A FACULDADE DA LINGUAGEM
Tese: A FACULDADE DA LINGUAGEM. Pesquise 862.000+ trabalhos acadêmicosPor: leo89 • 5/9/2013 • Tese • 1.417 Palavras (6 Páginas) • 459 Visualizações
Eduardo Kenedy
1. INTRODUÇÃO
Neste capítulo, apresentaremos em linhas gerais os principais aspectos que
caracterizam a corrente de estudos lingüísticos conhecida como gerativismo.
Analisaremos a concepção de linguagem humana que norteia as pesquisas dessa
corrente, bem como faremos uma exposição da maneira gerativista de observar,
descrever e explicar os fatos das línguas naturais. Trata-se de uma visão geral,
introdutória e simplificada, destinada ao estudante que conhece pouco ou nada sobre o
gerativismo. Nas indicações bibliográficas, apresentadas ao fim do capítulo, o leitor
encontrará sugestões de leituras em português para prosseguir nos estudos sobre o
assunto.
2. A FACULDADE DA LINGUAGEM
A lingüística gerativa – ou gerativismo, ou ainda gramática gerativa – é uma
corrente de estudos da ciência da linguagem que teve início nos Estados Unidos, no
final da década de 50, a partir dos trabalhos do lingüista Noam Chomsky, professor do
Instituto de Tecnologia de Massachussets, o MIT. Considera-se o ano de 1957 a data do
nascimento da lingüística gerativa, ano em que Chomsky publicou seu primeiro livro,
Estruturas sintáticas. Trata-se, portanto, de uma linha de pesquisa lingüística que já
possui 50 anos de plena atividade e produtividade. Ao longo desse meio século, o
gerativismo passou por diversas modificações e reformulações, que refletem a
preocupação dos pesquisadores dessa corrente em elaborar um modelo teórico formal,
inspirado na matemática, capaz de descrever e explicar abstratamente o que é e como
funciona a linguagem humana.
A lingüística gerativa foi inicialmente formulada como uma espécie de resposta
e rejeição ao modelo behaviorista de descrição dos fatos da linguagem, modelo esse que
foi dominante na lingüística e nas ciências de uma maneira geral durante toda a primeira
metade do século XX. Para os behavioristas, dentre os quais se destacava o lingüista
norte-americano Leonard Bloomfield, a linguagem humana era interpretada como um
condicionamento social, uma resposta que o organismo humano produzia mediante os
estímulos que recebia da interação social. Essa resposta, a partir da repetição constante e
KENEDY, E. Gerativismo. In: Mário Eduardo Toscano Martelotta. (Org.). In.: Manual de lingüística. São Paulo:
Contexto, 2008, v. 1, p. 127-140.
_______________________________________________________________________________________________
128
mecânica, seria convertida em hábitos, que caracterizariam o comportamento lingüístico
de um falante. Vejamos, por exemplo, como Bloomfield descrevia a maneira pela qual
uma criança aprendia a falar uma língua:
“Cada criança que nasce num grupo social adquire hábitos de
fala e de resposta nos primeiros anos de sua vida. (...) Sob
estimulação variada, a criança repete sons vocais. (...) Alguém,
por exemplo, a mãe, produz, na presença da criança, um som
que se assemelha a uma das sílabas de seu balbucio. Por
exemplo, ela diz doll [boneca]. Quando esses sons chegam aos
ouvidos da criança, seu hábito entra em jogo e ela produz a
sílaba de balbucio mais próxima, da. Dizemos que nesse
momento a criança começa a imitar. (...) A visão e o manuseio
da boneca e a audição e a produção da palavra doll (isto é, da)
ocorrem repetidas vezes em conjunto, até que a criança forma
um hábito. (...) Ela tem agora o uso de uma palavra.”
(Bloomfield, 1933: 29-30)
Para um behaviorista, a linguagem humana é exatamente o que descreveu
Bloomfield: um fenômeno externo ao indivíduo, um sistema de hábitos, gerado como
resposta a estímulos e fixado pela repetição. Numa resenha feita em 1959 sobre o livro
Verbal behavior (Comportamento verbal), escrito por B. F. Skinner, professor da
famosa universidade de Harvard e principal teórico do behaviorismo, Chomsky
apresentou uma radical e impiedosa crítica à visão comportamentalista da linguagem
sustentada pelos behavioristas. Na resenha, Chomsky chamou a atenção para o fato de
um indivíduo humano sempre agir criativamente no uso da linguagem, isto é, a todo
momento, os seres humanos estão construindo frases novas e inéditas, ou seja, jamais
ditas antes pelo próprio falante que as produziu ou por qualquer outro indivíduo.
Por isso, todos os falantes são criativos, desde os analfabetos até os autores dos
clássicos da literatura, já que todos criam infinitamente frases novas, das mais simples e
despretensiosas às mais elaboradas e eruditas. Pensemos, por exemplo, na frase que
acabamos de produzir aqui mesmo neste texto. É muito provável que ela nunca tenha
sido proferida exatamente da maneira
...