Um Cinturão, de Graciliano Ramos
Por: Jurema Silva Araújo • 20/8/2019 • Seminário • 329 Palavras (2 Páginas) • 675 Visualizações
O conto é a materialidade com a qual trabalhamos; o espaço, especificamente o canto, constitui a metáfora, ao mesmo tempo densa e fluida, que nos permitirá ter acesso à memória; esta figurando como substância viva da infância do escritor alagoano e em movimento contínuo.
Pai: Sebastião
“[…] minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me funda impressão” (RAMOS, 2003, p. 31. Grifos nossos)
As crianças da literatura e os seus lugares de sonhos: Asteroide B612, a toca do coelho, o canto do menino Graciliano...
O espaço em Graciliano: sua casa é seu continente, a casa-universo, a casa-diagrama, sua concha do mundo.
Espaço em Bachelard: camadas de imagens poéticas retidas na memória.
Eis o ponto de partida de nossas reflexões: todo canto de uma casa, todo ângulo de um aposento, todo espaço reduzido onde gostamos de nos esconder, de confabular conosco mesmos, é, para a imaginação, uma solidão, ou seja, o germe de um aposento, o germe de uma casa (Bachelard em A Poética do Espaço)
A escrita cinematográfica de Graciliano (Ex.: Fabiano surrado). São quadros que focalizam elementos narrativos. Em Um cinturão as adequadas escolhas linguísticas dão ao leitor o ponto de vista do pequeno narrador, especialmente pelo adjetivo enorme:
Meu pai dormia na rede armada na sala enorme. Tudo é nebuloso. Paredes extraordinariamente afastadas, rede infinita, os armadores longe, e meu pai acordando, levantando-se de mau humor, batendo com os chinelos no chão, a cara enferrujada (RAMOS, 2003, p. 31).
Dimensão corpo e canto = menino maior que o mundo. O ponto de vista da criança traz à tona certos excessos linguísticos que Graciliano comumente rejeitava: enorme, extraordinariamente, rede infinita, zanga terrível, tremura infeliz. Para o miúdo, tudo era vasto, intenso, enorme. A linguagem, então, sonha: “Para grandes sonhadores de cantos, de ângulos, de buracos, nada é vazio, a dialética do cheio e do vazio corresponde apenas a duas irrealidades geométricas” (BACHELARD, 1978, p. 289). – O escritor conjuga e preenche o espaço dialeticamente: o canto protege, mas também vulnerabiliza (o ângulo em 90°)
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