Oralidade E Escrita: Dificuldades De Ensino-aprendizagem Na Alfabetização
Exames: Oralidade E Escrita: Dificuldades De Ensino-aprendizagem Na Alfabetização. Pesquise 862.000+ trabalhos acadêmicosPor: SABENORO • 30/9/2014 • 2.894 Palavras (12 Páginas) • 1.607 Visualizações
Fracasso escolar: buscando explicações para as dificuldades de ensino e
aprendizagem na alfabetização
Uma das explicações dadas para o fracasso da alfabetização no Brasil é a de que a democratização do acesso à
escola, ocorrida a partir dos anos 70, levou a instituição a lidar com crianças que teriam, em razão de suas condições
de vida, sérias deficiências culturais e lingüísticas, que acarretariam dificuldades de aprendizagem. Considerava-se
que essas crianças, de um modo geral, apresentavam problemas de disciplina e não valorizavam a escola. Além disso,
sua linguagem oral seria muito distante da língua escrita e, em seu ambiente familiar, elas não teriam oportunidades
de vivenciar os usos da escrita e nem de conviver com pessoas que valorizassem este tipo de aprendizado.
De fato, os dados estatísticos (dentre eles os do Saeb) mostram que o chamado fracasso escolar tende a se
concentrar nas crianças oriundas de meios menos favorecidos economicamente. No entanto, diferentes estudos
mostram também que, ao contrário do que em geral se afirma, essas crianças possuem um adequado desenvolvimento
cultural e lingüístico e que é a escola que apresenta sérias dificuldades para lidar com a diversidade cultural,
lingüística, e mesmo étnica, da população brasileira.
Os principais objetivos ao trazer as idéias aqui apresentadas são:
• discutir as diferentes explicações para esse fracasso;
• mostrar que, mesmo experimentando difíceis condições de existência, essas crianças apresentam um
adequado desenvolvimento cultural e lingüístico.
Uma reflexão sobre diferentes explicações para o fracasso escolar
Possivelmente, você já se deparou em sua escola, em sua sala de aula, com crianças que apresentam os
chamados “problemas de aprendizagem”, particularmente, na aquisição da leitura e da escrita. Com certeza, essas
crianças não são os únicos casos de “crianças problemas1” existentes por aí. As crianças que estão diante de nós não
estão sozinhas – na minha escola, na sua escola, na escola vizinha, naquela escola lá do outro lado da cidade e ainda
na escola vizinha dessa escola – encontramos inúmeras crianças que não estão tendo sucesso, que fracassam em seu
aprendizado. Por vezes, essas crianças passam anos freqüentando a escola, até que um dia desistem, “entendem”
que não têm “cabeça para o estudo” ou simplesmente vão “cuidar da vida e trabalhar”, “fazer um bico e arranjar
uns trocados para ajudar em casa”.
Assim como o problema de crianças que fracassam na escola não acontece apenas em sua escola, professor,
ele também não é um problema que surgiu somente agora, nos dias atuais. Pelo contrário, esse é um problema cuja
história se inicia com a própria história da escolarização pública. Com a institucionalização do ensino obrigatório,
surgem tanto histórias de sucesso de alguns quanto histórias de fracasso de muitos outros. Observe, por exemplo,
as expressões que, ao longo dos anos, foram sendo atribuídas aos alunos que, por diferentes motivos, não obtêm
sucesso nos seus primeiros anos de escolarização:
“débil, deficiente mental educável, antiintelectual, criança com desvio de conduta, criança lenta, criança
com repertório comportamental limitado, criança com distúrbios de desenvolvimento, criança com distúrbios
de aprendizagem, carente lingüístico, carente cultural, criança com pobreza vocabular, com atraso
de maturação, com distúrbio psicomotor, com problemas de socialização, hiperativa, disléxica, portadora
de necessidades especiais” (Grifo, 1996).
É evidente que tais nomeações não surgem ao acaso. Elas expressam diferentes perspectivas de entendimento
das causas do fracasso escolar ao longo da história.
Nas últimas décadas do século passado, várias hipóteses causais foram apresentadas como explicação para o
fracasso escolar, dando origem à consolidação de quatro diferentes abordagens para interpretação desse fenômeno:
Organicista, Instrumental Cognitivista, Questionamento da Escola, “Handicap” Sociocultural. Essas abordagens
organizam-se em torno de questões, hipóteses explicativas e metodologias de pesquisa que orientam os profissionais
de diversas áreas – médicos, professores, supervisores, psicólogos etc. – em seu processo de estudo e intervenção
junto a crianças com problemas de aprendizagem.
Apresentamos, a seguir, uma breve caracterização de cada uma dessas abordagens.
A primeira teorização sobre as dificuldades de aprendizagem surgiu na França, no final do século XIX, e ficou
conhecida como Abordagem Organicista (Fijalkow, 1989), por investigar as causas do fracasso escolar levantando hipóteses
sobre os possíveis distúrbios e doenças neurológicas do aluno. As pesquisas realizadas nessa linha de investigação
1 Expressão típica dos anos 30, presente nas publicações que localizam as causas das dificuldades nos instrumentos da psicologia clínica e que buscam
no ambiente sociofamiliar as causas dos desajustes e problemas
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