.2.5 A visão a partir do interior 25

1.2.6 A consciência e o cérebro 26

1.2.7 A dimensão social da consciência 27

1.2.8 Conversas com chimpanzés 28

1.2.9 As origens da linguagem humana 29

1.2.10 A natureza humana 29

1.2.11 A dimensão espiritual 30

1.3 Capítulo 3 - A realidade social 31

1.3.1 Três idéias sobre a vida 31

1.3.2 O significado - a quarta perspectiva 32

1.3.3 A teoria social 32

1.3.4 Giddens e Habermas - duas teorias integradoras 33

1.3.5 A ampliação da hipótese sistêmica 33

1.3.6 Redes de comunicação 34

1.3.7 O significado, a internacionalidade e a liberdade humana 35

1.3.8 A dinâmica da cultura 36

1.3.9 A origem do poder 36

1.3.10 A estrutura dos sistemas biológicos e sociais 37

1.3.11 Tecnologia e cultura 38

2 PARTE 2 - VIDA, MENTE E SOCIEDADE 39

2.1 Capítulo 4 - A vida e a liderança nas organizações humanas 39

2.1.1 Complexidade e mudança 39

2.1.2 Metáforas da administração 39

2.1.3 Redes sociais 40

2.1.4 A organização viva 40

2.1.5 O surgimento espontâneo de coisas novas 41

2.1.6 O surgimento espontâneo e planejamento 41

2.1.7 Como dar vida às organizações 42

2.2 Capítulo 5 - As redes do capitalismo global 43

2.2.1 Para compreender a globalização 43

2.2.2 A revolução da informática 43

2.2.3 A ascensão do Capitalismo Global 44

2.2.4 A nova economia 44

2.2.5 Complexidade e turbulência 44

2.2.6 O mercado global - um autômato 45

2.2.7 O impacto social 45

2.2.8 O impacto sobre a ecologia 46

2.2.9 A transformação do poder 46

2.2.10 A transformação da cultura 47

2.2.11 A questão da sustentabilidade 47

2.3 Capítulo 6 - A biotecnologia em seu ponto de mutação 47

2.3.1 O desenvolvimento da engenharia genética 47

2.3.2 Uma revolução conceitual na genética 49

2.3.3 Estabilidade e mudança 49

2.3.4 Para além do determinismo genético 51

2.3.5 Os problemas do dogma central 52

2.3.6 O que é um gene? 54

2.3.7 Os genes e as doenças 54

2.3.8 A biologia e a ética da clonagem 55

2.3.9 A biotecnologia na agricultura 57

2.3.10 Uma alternativa ecológica 59

2.3.11 Os males da engenharia genética na agricultura 60

2.3.12 A vida: a mercadoria suprema 62

2.3.13 A virada da maré 62

2.4 Capítulo 7 - Virando o jogo 63

2.4.1 O estado do mundo 63

2.4.2 A globalização projetada 64

2.4.3 A coalizão de Seattle 65

2.4.4 A sociedade civil global 65

2.4.5 Remodelar a globalização 66

2.4.6 A revolução dos alimentos 66

2.4.7 Alfabetização ecológica e projeto ecológico 67

2.4.8 Princípios da ecologia 67

2.4.9 O agrupamento ecológico de indústrias 68

2.4.10 Uma economia de serviços e fluxos 69

2.4.11 Fazer mais com menos 69

2.4.12 A energia do Sol 70

2.4.13 Os hipercarros 70

2.4.14 A transição para uma economia do hidrogênio 71

2.4.15 Políticas de projeto ecológico 71

Considerações finais 72

INTRODUÇÃO

Existe uma rede inextricável conectando e todo o sistema, seja no nível psíquico, econô-mico, informático, social, genético/biológico ou ecológico. E o livro aborda que nada pode ser visto de maneira isolada, pois o princípio de rede se faz presente nos mais diversos aspectos da vida, desde a computação, sistemas de celulares, economia global, sistema social, mercado, ecologia, sistemas de cognição e engenharia genética.

O Capitalismo Globalizado, que vem se estabelecendo através do “dinheiro eletrônico”, já se encontra em rota de colisão com a limitação de recursos do planeta e com as emergentes Comunidades Sustentáveis. Em meio a este cenário, encontra-se o dilema da “exclusão social”, preterida ao segundo plano pelos interesses capitalistas, nos diversos níveis científicos, econômicos, etc. que visam em princípio o lucro exacerbado. Além deste, também a ética na Biotecnologia, a responsabilidade social, o respeito às culturas, alfabetização ecológica, fontes alternativas de energia, são temas abordados no intuito de se delinear um amplo projeto de reestruturação e organização da rede social.

1 VIDA, MENTE E SOCIEDADE

"Que era, então, a vida? Era calor, o calor produzido pela instabilidade preservadora da forma; era uma febre da matéria, que acompanhava o processo incessante de composição e reconstituição de moléculas de albumina, insubsistentes pela complicação e pela engenhosidade."

Thomas Mann

1.1 A natureza da vida

Utilizando uma abordagem estritamente científica buscaremos respostas para a seguinte pergunta: "Quais são as características que definem os sistemas vivos?"

Compreender os fenômenos sociais é se basear numa concepção unificada da evolução da vida e da consciência. É entender que a própria realidade social evoluiu a partir do mundo bio-lógico entre dois e quatro milhões de anos atrás, quando uma espécie de "símio meridional" (Australopithecus afarensis) ficou de pé e passou a caminhar sobre duas pernas. Naquela épo-ca, os primeiros hominídeos desenvolveram um cérebro complexo, a linguagem e a capacidade de fabricar ferramentas; ao mesmo tempo, a absoluta inépcia de seus filhotes, que nasciam prematuros, levou à formação das famílias e comunidades de apoio que constituíram as bases da vida social humana.

1.1.1 A primordialidade das células

Quando a Teoria Celular¹ ganhou corpo, as atenções de todos os estudiosos da biologia voltaram-se para a ambição de compreender o mundo celular e assim, revelarem as mais es-condidas e fascinantes reações que nos mantêm vivos.

Antes da Evolução Biológica houve uma certa Evolução Química que teve como cenário a Terra primitiva - um ambiente de há 3 bilhões de anos, com características bem diferentes da atual Terra. Uma combinação de metano, amônia, hidrogênio e vapor d’água, sob condições especiais, formaram as primeiras moléculas orgânicas, que seriam mais tarde os componentes das grandes moléculas celulares.

Uma forma de identificar as características que definem a vida é buscar o sistema mais primitivo que manifesta essas características: a célula. Partindo-se desta estratégia reducionista e conhecendo a teoria da célula, podemos expandir os estudos para os seres humanos. Or-ganismos complexos constituídos por cerca de 100 trilhões de células.

1.1.2 A perspectiva ecológica

A origem da vida é encarada como um acontecimento singular, no qual um organismo surge e se destaca do meio circundante. De acordo com um ponto de vista mais equilibrado no que diz respeito à ecologia, o correto seria examinar os ciclos proto-ecológicos e os subse-qüentes sistemas químicos que devem ter surgido e se desenvolvido enquanto apareciam obje-tos semelhantes a organismos.

É importante ter em mente que nenhum ser vive individualmente. Os animais dependem da fotossíntese das plantas, as quais por sua vez dependem do dióxido de carbono produzido pelos animais, bem como do nitrogênio fixado pelas bactérias em suas raízes. Todos juntos mantêm as condições propícias à preservação da vida. "Nesse sentido", escreve Harold Mo-rowitz, "a vida é uma propriedade dos planetas, e não dos organismos individuais”.

1.1.3 A vida definida pelo DNA

Substâncias químicas envolvidas na transmissão de caracteres hereditários e na produção de proteínas compostos que são o principal constituinte dos seres vivos. São ácidos nucléicos encontrados em todas as células e também são conhecidos em português pelas siglas ADN e ARN (ácido desoxirribonucléico e ácido ribonucléico). De acordo com a moderna Biologia , o DNA faz RNA, que faz proteína (embora existam exceções os retrovírus, como o vírus da Aids).

DNA O ácido desoxirribonucléico é uma molécula formada por duas cadeias na forma de uma dupla hélice. Essas cadeias são constituídas por um açúcar (desoxirribose), um grupo fos-fato e uma base nitrogenada (T timina, A adenina, C citosina ou G guanina). A dupla hélice é um fator essencial na replicação do DNA durante a divisão celular cada hélice serve de molde para outra nova.

RNA O ácido ribonucléico (RNA) é uma molécula também formada por um açúcar (ribo-se), um grupo fosfato e uma base nitrogenada (U uracila, A adenina, C citosina ou G guanina). Um grupo reunindo um açúcar, um fosfato e uma base é um "nucleotídeo".

Uma vez que a maioria dos processos metabólicos são catalisados por enzimas e as enzi-mas são especificadas pelos genes, os processos celulares estão submetidos a um controle ge-nético, o que lhes dá grande estabilidade. As moléculas de RNA servem de mensageiras e transmitem, a partir do DNA, informações em código para a síntese de enzimas, estabelecendo assim o vínculo crucial entre os aspectos genético e metabólico da célula.

Estrutura celular

1.1.4 As membranas - Os fundamentos da identidade celular

A membrana celular é a estrutura que delimita todas as células vivas, tanto as procarióticas como as eucarióticas. Ela estabelece a fronteira entre o meio intra-celular e o meio extracelular (que pode ser a matriz dos diversos tecidos).

A membrana celular não é estanque, mas uma “porta” seletiva que a célula usa para captar os elementos do meio exterior que lhe são necessários para o seu metabolismo e para libertar as substâncias que a célula produz e que devem ser enviadas para o exterior (sejam elas produtos de excreção, das quais deve se libertar, ou secreções que a célula utiliza para várias funções relacionadas com o meio).

Uma membrana é muito diferente de uma parede celular. Ao passo que as paredes celula-res são estruturas rígidas, as membranas estão sempre ativas - abrem-se e fecham-se constan-temente, deixando entrar certas substâncias e mantendo outras de fora.

A parede celular é uma estrutura que envolve as células de muitos seres vivos, como as plantas verdes, as algas, os fungos e muitas bactérias. Tem funções de proteção e suporte e também evita que a célula arrebente quando mergulhada em um meio hipotônico e geralmente é permeável à troca de íons entre o exterior e o interior da célula.

Por meio de suas várias atividades, a membrana celular regula a composição molecular da célula e assim preserva a sua identidade. Temos aí um interessante paralelo com as idéias mais recentes do campo da imunologia. Alguns imunologistas crêem agora que o papel essencial do sistema imunológico é o de controlar e regular o repertório de moléculas em todo o organismo, conservando assim a "identidade molecular" do corpo. No nível celular, a membrana celular desempenha papel semelhante: controla as composições moleculares e, assim, mantém a identidade da célula.

1.1.5 Autogeração

A membrana celular é a primeira característica que define a vida celular. A segunda ca-racterística é a natureza do metabolismo que ocorre dentro dos limites da célula. Assim como os ecossistemas são compreendidos em função da noção de teia alimentar (redes de organis-mos), assim também os organismos são concebidos como redes de células, órgãos e sistemas orgânicos; e as células, como redes de moléculas.

Em uma célula, por exemplo, todas as estruturas biológicas são produzidas, reparadas e regeneradas de forma continua por uma rede de reações químicas. Similarmente, ao nível de um organismo multicelular, as células do corpo são continuamente regeneradas e recicladas pela rede metabólica do organismo. Redes vivas de forma contínua criam ou recriam a si pró-prias, quer transformando ou substituindo seus componentes.

A autopoiese nos fornece um critério claro e poderoso para estabelecermos a distinção entre sistemas vivos e sistemas não-vivos. Revela-nos, por exemplo, que os vírus não são vivos, pois falta-lhes metabolismo próprio. Fora das células vivas, os vírus são estruturas moleculares inertes compostas de proteínas e ácidos nucléicos. O vírus é, em essência, uma mensagem química que precisa do metabolismo de uma célula hospedeira para produzir novas partículas viróticas, de acordo com as instruções contidas no seu DNA ou RNA. Essas novas partículas não são constituídas dentro dos limites do próprio vírus, mas fora deles, na célula hospedeira.

1.1.6 A rede celular

É possível ter uma idéia da complexidade da rede metabólica existente nas células, que possuem tipicamente milhares de enzimas, analisando a figura abaixo, que representa apenas 43 proteínas e 40 metabolitos. A seqüenciação de genomas mostra que poderão existir até 45000 genes (que corresponderão a tantos outros polipéptidos). É, no entanto, possível na atu-alidade usar esta informação genômica para reconstruir redes completas de reações bioquími-cas e produzir modelos matemáticos holísticos que expliquem e prevejam o seu comporta-mento. Tais modelos são particularmente úteis quando usados na integração de dados obtidos através de métodos laboratoriais de análise de expressão genética, como o uso de proteômica e microarrays.

Alguns biólogos fazem distinção entre dois tipos de processos de produção e, do mesmo modo, entre duas redes distintas dentro da célula. A primeira é chamada - num sentido mais técnico do termo - de rede "metabólica", e nela os "alimentos" que passam pela membrana celular são transformados nos chamados "metabólicos" - os tijolinhos a partir dos quais são construídas as macromoléculas.

A segunda rede está ligada à produção das macromoléculas a partir dos metabólicos. Essa rede inclui o nível genético, mas vai também além dele, e por isso é chamada de rede "epige-nética" (Do grego epi "acima" ou "ao lado de"). Embora essas duas redes tenham recebido nomes diferentes, são intimamente interligadas e constituem, juntas, a rede celular autopoiéti-ca.

Quando uma célula se reproduz, ela transmite à geração seguinte não somente os seus ge-nes, mas também as suas membranas, enzimas, orgânulos - em suma, toda a rede biológica celular. A nova célula não é produzida pelo DNA "nu e cru"; antes, é um prolongamento da rede autopoiética inteira, que a ela se sucede sem solução de continuidade. O DNA nunca é transmitido sozinho, pois os genes só podem funcionar dentro do contexto da rede, e, rede autopoiética. Foi assim onde a vida desenvolveu-se por mais de três bilhões de anos num pro-cesso ininterrupto, sem jamais romper as leis básicas das suas redes autogeradoras.

1.1.7 O surgimento de uma nova ordem

A teoria da autopoiese identifica o padrão das redes autogeradoras como uma das caracte-rísticas que definem a vida, porém, não nos fornece uma descrição detalhada dos processos físicos e químicos envolvidos nessas redes. Como vimos, essa descrição é essencial para a compreensão do surgimento das formas e funções biológicas.

O ponto de partida dessa descrição é a constatação de que todas as estruturas celulares conduzem a sua existência num estado muito afastado do estado de equilíbrio termodinâmico; assim, logo declinariam para o estado de equilíbrio - ou seja, a célula morreria - se o metabo-lismo celular não fizesse uso de um fluxo contínuo de energia para recompor e restaurar as estruturas na mesma velocidade em que elas decaem. Isso significa que a célula só pode ser descrita como um sistema aberto.

A teoria das estruturas dissipativas, formulada segundo a matemática da dinâmica não-linear, não somente explica o surgimento espontâneo da ordem como também nos ajuda a de-finir complexidade.

1.1.8 A vida em sua forma mínima

Todas essas hipóteses não passam ainda de puras especulações, que se baseiam quer na idéia de hiperciclos catalíticos de proteínas (enzimas), que se rodeiam de membranas e depois de algum modo criam uma estrutura de DNA; quer na noção de um mundo de RNA que evo-luiu para o mundo atual em que coexistem o DNA, o RNA e as proteínas; quer ainda numa síntese dessas duas hipóteses, que foi proposta recentemente. Qualquer que seja a idéia que se tenha acerca da evolução pré-biótica, levanta-se sempre uma interessante questão: será que podemos falar da existência de sistemas vivos num estágio anterior ao surgimento das células?

Luisi chega à conclusão de que as diversas definições de vida mínima, embora todas igualmente justificáveis, podem ser mais ou menos significativas dependendo do objetivo para o qual são usadas. Se a idéia básica da evolução pré-biótica estiver correta, deve ser possível, em princípio, demonstrá-la em laboratório.

Depois de identificar os princípios básicos da física e da química que supostamente ope-raram na formação das protocélulas, Morowitz se pergunta: De que maneira a matéria, sujeita a esses princípios e aos fluxos de energia disponíveis naquela época sobre a superfície da Terra, poderia ter-se organizado de modo a produzir diversos estágios de protocélulas e, por fim, a primeira célula viva?

1.1.9 Os elementos da vida

E o céu abraça a planície

Naquele momento de tranqüilidade

O encontro entre elementos

Como o ar e a terra

À qual se junta o mar

Água salgada onde o fogo repousa

Elementos que juntos fazem sentido

E que separados nada são mais do que elementos

puros e simples, sem grande significado

A estes elementos se junta o Homem

Um ser que reúne um pouco de todos os outros

A água de que é composto o corpo

O ar que traz nas ideias

O fogo que tem nas acções e atitudes

E a terra que o puxa para a realidade.

Autor desconhecido

Os elementos básicos da química da vida são os seus átomos, moléculas e processos quí-micos, ou "caminhos metabólicos". Ao discutir detalhadamente esses elementos, Morowitz mostra, de maneira muito bela, que as raízes da vida estão profundamente lançadas na física e na química básicas.

Passando dos átomos às moléculas, existe um conjunto universal de pequenas moléculas orgânicas que são usadas por todas as células como alimento para o metabolismo. Embora os animais ingiram muitas moléculas grandes e complexas, estas são sempre decompostas em agregados mais simples antes de entrar no processo metabólico das células. Além disso, o número total de moléculas usadas como alimento não supera o de algumas centenas - e isso é notável, em vista do fato de que há um sem-número de pequenos compostos que pode ser fei-to a partir dos átomos de C, H, N, O, P e S.

1.1.10 As membranas

Voltemos agora à formação de membranas e bolhas limitadas por membranas. Segundo Morowitz, a formação dessas bolhas é a etapa mais importante da evolução pré-biótica: "É o fechamento de uma membrana [primitiva] para formar uma 'vesícula' que representa uma transição discreta da não-vida para a vida."

A química desse processo crucial é surpreendentemente simples e comum. Baseia-se na polaridade elétrica da água, mencionada anteriormente. Em virtude dessa polaridade, certas moléculas são hidrófilas (atraídas pela água) e outras, hidrófobas (repelidas pela água). Há, porém, uma terceira espécie de moléculas, a das substâncias gordurosas e oleosas, chamadas lipídios. São estruturas alongadas com um lado hidrófilo e outro hidrófobo, molécula de lipí-dio, em figura adaptada de Morowitz (1992).

Os lipídios podem constituir uma estrutura ainda mais complexa, que consiste numa dupla camada de moléculas com água em ambos os lados. É essa a estrutura básica da membrana, e, à semelhança da película monomolecular, também pode constituir-se em gotículas, que são as vesículas limitadas por membranas de que estivemos falando. Sob a influência da ação das ondas, as películas fecharam-se espontaneamente em vesículas, e assim começou a transição para a vida.

1.1.11 A recriação de protocélulas em laboratório

Essa hipótese ainda é altamente especulativa, pois até agora os químicos não foram capa-zes de produzir lipídios a partir de moléculas menores. Todos os lipídios encontrados em nosso ambiente são derivados do petróleo e de outras substâncias orgânicas. Porém, esse deslo-camento do objeto principal de estudo - do DNA e RNA para as membranas e vesículas - deu origem a uma nova e empolgante linha de pesquisas, que já trouxe muitos resultados encora-jadores.

1.1.12 Os catalisadores e a complexidade

Quando as protocélulas se formaram e as moléculas que absorviam e transformavam a energia solar colocaram-se no lugar que deviam ocupar, a evolução rumo a uma complexidade maior pôde começar. Nessa época, os elementos dos compostos químicos eram C, H, O, P e talvez S, com a entrada do nitrogênio nesse sistema, talvez sob a forma de amônia (NHJ), tor-nou-se possível um aumento drástico da complexidade molecular, pois o nitrogênio é essencial para duas características típicas da vida celular - a catalise e o armazenamento de informações. Os catalisadores aumentam a velocidade das reações químicas sem sofrer transformações nesse processo, e tornam possível a ocorrência de certas reações que, sem eles, não aconteceriam.

Um catalisador é uma substância que afeta a velocidade de uma reação, mas emerge do processo inalterada. Um catalisador normalmente muda a velocidade de reação, promovendo um caminho molecular diferente (mecanismo) para a reação. Por exemplo, hidrogênio e oxi-gênio gasosos são virtualmente inertes à temperatura ambiente, mas reagem rapidamente quando expostos à platina, que por sua vez é o catalisador da reação.

Os catalisadores têm sido utilizados pelo ser humano por mais de 2000 anos. Os primeiros usos mencionados de catalisadores foram a produção do vinho, queijo e pão. Descobriu-se que era sempre necessário adicionar uma pequena quantidade da batelada anterior para fazer a nova batelada.

Todavia, foi somente em 1835 que Berzelius começou a reunir as observações de antigos químicos sugerindo que pequenas quantidades de uma origem externa poderiam afetar gran-demente o curso de reações químicas. Esta força misteriosa atribuída à substância foi chamada catalítica. Em 1894, Oswald expandiu a explicação de Berzelius ao afirmar que catalisadores eram substâncias que aceleravam a velocidade de reações químicas sem serem consumidas.

Em mais de 150 anos desde o trabalho de Berzelius, os catalisadores têm desempenhado um importante papel econômico no mercado mundial. Apenas nos Estados Unidos, as vendas de catalisadores de processo em 1996 chegaram a US$ 1 bilhão, sendo usado principalmente no refino de petróleo e na fabricação de produtos químicos.

"A mensagem que fica", diz Morowitz, "é a necessidade de compreender-se a complexa rede de reações orgânicas que contêm intermediários que servem de catalisadores em outras reações.... Se compreendêssemos melhor como lidar com as redes químicas, muitos outros problemas da química pré-biótica haveriam de tornar-se consideravelmente mais simples."

1.1.13 O desenvolvimento da vida

Quando a memória codificou-se por fim nas macromoléculas, as redes químicas limitadas por membranas adquiriram todas as características essenciais das células bacterianas de hoje em dia. Esse grande marco da evolução da vida estabeleceu-se talvez há 3,8 bilhões de anos, uns cem milhões de anos depois da formação das primeiras protocélulas.

Foi assim que surgiu um ancestral universal - ou uma única célula ou toda uma população de células - do qual descendem todas as posteriores formas de vida sobre a Terra. É como ex-plica Morowitz: "Embora não saibamos quantas origens independentes de vida celular podem ter ocorrido, toda a vida atual descende de um único clone. Essa conclusão decorre da univer-salidade das redes e programas bioquímicos básicos da síntese macromolecular."

O desenvolvimento global da vida decorreu através de três grandes caminhos evoluti-vos.(60) O primeiro, que talvez seja o menos importante, é o das mutações genéticas aleatórias, o elemento principal da teoria neodarwiniana. A mutação genética é causada por um erro casual na auto-replicação do DNA, no momento em que as duas cadeias da dupla hélice do DNA separam-se e cada uma delas serve como modelo para a construção de uma nova cadeia complementar. Esses erros casuais, porém, não parecem ocorrer com freqüência suficiente para explicar a evolução da grande diversidade de formas de vida, dado o fato bem conhecido de que a imensa maioria das mutações são nocivas, e só umas poucas resultam em variações úteis.

No decorrer dos primeiros dois bilhões de anos de evolução biológica, as bactérias e ou-tros microorganismos foram as únicas formas de vida no planeta. Nesses dois bilhões de anos, as bactérias transformaram continuamente a superfície e a atmosfera da Terra e estabeleceram os ciclos fechados globais que garantem a auto-regulação do sistema de Gaia. Com isso, in-ventaram todas as biotecnologias essenciais à vida: a fermentação, a fotossíntese, a fixação do nitrogênio, a respiração e diversas técnicas de locomoção rápida, entre outras. As mais recentes pesquisas de microbiologia evidenciam que, no que diz respeito aos processos materiais da vida, a rede planetária de bactérias foi a principal fonte de criatividade evolutiva.

A simbiose - a tendência de que organismos diferentes vivam em íntima associação uns com os outros e até uns dentro dos outros (como as bactérias que vivem em nossos intestinos) - é um fenômeno comum e bem conhecido. Margulis, porém, foi um passo além e propôs a hipótese de que simbioses prolongadas, envolvendo bactérias e outros microorganismos que viviam dentro de células maiores, teriam criado e continuam a criar novas formas de vida. Essa hipótese revolucionária foi proposta por Margulis em meados da década de 1960 e trans-formou-se já numa teoria plenamente desenvolvida, conhecida agora como "simbiogênese", que postula a criação de novas formas de vida através de arranjos simbióticos permanentes como o principal caminho pelo qual evoluíram todos os organismos superiores.

Outro padrão recorrente é a ocorrência de catástrofes seguidas por períodos de intenso crescimento e renovação. Assim, há 245 milhões de anos, aos mais devastadores processos de extinção em massa já ocorridos neste planeta seguiu-se rapidamente a evolução dos mamíferos; e, há 66 milhões de anos, a catástrofe que eliminou os dinossauros da face da Terra abriu caminho para a evolução dos primeiros primatas e, ao fim e ao cabo, da espécie humana.

1.1.14 O que é a vida?

Voltemos agora à questão proposta no começo do capítulo - Quais são as características que definem os sistemas vivos? - e recapitulemos tudo o que aprendemos. Tomando como exemplo as bactérias, que são os mais simples de todos os sistemas vivos, caracterizamos a célula viva como uma rede metabólica limitada por uma membrana, autogeradora e fechada no que diz respeito à sua organização. Essa rede necessita de vários tipos de macromoléculas altamente complexas: proteínas estruturais; enzimas, que atuam como catalisadoras dos pro-cessos metabólicos; o RNA, o mensageiro que porta as informações genéticas; e o DNA, que armazena as informações genéticas e é o responsável pela auto-replicação da célula.

Ficamos sabendo, além disso, que a rede celular é aberta dos pontos de vista material e energético, e que faz uso de um fluxo constante de matéria e energia para produzir, reparar e perpetuar a si mesma; que permanece num estado distante do equilíbrio termodinâmico, num estado em que novas estruturas e novas formas de ordem podem surgir espontaneamente, conduzindo assim ao desenvolvimento e à evolução.

Vimos, por fim, que uma forma pré-biótica de evolução - associada a bolhinhas de "vida mínima" envolvidas por uma membrana - começou muito tempo antes do surgimento da pri-meira célula viva.

Mudando o foco da nossa atenção para a dimensão cognitiva da vida, veremos que está surgindo agora uma concepção unificada da vida, da mente e da consciência, uma concepção na qual a consciência humana encontra-se inextricavelmente ligada ao mundo social da cultura e dos relacionamentos interpessoais. Constataremos, além disso, que essa concepção unificada nos permitirá compreender a dimensão espiritual da vida de maneira totalmente compatível com as concepções tradicionais de espiritualidade.

1.2 Mente e Consciência

René Descartes baseou a sua concepção da natureza numa divisão fundamental entre dois domínios independentes e separados - o da mente, a "coisa pensante" (rés cogitans), e o da matéria, a "coisa extensa" (rés extensa).

A exata relação entre a mente e o cérebro permanece misteriosa. O avanço decisivo da concepção sistêmica da vida foi o de ter abandonado a visão cartesiana da mente como uma coisa, e de ter percebido que a mente e a consciência não são coisas, mas processos.

1.2.1 A teoria da cognição de Santiago

A cognição é a atividade que garante a autogeração e a autoperpetuação das redes vivas, é o próprio processo da vida. Assim, a vida e a cognição tornam-se inseparavelmente ligadas.

Na teoria de Santiago, o sistema vivo se liga estruturalmente ao seu ambiente, ou seja, liga-se ao ambiente através de interações recorrentes, cada uma das quais desencadeia mudan-ças estruturais no sistema. Porém, os sistemas vivos são autônomos. O ambiente só faz desen-cadear as mudanças estruturais; não as especifica nem as dirige. Em geral, o comportamento resultante é imprevisível.

Essa noção de determinismo estrutural lança nova luz sobre o antiqüíssimo debate fi-losófico acerca da liberdade e do determinismo. Segundo Maturana, o comportamento do or-ganismo vivo é, de fato, determinado. Porém, não é determinado por forças exteriores, mas pela estrutura do próprio. O sistema vivo conserva a liberdade de decidir o que perceber e o que aceitar como perturbação. É essa a chave da teoria da cognição de Santiago. Nas palavras de Maturana e Varela, "viver é conhecer". À medida que o organismo vivo segue o seu próprio caminho de modificação estrutural, cada uma das mudanças que compõem esse caminho corresponde a um ato cognitivo, o que significa que o aprendizado e desenvolvimento não passam de dois lados da mesma moeda.

1.2.2 Cognição e consciência

A consciência é um tipo especial de processo cognitivo que surge quando a cognição al-cança um certo nível de complexidade. A distinção entre dois tipos de consciência - em outras palavras, dois tipos de experiências cognitivas - que surgem em níveis diferentes de comple-xidade neurológica.

O primeiro tipo, chamado de "consciência primária", surge quando os processos cogni-tivos passam a ser acompanhados por uma experiência básica de percepção, sensação e emo-ção. O segundo tipo de consciência, chamado às vezes de "consciência de ordem superior", envolve a autoconsciência - uma noção de si mesmo, formulada por um sujeito que pensa e reflete. Também chamada de "consciência reflexiva".

1.2.3 A natureza da experiência consciente

A experiência consciente é um fenômeno que surge espontaneamente (emergent pheno-menon) nasce da dinâmica não-linear complexa das redes neurais. Para chegar a uma compre-ensão plena da consciência, temos de estudá-la naquilo que Varela denominou "trança de três" do estudo da consciência: da física, da bioquímica e da biologia do sistema nervoso; e da di-nâmica não-linear das redes neurais.

O modo pelo qual a experiência consciente pode surgir dos processos neurofisiológicos parece altamente misterioso. Porém, esse surgimento é típico dos fenômenos emergentes. Os estudiosos da cognição do futuro não terão problemas conceituais com outras espécies de fenômenos emergentes, quando os analisarem em função da experiência consciente resultante.

Para fazer isso os cientistas terão de aceitar um paradigma novo - terão de reconhecer que a análise da experiência viva, ou seja, dos fenômenos subjetivos, tem de fazer parte de qualquer ciência da consciência que mereça ser considerada como tal

Já numa ciência da consciência, alguns dos próprios dados a ser examinados são experi-ências subjetivas e interiores. Para que esses dados sejam reunidos e analisados sistematica-mente, é preciso proceder-se a um exame disciplinado da experiência subjetiva, da experiência de "primeira pessoa". É só quando tal exame se tornar uma parte inalienável do estudo da consciência que este poderá se chamar, de pleno direito, uma "ciência da consciência".

1.2.4 As escolas de estudo da consciência

A primeira corrente de pensamento é a mais tradicional. Essa escola foi chamada de "neu-rorreducionista" por Francisco Varela, pois reduz a consciência aos mecanismos nervosos.

A consciência se reduz à ativação dos neurônios, mas também afirma que a experiência consciente é uma propriedade emergente do cérebro como um todo.

A segunda corrente de estudo da consciência, chamada de "funcionalismo” que afir-mam que os estados mentais são definidos pela sua "organização funcional". Negam, porém, que a experiência consciente seja um fenômeno emergente e irredutível.

Bem menos conhecida é a escola filosófica dos chamados "misterianos". Afirmam eles que a consciência é um mistério profundo, o qual a inteligência humana, jamais compreenderá.

Por fim, há uma corrente de estudos da consciência que, embora pequena, vem cres-cendo bastante, e que faz uso tanto da teoria da complexidade quanto dos relatos em primeira pessoa: "neurofenomenologia". É um método de estudo da consciência que combina em si o exame disciplinado das experiências subjetivas com a análise dos padrões e processos neurais correspondentes que procuram compreender de que maneira eles surgem espontaneamente a partir de atividades neurais complexas.

1.2.5 A visão a partir do interior

A premissa básica da neurofenomenologia é a de que a fisiologia do cérebro e a experiên-cia consciente devem ser tratadas como dois domínios de pesquisa interdependentes e igual-mente importantes.

No que diz respeito às experiências subjetivas, três grandes caminhos de análise estão sendo percorridos. O primeiro baseia-se na introspecção. O segundo é a abordagem fenome-nológica no sentido estrito. O terceiro caminho baseia-se no uso dos abundantes relatos deri-vados da prática da meditação.

Uma proposta no fim do século XIX e foi padronizada e praticada com grande entusi-asmo durante as décadas subseqüentes. Porém, logo deparou-se com os dados por ele levanta-dos divergiam muito das hipóteses formuladas a priori.

A fenomenologia, pelo contrário, foi desenvolvida como uma disciplina filosófica. Sua característica essencial é um gesto específico de reflexão chamado de "redução fenomenológi-ca”. A redução (do latim reducere, reconduzir) significa uma "recondução", uma libertação da experiência subjetiva através de uma suspensão da formulação de juízos acerca do que está sendo percebido.

No decorrer dos séculos, os estudiosos budistas formularam teorias elaboradas e sofisti-cadas acerca de muitos aspectos sutis das experiências conscientes, teorias que têm grande probabilidade de se tornar excelentes fontes de inspiração para os estudiosos da cognição. O diálogo entre a ciência da cognição e as tradições contemplativas budistas já começou, e seus primeiros resultados indicam que os dados obtidos através da prática da meditação serão um elemento precioso de qualquer ciência da consciência que venha a se constituir no futuro.

1.2.6 A consciência e o cérebro

Foram propostas por Francisco Varela e, mais recentemente, por Gerald Edelman junto com Giulio Tononi modelos como hipóteses, e a idéia básica de ambas as hipóteses é a mesma: a experiência consciente não se localiza numa parte específica do cérebro nem pode ser relacionada a determinadas estruturas neurais. É, antes, uma propriedade que surge espontane-amente de um processo cognitivo particular - a formação de aglomerados funcionais transitó-rios de neurônios.

Varela parte da observação de que o "espaço mental" de uma experiência é criado por muitas funções cerebrais diferentes, mas, não obstante, constitui uma única experiência coe-rente.

O mecanismo neural específico que Varela propõe para explicar o surgimento de estados transitórios de consciência é um fenômeno de ressonância chamado de "sincronização de fa-ses", no qual diferentes regiões do cérebro se interligam de tal modo que seus neurônios ati-vam-se em sincronia uns com os outros. Cada experiência consciente se baseia num conjunto específico de células, no qual muitas atividades neurais diferentes unificam-se numa totalidade transitória mas coerente de neurônios oscilantes.

Voltemo-nos agora para os processos neurais descritos no modelo de Gerald Edelman e Giulio Tononi. Cada estado de consciência compreende uma única "cena" que não pode ser decomposta em elementos independentes. Essa observação proporcionam dois critérios para a identificação dos processos neurais correspondentes: eles devem ser integrados e, ao mesmo tempo, manifestar uma extraordinária diferenciação, ou complexidade.

Segundo Tononi e Edelman, a experiência consciente surge espontaneamente quando as atividades de diferentes áreas do cérebro se integram por breves momentos através do proces-so de reentrada. Cada experiência consciente nasce de um aglomerado funcional de neurônios, que, juntos, constituem um processo neural unificado chamado de "núcleo dinâmico".

Apesar das diferenças de detalhes dinâmicos que as separam, as hipóteses dos "conjuntos de células ressonantes" e dos "núcleos dinâmicos" têm, evidentemente, muito em comum. Ambas concebem a experiência consciente como uma propriedade emergente de um processo transitório de integração, ou sincronização, de grupos de neurônios distribuídos por diferentes áreas do cérebro. Ambas oferecem modelos concretos e passíveis de verificação prática para explicar a dinâmica específica desse processo, e devem, assim, conduzir a avanços significati-vos na formulação de uma verdadeira ciência da consciência nos anos vindouros.

1.2.7 A dimensão social da consciência

O "mundo interior" da nossa consciência reflexiva surgiu junto com a evolução da lin-guagem e da realidade social. Isso significa que a consciência humana não é só um fenômeno biológico, mas também um fenômeno social. Esses processos interativos são essenciais para a compreensão do nível de abstração cognitiva que caracteriza a consciência reflexiva.

A comunicação não é uma transmissão de informações, mas antes uma coordenação de comportamentos entre organismos vivos através de uma acoplagem estrutural mútua. Nessas interações recorrentes, os organismos vivos mudam juntos, por meio de um desencadeamento simultâneo de mudanças estruturais. A linguagem surge quando se chega a um nível de abs-tração caracterizado pela comunicação sobre a comunicação. A linguagem é um sistema de comunicação simbólica. Seus símbolos - palavras, gestos e outros sinais - são sinais da coor-denação lingüística das ações.

1.2.8 Conversas com chimpanzés

Há uma maneira radicalmente nova de conceber a linguagem humana, elaborada a partir de várias décadas de pesquisa acerca da comunicação com chimpanzés pela linguagem de si-nais.

Recentes pesquisas com o DNA demonstraram que só há uma diferença de 1,6 por cento entre o DNA do ser humano e o DNA do chimpanzé. A continuidade entre os seres humanos e os chimpanzés não se restringe à anatomia, mas abarca também as características sociais e culturais.

A observação cuidadosa dos chimpanzés em estado selvagem mostrou que eles não usam as mãos somente para construir utensílios. Usam-nas também para comunicar-se entre si num grau jamais imaginado: gesticulam para pedir comida, para pedir ajuda e oferecer estímulo. Nos estudos de "adoção" de chimpanzés, os macaquinhos eram tratados como primatas dota-dos de uma forte necessidade de aprender e comunicar-se.

A primeira e mais famosa "filha adotiva" chamada Washoe, que, aos quatro anos de idade, era capaz de usar a ASL da mesma maneira que uma criança humana de dois ou três anos.

Quando Washoe chegou à idade adulta, ensinou seu filho adotivo a usar os sinais; e mais tarde, quando os dois passaram a viver na companhia de três outros chimpanzés de várias ida-des, constituíram uma família complexa e coesa na qual a linguagem manifestava-se com a máxima naturalidade. "Os chimpanzés faziam sinais uns para os outros até mesmo em meio aos gritos das brigas de família, o que deixa claríssimo que a linguagem de sinais se tornara uma parte inalienável da sua vida mental e emocional." Além disso, as conversas dos chimpanzés eram tão claras que, em noventa por cento das vezes, especialistas em ASL - sem o conhecimento uns dos outros - concordavam quanto ao sentido das "conversas" gravadas em vídeo.

1.2.9 As origens da linguagem humana

A idéia de que a linguagem possa ter-se originado com os gestos não é novidade. Há sé-culos que as pessoas notam que as crianças começam a gesticular antes de começar a falar e que os gestos constituem um meio universal de comunicação. O problema da ciência consistia em compreender de que maneira a fala poderia ter evoluído fisicamente a partir dos gestos.

O enigma foi resolvido pela neurologista Doreen Kimura, que descobriu que a fala e os movimentos precisos das mãos parecem ser controlados pela mesma região motora do cérebro. A linguagem de sinais faz uso de gestos das mãos; a linguagem falada, de gestos da língua.

A habilidade necessária para formar sinais precisos pôde ser transferida para a atividade de formar sons porque ambas as atividades são controladas pelas mesmas estruturas cerebrais. Até hoje, fazemos uso de gestos quando a linguagem falada não nos é suficiente. "Sendo a forma mais antiga de comunicação da nossa espécie", observa Fouts, "os gestos ainda consti-tuem a 'segunda língua' de todas as culturas."

1.2.10 A natureza humana

No decorrer das duas últimas décadas do século XX, os estudiosos da cognição fizeram três grandes descobertas, resumidas por Lakoff e Johnson: "A mente é intrinsecamente encar-nada. O pensamento é, em sua maior parte, inconsciente. Os conceitos abstratos são, em gran-de medida, metafóricos”.

O mais significativo desses avanços foi a cura gradual mas constante da cisão cartesiana entre espírito e matéria, que tem afligido a ciência e a filosofia ocidentais desde há mais de trezentos anos. Pesquisas recentes da ciência da cognição confirmaram e elaboraram essa opi-nião, mostrando de que maneira o processo de cognição evoluiu e assumiu formas cada vez mais complexas junto com as estruturas biológicas correspondentes.

Como demonstram as mais recentes descobertas da lingüística cognitiva, a mente humana, mesmo em suas manifestações mais abstratas, não é separada do corpo, mas sim nascida dele e moldada por ele.

1.2.11 A dimensão espiritual

Nesse majestoso desenvolvimento da vida, todos os organismos vivos respondem conti-nuamente às influências ambientais com mudanças estruturais, e o fazem de maneira autôno-ma, cada qual de acordo com a sua própria natureza. Desde o surgir da vida, as interações dos organismos uns com os outros e com o ambiente não-vivo foram interações cognitivas. À me-dida que aumentou a complexidade de suas estruturas, aumentou também a dos seus processos cognitivos, o que acabou por gerar enfim a consciência, a linguagem e o pensamento concei-tual. Quando examinamos de perto essa hipótese podemos ficar com impressão de que tudo o que importa na vida são as moléculas, e temos o direito de nos fazer a seguinte pergunta: e o que dizer a respeito da dimensão espiritual da vida? A nova compreensão da vida é uma com-preensão sistêmica, o que significa que se baseia não só na análise de estruturas moleculares, mas também na dos padrões de relação entre essas estruturas e dos processos específicos que determinam a sua formação

A palavra latina spirítus significa "sopro", e o mesmo vale para a palavra latina anima, a grega psyche e o sânscrito atman. O sentido comum de todos esses termos fundamentais indi-ca que o sentido original de "espírito" é o de sopro da vida. É o que nos alimenta e nos man-tém vivos.

Nossos momentos espirituais são os momentos em que nos sentimos mais intensamente vivos. A vitalidade ou vivacidade que sentimos durante essa "experiência de pico", não envol-ve somente o corpo, mas também a mente. A espiritualidade, portanto, é sempre encarnada. A experiência espiritual é uma experiência de que a mente e o corpo estão vivos numa unidade. Além disso, essa experiência da unidade transcende não só a separação entre mente e corpo, mas também a separação entre o eu e o mundo.

Quando olhamos para o mundo à nossa volta, percebemos que não estamos lançados em meio ao caos e à arbitrariedade, mas que fazemos parte de uma ordem maior, de uma grandi-osa sinfonia da vida. Cada uma das moléculas do nosso corpo já fez parte de outros corpos - vivos ou não - e fará parte de outros corpos no futuro. Nesse sentido, nosso corpo não morrerá, mas continuará perpetuamente vivo, pois a vida continua. Não são só as moléculas da vida que temos em comum com o restante do mundo vivente, mas também os princípios básicos da organização vital. E como também a nossa mente é encarnada, nossos conceitos e metáforas estão profundamente inseridos nessa teia da vida, junto com o nosso corpo e o nosso cérebro; com efeito, nós fazemos parte do universo, pertencemos ao universo e nele estamos em casa; e a percepção desse pertencer, desse fazer parte, pode dar um profundo sentido à nossa vida.

1.3 A Realidade Social

Após ter apresentado uma síntese das teorias recentes acerca dos sistemas vivos, traba-lhado no livro “A Teia da Vida” e ter preparado o caminho para que a mesma fosse aplicada no domínio social, o autor continua a desenvolver uma estrutura teórica unificada e sistemática para a compreensão dos fenômenos biológicos e sociais.

1.3.1 Três idéias sobre a vida

Para a compreensão sobre a natureza dos sistemas vivos, são apresentadas três idéias, que correspondem ao estudo da forma (ou padrão de organização), da matéria (ou estrutura mate-rial) e do processo.

Nesse contexto o estudo da forma consiste nos componentes do sistema e suas relações, na qual foi constatado que “o padrão de organização é o de uma rede auto geradora”. Em re-lação à matéria, que é a incorporação material do padrão de organização, “a estrutura material de um sistema vivo é uma estrutura dissipativa”, mantido em um estado distante do equilíbrio. Já sob o ponto de vista do processo, que é um processo vital e contínuo da incorporação mate-rial, os sistemas vivos são sistemas cognitivos, onde este processo cognitivo está relacionado ao padrão da vida (autopoiese).

Dessa forma, essas três idéias atuam e se relacionam mutuamente, como por exemplo, no metabolismo de uma célula: as reações químicas fazem parte do processo que envolvem a produção dos componentes da própria célula, a matéria, e todas as mudanças estruturais e au-todeterminas fazem parte do processo.

O autor expõe que a maioria dos cientistas enfatizam só a o estudo da matéria, e acredi-tam que os processo e os padrões são emergentes da matéria, e esta visão tem sido bem eficaz na física e na química, porém ao se estudar os sistemas vivos, esse modo de pensar mostra-se limitado.

“A característica essencial que distingue os sistemas vivos dos não-vivos - o meta-bolismo celular - não é uma propriedade da matéria nem uma "força vital" especial. É um padrão específico de relações entre processos químicos.(3) Embora envolva relações entre processos que produzem componentes materiais, o padrão em rede considerado em si mesmo é imaterial. As mudanças estruturais desse padrão em rede são compreendidas como processos cognitivos que por fim dão origem à experiência consciente e ao pensamento conceitual. Nenhum desses fenômenos cognitivos é material, mas todos são incorporados, decorrem num corpo, nascem do corpo e são moldados por ele. Isso significa que a vida nunca está separada da matéria, muito embora suas características essenciais - organização, complexidade, processos, etc. - sejam imateriais”.

1.3.2 O significado – a quarta perspectiva

A autoconsciência e a capacidade de reter imagens e sua importância para o surgimento ds características fundamentais da vida social são discutidos neste ponto. Questões relacionadas ao mundo interior dos conceitos, e o que “o caráter mental dos fenômenos sociais”, muito ligados à linguagem humana, “dando a entender que esta envolve antes de mais nada a comu-nicação de significado, e que as ações humanas decorrem do significado que atribuímos ao ambiente que nos rodeia”. Dessa forma o significado está relacionado às três primeiras pers-pectivas, abrindo uma nova dimensão “interior. Tomando como exemplo a cultura, esta é cri-ada e sustentada por uma rede (forma) de comunicação(processo), gerando um significado, que é produz como resultados materiais obras de arte, livros, e assim os significados são transmitidos por várias gerações.

1.3.3 A teoria social

O debate das ciências sociais do século XIX e XX são analisadas, abordando suas relação com os quatro pontos de vista (forma, matéria, processo e significado). A doutrina do filósofo social Auguste Comte, o positivismo, defende a existência das leis gerais do comportamento humano, inspirado nas leis da física, esta doutrina rejeita todas as explicações baseadas em fenômenos subjetivos e enfatiza a quantificação. As correntes posteriores contestaram muitos aspéctos do positivismo, mas lavaram consigo, inicialmente, a idéia da “causalidade social”. Neste sentido Emile Durkheim propôs que os “fatos sociais” eram as causas dos fenômenos sociais, tratando esses fatos (crenças ou práticas) como objetos materiais.

As principais correntes do início do século XX, o estruturalismo e o funcionalismo, tive-ram forte influência das idéias de Durkheim, tendo que “a tarefa do cientista social é a de identificar uma realidade causal oculta por baixo do nível superficial dos fenômenos observa-dos”. Fritjof identifica que Durkheim “procurou levar em conta as intenções e objetivos hu-manos (a perspectiva do significado) sem abandonar a estrutura conceitual da física clássica”. Outros estruturalistas são lembrados por seus trabalhos relacionando a lingüística, a realidade social e a consciência. Em 1960 o estudo da linguagem foi fortalecido pelas chamadas socio-logias interpretativas, onde defendem que os indivíduos interpretam o mundo em que vivem, e suas ações decorrem desta interpretação.

1.3.4 Giddens e Habermas - duas teorias integradores

Na segunda metade do séc. XX a Teoria Sociológica sofreu inovações em seus métodos, integrando escolas de visões antagônicas, como a Funcionalista e a Estruturalista.. E ainda analisando o significado da linguagem e atividade humana. Antony Giddes e Jurgem Haber-mas foram os autores de grande destaque nesse período.

A analise institucional é o método elaborado por Giddens para estudar as estruturas e as instituições sociais sua teoria da estruturação explora as interações entre a atividade humana e as estruturas sociais. Este estudioso utiliza-se da analise estratégica para observar a maneira que as pessoas se utilizam das estruturas sociais para a realização de seus objetivos.

Giddens, como a maioria dos teóricos sociais contemporâneos, acreditou que a estrutura social é definida como um conjunto de regras que são postas em atos na pratica social. Para Giddens há duas espécies de regras: os esquemas interpretativos e as normas morais.

Em Frankfut, na década de 1970, Hebermas desenvolveu a Teoria da Ação Comunicativa, pensamento que agrega à Sociologia novas reflexões e que irá, assim como Giddens, naquele mesmo período, inovar com as teorias sociais existentes.

Habermas é adepto de teoria critica de base marxista, que tem por objetivo ultimo a emancipação humana, O foco principal deste autor é a observação da estrutura social que pode constranger a ação dos indivíduos voltando-se então a questões de poder, notadamente, as relações de classe que envolvem a produção. Habermas concebe o conhecimento como sendo empírico-analítico, onde se pode associar o mundo externo ao estudo da linguagem e comuni-cação.

Como Giddens, Habermas destaca que a hermenêutica tem grande influencia na ação dos indivíduos que atribuem determinado significado ao ambiente que vivem e agem de acordo com essas atribuições, que são elas históricas e advindas de uma tradição.

1.3.5 A ampliação da hipótese sistêmica

As teorias de Giddens e Habermas ofereceram à teoria sociológica novos pontos de vistas que integram à ciência social concepções filosóficas e cognitivos. Demonstrando que o domí-nio social, apesar de uma complexa rede organizativa, é interligada por um todo sistêmico. Esse todo sistêmico durante milhões de anos vem evoluindo nas diferentes organizações soci-ais sem perder os fios condutores dos primórdios.

Em todos os níveis da vida, desde as redes metabólicas das células, ate as teias alimenta-res dos ecossistemas, os componentes e os processos dos sistemas vivos se interligam em forma de redes. Não querendo fazer comparações, tal qual Auguste Comte, no que diz respeito a organização dos seres humanos e a organização da natureza biológica, o autor deste texto conseguiu a partir de todo um estudo da teoria social desde os primórdios da Sociologia, demonstrar de forma didática, que “as redes sociais são antes de mais nada redes de comunicação que envolve a linguagem simbólica os limites culturais, as relações de poder e assim por diante”. E para compreendermos as estruturas sociais em rede, deverão os estudioso se lançarem em diferentes estudos da antropologia, da ciência da cognição e ainda de outros campos de estudo que venham a formar um sistema unificado para compreensão dos fenômenos biológicos e sociais.

1.3.6 Redes de comunicação

Antes de aplicar o conhecimento de redes vivas aos fenômenos sociais Capra faz uma re-flexão sobre a possibilidade de se aplicar o conceito de autopoiese ao domínio social. Niklas Luhmann defende a validade dessa aplicação chamando-a de teoria de autopoiese social. Na visão de Capra a autopoise é uma das caracteríticas específicas da vida.

Os estudos de Luhmann apontam a comunicação como elemento central das redes sociais. Através da rede de comunicação outras redes são formadas, pensamentos e significados são criados, moldados e modificados. É através desses ciclos que o individuo adquiri sua identi-dade como membro da rede social e a rede formula seu próprio limite externo.

1.3.7 O significado, a intencionalidade e a liberdade humana

A produção de estruturas materiais nas redes sociais é muito diferente da sua equivalente nas redes biológicas e ecológicas. Na sociedade humana, quando há criação de uma estrutura, é porque existe uma intenção, é a realização de algo predeterminado e existe um significado para esta realização.

A palavra significado expressa uma idéia, uma interpretação de algo. E para interpretar algo ou alguma coisa temos que ter como referência uma base de conceitos, valores, crenças. Nada tem sentido sozinho, por isso existe algo como referência de tempo, espaço...

Nós, seres humano, temos necessidade de agir com uma determinada intenção ou objeti-vo. E temos consciência de que nossas ações são voluntárias, intencionais e voltadas para um determinado objetivo.

Somos capazes de dois tipos de ações. Uma é involuntária e inconsciente, não depende da nossa vontade como a digestão do alimento a circulação do sangue. A outra é voluntária e in-tencional, e é nessa ação movida de intenção e por um objetivo que nós conhecemos a liber-dade humana.

É nesse ponto que surge o questionamento entre a liberdade e o determinismo.

De fato o comportamento do organismo vivo não é completamente livre, mas também não é determinado por forças exteriores.

O comportamento dos organismos vivos não é imposto pelo ambiente, mas estabelecido pelo próprio sistema, pelas mudanças estruturais autônomas.

A autonomia, neste caso, não pode ser confundida com uma independência, visto que há interação com o ambiente, mas não é o ambiente que lhes determina a organização.

Nos seres humanos, essa autodeterminação se reflete em nossa consciência como a liber-dade de agir de acordo com nossas convicções e decisões. Por essas convicções serem “nos-sas” carregam nossas experiências, nosso passado, são determinadas pela nossa natureza.

Por não sermos obrigados pelas relações de poder humanas, somos capazes de determi-narmos nosso comportamento por isso ele é livre.

1.3.8 A dinâmica da cultura

A rede de comunicação continuamente gera imagens mentais, pensamentos e comporta-mentos dos seus membros, da dinâmica e da complexa interdependência desses processos que nasce o sistema integrado de valores, crenças e regras de conduta que associamos ao fenômeno da cultura.

O termo cultura que na antiguidade significava um processo (de cultivar plantas , de criar animais), foi sofrendo modificações até o século XIX, onde o termo é utilizado para designar modos de vida específicos. Daí ser “o sistema integrado de valores, crenças e regras de condu-ta adquiridas pelo convívio social e que determina e delimita quais são os comportamentos aceitos por uma dada sociedade”, como registrado na Columbia Encyclopedia.

A cultura se insere e permanece profundamente entranhada no modo de vida das pessoas e essa inserção tende a ser tão profunda que até escapa a nossa consciência durante a maior parte do tempo. A identidade cultural também reforça o fechamento da rede, na medida em que cria um limite feito de significados e exigências que não permite que quaisquer pessoas e informações entrem na rede. Tal situação não é de todo diferente da existência da rede meta-bólica da célula, a qual produz e recria continuamente um limite – a membrana celular – que a confina, mas, ao mesmo tempo, dá à célula a sua identidade.

Porém, os limites sociais não são necessariamente limites físicos, mas limites feitos de significado e exigências, não envolvem literalmente a rede, mas existem num mundo mental que não tem as propriedades topológicas do estado físico.

1.3.9 A origem do poder

Na organização social o poder é uma das características mais marcantes, está ligado aos inevitáveis conflitos e visa promover o equilíbrio entre os interesses opostos.

John Kenneth Galbraith vê o exercício do poder como algo inevitável na sociedade mo-derna, sendo este a submissão de um ser humano à vontade de outro. Do ponto de vista social o poder seria maligno, porém, necessário. Galbraith classifica o poder em três espécies: poder coercitivo, poder compensatório e poder condicionado.

Provavelmente as relações de poder tenham surgido com as primeiras comunidades hu-manas, ma vez que tinham lideres investidos de poder, as autoridades. Estas, inicialmente eram definidas pela cultura, por sua sabedoria, posteriormente por serem simples portadores de insígnias, individualizando o poder e nascendo a exploração.

As posições de poder crescem proporcional às comunidades e às complexidades das mesmas, tornando-se indispensável no surgimento das estruturas sociais, pois a resolução de conflitos e as decisões de como agir nas comunidades complexas só são eficazes quando a au-toridade e o poder organizam-se em estruturas administrativas.

1.3.10 A estrutura nos sistemas biológicos e sociais

Neste ponto o autor explora a relação comparativa entre a estrutura nos sistemas biológi-cos e nos sociais. Para o estudo da análise sistêmica o principal elemento observado é a noção de organização, chamado por Capra de padrão de organização.

No domínio social, as diversas organizações – empresas ou instituições políticas – tiv